A guerreira suave

Numa hora em que falta luz e esperança pela morte de uma pessoa querida é impossível ser objetivo, mas pode-se ser isento. Com isenção registro que minha geração perdeu com a morte de Ruth Cardoso uma de suas mais ilustres figuras.  Tudo o que foi feito neste país, no plano acadêmico, no da sociedade civil, na responsabilidade social e no político, com a dignidade que se der a esta expressão como instrumento do bem comum, passou por ela e dela recebeu contribuição.  Desde os bancos universitários na antiga e histórica faculdade de filosofia da Maria Antonia orientou sua vida no sentido de utilizar a cultura e força das idéias para levar água num moinho das inovações, da modernidade e na correção conseqüente das desigualdades. Como mulher acreditou na mulher e foi uma das pioneiras no feminismo que desbravou preconceitos e, também, as armaduras da lei que deixavam exclusivamente para os homens as posições de influência e comando da sociedade. Ruth alistou-se nesta luta com a fibra dos que nascem em Araraquara, pólo indutor de progresso e pertinácia do interior paulista. Foi com esta mesma fibra que lecionou antropologia buscando as raízes que explicam a contribuição que a imigração, como a japonesa por ela pesquisada, legou a São Paulo. Viveu os dias de reconhecimento acadêmico e o exílio no Chile. Ninguém diria que tenha ouvido dela uma palavra exaltada em que o desespero e o ódio estimulassem a desforra.  Em tudo procurava o enquadramento racional e sua imensa capacidade de análise buscava o que supera e resolve. Se se deseja um conselho pessoal ou de um grupo era a ela que se deveria recorrer. Eu lhe dizia: Ruth, você vai à jugular das questões, abandonando tudo o que seja o peso morto do detalhe e da complicação.  Ruth acompanhou Fernando Henrique no poder sem perder sua estrutura de formação e sólida maneira de ser. Nas recepções com potentados ou na intimidade com o círculo de amigos que conservou, a mesma figura suave, digna, sem ilusões ou arrebatamentos que as luzes da ribalta causam a tantas pessoas. A mesma Ruth da luta da anistia, com a mesma simplicidade e elegância, estava na carruagem da rainha ou discutindo com a cúpula do Louvre, em francês escorreito, a pintura clássica de La Tour. Jamais disparou foguetes retóricos por ter tirado do analfabetismo mais de 10 milhões de brasileiros, com sua Alfabetização Solidária, ou substituído por filantropismo anestésico pela capacitação que incentiva.  Tenha-se o julgamento que se tiver do legado dos oito anos de Presidência Fernando Henrique, há um dado exato como a matemática: até hoje - e Deus ajudará que assim continue - o mais longo período que um governo eleito livremente comandou o Brasil com democracia. E todos os que participaram deste período sabem o quanto, para isso, se deve à lucidez, à abertura de idéias e à capacidade de agregação solidária de Ruth Cardoso. Hoje a impressão que se tem, com a intensidade da repercussão de sua morte, é que todo o povo brasileiro, acima das paixões que separam, está percebendo o tamanho desta contribuição.  * José Gregori é presidente da Comissão de Justiça e Paz e ex-ministro da Justiça  Nota da Redação: este texto foi originalmente publicado em O Estado de S. Paulo em 26 de Junho de 2008

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