A greve e a urna

Difícil prever o que o movimento dos caminhoneiros projeta para as eleições

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 03h00

O Brasil chegou próximo a uma catarse nas duas últimas semanas. Um movimento que era a princípio apenas reivindicatório de uma categoria parou o País e, na esteira dele, surgiram questões que certamente estarão presentes até a eleição. 

O difícil é cravar, já, como elas serão assimiladas até lá pelos candidatos (a todos os postos em disputa, não só à Presidência) e pelos eleitores. O governo Michel Temer, que seria um terceiro ator na equação, cada vez mais deixa de ter relevância, vai só cumprir tabela até dezembro.

A primeira dessas questões diz respeito à dicotomia que surgiu na cabeça da maioria das pessoas que apoiaram (ao menos num primeiro momento) a greve dos caminhoneiros: a da alta carga tributária brasileira em contraposição a serviços indigentes e privilégios dos políticos.

Só aí já há uma extensa pauta para os políticos. A sociedade clamou por uma reforma tributária. O maior entrave hoje para que ela saia é a resistência dos Estados. Basta ver que na hora de “abrir” a composição do preço dos combustíveis ficou evidente o peso do ICMS, mas os governadores trataram de dizer “aqui não, violão”.

Qual a reforma tributária proposta pelos presidenciáveis? O que os candidatos a governador têm a dizer sobre ideias como unificação do ICMS e fim das políticas próprias de incentivo fiscal?

O eleitor imagina um cenário róseo em que os impostos serão reduzidos quase por decreto, a partir de uma conta simplista em que os “privilégios" dos políticos sejam atacados por um presidente de “pulso”.

Não é assim que funciona. O fim de privilégios como altos salários dos três Poderes, auxílios variados e aposentadorias de “marajás” depende da aprovação de medidas complexas, que os candidatos têm medo de assumir nos discursos e o Congresso hesita em votar, como a reforma da Previdência.

Uma segunda grande pauta que emerge como herança da greve dos caminhoneiros é a relação do governo com a Petrobrás. Os mesmos indignados que bradavam por “privatização já” depois que os governos do PT quase quebraram a empresa aderiram sem embargo aos clamores por subsídio, congelamento e arbitragem do governo ao preço do diesel.

A irracionalidade foi tal que se viu até tucanos e democratas entoando de forma oportunista o coro de “fora Pedro Parente”, como fizeram os senadores Cássio Cunha Lima e Ronaldo Caiado. Sem se importar com o fato de que a política que ele implementava na empresa era aquela que seus partidos apregoam desde o governo Fernando Henrique Cardoso, que aprovou a quebra do monopólio no petróleo. E que tinha o então PFL no comando da área de minas e energia.

PSDB e DEM vão seguir a linha populista-irresponsável na qual embarcaram alguns de seus caciques ou vão defender a independência da companhia para definir sua política de preços? O governo é o acionista majoritário da Petrobrás, mas trata-se de uma empresa de economia mista e capital aberto. A noção de que a última palavra tem de vir de Brasília levou ao petrolão e a quase quebrar a empresa sob Dilma Rousseff. 

Por fim, resta a questão política que aflorou com a greve. Movimentos golpistas pegaram carona na boleia para pregar abertamente a derrubada do governo e intervenção militar, com antecipação ou mesmo cancelamento das eleições. E os candidatos do chamado centro se esconderam e não deram a resposta dura necessária contra essa sandice. 

O preço dessa covardia pode ser alto. O clima que reinou no País nestas duas semanas mostra que há um solo fértil para aventureiros. Ou os que têm compromisso com a institucionalidade e a transição racional e democrática do flagelo dos anos Dilma-Temer saem da toca e falam aos eleitores ou o resultado da eleição pode ser desastroso.

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