Capítulo 24

A guerra revolucionária do 'gabinete do ódio'

Bolsonaro prefere negar a verdade em vez de romper com o núcleo que ataca os generais do Planalto

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 11h06

Caro leitor,

Os militares dividem a administração de suas unidades em seções que cuidam de cada aspecto da vida do quartel, do pessoal à comunicação com o exterior. Sabem identificar estruturas e analisar os efeitos que elas têm em cada organização. As seções do Estado-Maior se multiplicam em cada unidade militar, dos grandes comandos aos batalhões.

As mudanças táticas e a modernização das armas levam os exércitos a modificar essas estruturas. Em 1955, a direção das tropas coloniais francesas nomeou o coronel Charles Lacheroy diretor do Centro de Estudos Asiáticos e Africanos (CEAA). Localizado no boulevard Port Royal, em Paris, o lugar se tornou o viveiro da ação psicológica na guerra moderna.

“Eu me havia fixado o objetivo de convencer os meus antigos chefes das mudanças causadas pela guerra revolucionária em nossas concepções militares tradicionais.” Como não conseguiu ser ouvido pelo alto da hierarquia, Lacheroy decidiu procurar as bases. Tinha cerca de 60 alunos, a maioria tenentes e capitães, em cursos de duração de três meses.

A frieza dos generais foi recompensada pelo entusiasmo da jovem oficialidade. Em pouco tempo, os tenentes e capitães se transformariam em militantes do partido fardado francês. Lacheroy defendia que para enfrentar os revolucionários de Ho Chi Min e da Frente de Libertação Nacional da Argélia era preciso um exército revolucionário, com o espírito dos cruzados.

Criava-se no Exército francês os guerreiros ideológicos, chamados à época de centuriões. Seções de guerra psicológica se espelharam pelas unidades do Exército. Lacheroy invertia o famoso aforismo do pensador militar Carl von Clausewitz: não era mais a guerra que continuava a política por outros meios, mas esta que se tornava uma guerra por outros meios.

Em 13 de maio de 1958,  Lacheroy estava na Argélia quando o Exército - que sufocara a guerrilha urbana em Argel ao custo de 5 mil desaparecidos - derrubou a IV República, impondo a volta do general De Gaulle ao poder. De Gaulle compreendeu bem as intenções de Lacheroy e mandou fechar as seções responsáveis pela guerra psicológica. Se algum general podia fazer política na França era ele, chefe do Poder Civil. Três anos depois, Lacheroy estava ao lado dos militares que tentaram o golpe contra De Gaulle, o que lhe valeu sete anos de exílio antes da anistia de 1968.

É dentro de uma lógica da guerra que Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, criou no Palácio do Planalto sua equipe de centuriões, o gabinete do ódio. Os militares do governo identificaram esse corpo estranho e sabem que dele partiram ataques aos generais Hamilton Mourão e Santos Cruz. Sabem que ele produz peças mais tarde compartilhadas pelo professor de cursos online Olavo de Carvalho e pelo pastor e deputado federal Marco Feliciano (Podemos-SP).

Na semana passada, Feliciano atacou o general Luiz Eduardo Ramos, atual ministro-chefe da Secretaria de Governo, o que pode ser uma nova temporada de caça aos generais do Planalto. É que Ramos é amigo do presidente, algo que a máquina do ódio não admite. Ela quer ter o monopólio dos ouvidos de Jair Bolsonaro.

E o presidente, em vez de agir como De Gaulle e desmontar o núcleo de Carluxo no Planalto, prefere culpar a imprensa. Ela teria inventado o tal gabinete porque age com “falta de patriotismo”. E assim o primeiro mandatário se vê envolto por um grupo de jovens capazes de mandá-lo cortar o cabelo em vez de receber o chanceler francês. O grupo não sabe que pisar nos corredores do Planalto não é o mesmo que caminhar em cima das instituições da República.

T.S. Eliot lembrou em seu Notes towards the definition of culture os desastrosos efeitos das guerras religiosas na Alemanha do século 16 e na Inglaterra do século 17, apesar de considerar que há momentos em que a única forma de manter uma religião viva é a ruptura sectária. Escolhe-se entre heresia e descrença. Católico conservador, o poeta apostava no diálogo entre o local e o universal para evitar a petrificação e a descrença sem aprofundar as divisões e ódios.

Bolsonaro prefere ouvir poucos. E faz suas escolhas. Mas qual movimento político - e o bolsonarismo está entre eles - sobrevive à opção da descrença em vez da coragem da ruptura? O ódio não une nações ou palácios; menos ainda negar a existência do que todos sabem ser verdade. Não se defende a Pátria com a mentira. Como observou Eliot, o patriotismo exagerado é uma perversão e será sempre uma “caricatura de si mesmo”.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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