FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO

‘A guinada à direita com Bolsonaro vai ser longa’

Silas Malafaia diz que prioridades da gestão serão emprego, violência e desburocratização: ‘Não é a agenda religiosa’

Entrevista com

Silas Malafaia, líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

20 Novembro 2018 | 05h01

Rio - Líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, o pastor Silas Malafaia, de 60 anos, acredita que a guinada à direita do País, com Jair Bolsonaro (PSL) na Presidência e um Congresso mais conservador, irá possibilitar que pautas como a Escola sem Partido, a redução da maioridade penal e a manutenção da criminalização do aborto (esta, hoje na esfera do Supremo Tribunal Federal) prosperem na Câmara dos Deputados e no Senado. 

Em entrevista ao Estado, ele disse, no entanto, que as maiores preocupações dos brasileiros cristãos, evangélicos e católicos, não estão na chamada “agenda moral”, que esteve em evidência no período eleitoral. São as questões econômica e social, como o desemprego, a corrupção e a necessidade de fazer o Brasil crescer. 

Para Malafaia – que conhece Bolsonaro há 12 anos e fez campanha a seu favor na internet, alegando que ele tem “defeitos e limitações”, mas apresenta uma “vida limpa” – anuncia-se um extenso período da direita no poder. “A guinada à direita vai ser longa.” 

A seguir os principais trechos da entrevista: 

O senhor acredita que com Bolsonaro no Planalto a “agenda moral” defendida pelos políticos evangélicos vai prosperar?

Ele foi eleito pelo discurso de combate à corrupção e ao crime organizado, para enxugar a máquina. As prioridades são emprego, violência, desburocratização. Não é a agenda religiosa. Não é preciso forçar a barra, vai acontecer naturalmente. Essas pautas de defesa da família passam pelo Congresso. A bancada evangélica e da segurança pública aumentaram. Se nessa legislatura que está acabando não conseguiram derrubar nada, vai ser agora? Nem é necessária a intervenção do Bolsonaro no sentido direto. Agora, ele é o que ele fala, e tem poder de veto. 

Dessas pautas, quais considera as mais urgentes?

Não tem demanda imediatista. Endurecer em relação à corrupção, baixar a maioridade penal, aprovar o (projeto) Escola sem Partido (que, em linhas gerais, propõe neutralidade na educação e uma série de restrições a professores quando abordarem assuntos relacionados à política, religião ou ideologias). É o que interessa. Por que a esquerda está pulando com o Escola sem Partido? Porque está controlando as escolas ideologicamente. Só tem o lado da esquerda. Mas os evangélicos não estão preocupados com a agenda de costumes. O evangélico também está desempregado, toma tiro no assalto, está desesperado.

Acredita que a descriminalização do aborto irá para o Congresso?

É uma vergonha o Judiciário querer legislar, uma afronta à sociedade aprovarem aborto na caneta. Esta é a questão que mais defendemos. Se o (ministro Luís Roberto) Barroso continuar falando as asneiras que já falou, eu tenho que rir. O direito à vida é a mãe de todos os direitos. Se o STF cumprir seu papel de guardião da Constituição, quem vai decidir é o Parlamento, que expressa a vontade do povo. Aí não vai dar nem para o cheiro. 

O senhor defende a maioridade penal aos 15 anos, antes até da idade proposta pelo Bolsonaro. 

A molecada está de fuzil M82, que fura parede. Tem que aprender que se cometer crime, vai preso. Um cara de 17 anos, que faz filho, não pode ser responsabilizado criminalmente? Os verdadeiros vagabundos botam nas costas deles.

Qual foi o peso do eleitorado evangélico para Bolsonaro?

Os evangélicos se sentem representados por ele. Ele é católico e a maioria no Brasil é cristã. Eu disse em março que teria 80% do voto evangélico. A guinada à direita vai ser longa. Bolsonaro está com uma gana de acertar danada, me disse: ‘Se eu errar, aquela esquerda miserável vai voltar’. O Brasil estaria perdido. A grande virtude dele vai ser mudar a mentalidade do ‘meu pirão primeiro’. Vamos entrar num ciclo de prosperidade. Ele vai trazer tecnologia de Israel para irrigar o Nordeste e, se conseguir, vai roubar o último reduto do PT. Israel exporta US$ 2 bilhões com agricultura, um paisinho daquele, menor do que o Sergipe. Ele tem que ser um líder com vontade, amor à pátria, e não se deixar levar pelas armadilhas do poder, porque o poder corrompe. 

O senhor pediu votos para Bolsonaro mesmo tendo se desentendido com ele e declarado que ele não tem capacidade para ser presidente. 

Se eu não tivesse mudado de ideia, não teria apoiado. O povo brasileiro há um ano e meio não achava que ele tinha capacidade, vai ver a pesquisa como era. Ninguém acreditava nele. Eu posso discordar de uma pessoa, e eu discordo muito dele. Não sou estúpido. A unanimidade é burra. Todas as vezes que tentaram fazer crocodilagem com o Bolsonaro, chamaram de estuprador, eu botei para quebrar em defesa dele. Quando fizeram sacanagem comigo, ele demorou para se manifestar. Depois me ligou, cinco dias depois, e eu respondi ‘agora não preciso de você’. Fiquei invocado, é natural do ser humano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.