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A hora do Congresso

Parlamentares estarão à altura de votar importantes mudanças econômicas?

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2019 | 03h00

O Congresso que assume na próxima sexta-feira é profundamente diferente do anterior. Foram varridos caciques políticos que há décadas pontificavam nos plenários da Câmara e do Senado, oscilando como pêndulos na órbita do governo de turno, perpetuando oligarquias da velha política na base do fisiologismo raiz.

Agora, os últimos remanescentes dessa era geológica da política, como Renan Calheiros, dividirão a ribalta, e lutarão pela sobrevivência, com os espécimes da chamada “nova política”. Não se trata de um grupo homogêneo por nenhum prisma que se analise: social, político-ideológico ou cultural.

As urnas despacharam para Brasília mais representantes de igrejas, um número recorde de parlamentares de farda, uma quantidade considerável de youtubers e expoentes de outras mídias sociais, representantes de movimentos ativistas e paraquedistas eleitos de carona pura e simples na onda Jair Bolsonaro (caso do tio do dog que teve a sacada de fazer os sanduíches batizados com o nome do então candidato).

Que bicho isso vai dar, é impossível dizer antes que a legislatura comece. Justamente porque o caráter heterogêneo das duas Casas, a pulverização partidária que houve nas eleições, a renovação inclusive etária, o apelo midiático trazido na bagagem pelos novos eleitos e as tarefas muitas vezes contrárias a essas características que os esperam podem causar um caldo de cultura bastante complexo e imprevisível.

Os primeiros testes antes mesmo da posse já mostraram que não será trivial. Empolgado com um convite irresistível, um grupo de novos parlamentares do PSL, o partido do presidente da República, foi à China, com direito a ampla cobertura em suas estridentes redes sociais, conhecer uma tecnologia de reconhecimento facial que poderia ser trazida para o Brasil. A casa caiu. Foram acusados pelos próprios colegas, gurus e seguidores de traidores da Pátria. Sentiram no cangote o calor que gostam de impingir aos inimigos. Gaguejaram, titubearam.

O mesmo PSL fechou, no início do mês, o apoio a Rodrigo Maia para a presidência da Câmara, a partir de um cálculo pragmático de que o deputado do DEM seria o mais talhado para ajudar o governo Bolsonaro a conduzir as reformas. A casa caiu. Foram de novo acusados pelos seguidores de vendilhões do templo, de terem sido cooptados pela velha política, traindo os desígnios de seus eleitores. Resultado: o partido rachou e pode passar de dez a dissidência na bancada que vai apoiar o candidato-calouro do Partido Novo, uma sigla que nem estreou na Casa, mas já quer sentar na cabine do piloto e comandar a votação da emenda constitucional da reforma da Previdência, aquela que vai determinar se o País vai sair do buraco em que o PT o enfiou ou continuar chafurdando lá no fundo. Lembra em muito o filme Picardias Estudantis, que é dos anos 1980, então não deve ter sido assistido pelos jovens parlamentares.

Esses dilemas algo juvenis estarão a todo momento colocados diante do novo Congresso. Trocar uma geração de dinossauros por sangue novo pode ser auspicioso, mas também vai implicar, em muitos momentos, que se perca tempo com discussões típicas de centros acadêmicos, de um lado, e com guerras puramente ideológicas e de pouco ou nenhum ganho prático para o País, de outro, como o projeto alegórico do Escola sem Partido.

Enquanto isso, os temas para adultos, aqueles que levarão seus defensores inevitavelmente a sangrar nas redes sociais, a enfrentar apavorantes dislikes em seus vídeos, esses vão depender de uma articulação política neófita, com parlamentares neófitos e um governo de marinheiros de primeira viagem. São as dores do crescimento.

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