‘A governabilidade no País parece estar evaporando’

Pesquisador britânico duvida que Temer consiga tocar reformas e diz ser favorável a uma eventual eleição direta

Entrevista com

Anthony Pereira

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2017 | 05h00

CORRESPONDENTE / PARIS - A nova onda de denúncias deixou até mesmo o pesquisador britânico especialista em Brasil estarrecido. Além de considerar as evidências condenatórias, Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute do Kings College of London, avalia que a situação tem potencial de mergulhar o País em sua segunda gravíssima crise política e institucional em dois anos.

A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

Qual a sua análise a respeito das gravações da JBS?

Os áudios são muito graves, sugerem pagamentos a Eduardo Cunha (deputado cassado do PMDB-RJ), para comprar seu silêncio. Nada foi provado, é claro, mas a evidência parece condenatória.

Apesar de a Constituição dizer o contrário, a opinião pública tem se mostrado a favor de eleições direta. Qual a melhor solução?

Esta é uma questão para o povo brasileiro, mas, tendo em conta tudo o que aconteceu e considerando a baixa estima, bastante compreensível, dos eleitores por seus congressistas, eu seria em favor de uma emenda constitucional para novas eleições.

Se Temer continuar no poder, o sr. considera que terá força política para realizar as reformas?

Eu duvido. As reformas foram adiadas, ele está perdendo ministros e apoio no Congresso, e o fundamento de sua governabilidade, que já era magro, parece estar se evaporando. Acho que, se Temer permanecer no cargo, sua busca pela sobrevivência política dominará todas as outras considerações.

Que imagem o Brasil está passando ao exterior, na sua visão? A de um país caótico ou de uma democracia em busca de reformas e limpeza ética?

Se o Brasil perder outro presidente menos de 12 meses depois de processar a presidente Dilma Rousseff, o mundo vai notar. Parece uma forma de instabilidade política, e os estrangeiros se preocuparão com isso. Por outro lado, se Michel Temer perder o cargo será por causa da energia e da autonomia das investigações anticorrupção em andamento. O último, entretanto, está envolvendo somente “peixes grandes”, como Temer porque a corrupção é sistemática e penetrante. O Brasil terá uma história muito melhor para contar, e uma imagem melhor do que tem agora, se as investigações anticorrupção levarem ao desenho de novas regras e práticas que mais limpas do que os do passado. Mas este não é sempre o resultado de investigações anticorrupção, como o caso italiano nos lembra.

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