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A gestação de um líder

Antes da eleição, Alckmin tem de mostrar que é capaz de comandar o próprio partido

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2017 | 05h00

O personalismo é uma marca indelével da política brasileira, sabemos todos. Procuramos não ideias ou projetos, mas personagens capazes de empunhar bandeiras e nos convencer de que são os líderes talhados para conduzir o país naquele momento.

No cenário político que se desenha para 2018, há dois candidatos a herói já em campanha. Lula desempenha esse papel desde sempre. Mesmo decadente e desfiando em sua nova campanha uma versão falseada da própria história e do país, tem um partido à sua disposição e um público disposto a engolir seu cordel político.

Do outro lado, uma parcela da direita, que execra Lula e tudo que o petismo legou ao país nos últimos anos, não pensa duas vezes antes de embarcar com fé cega e faca amoladíssima na conversa de outro populista, Jair Bolsonaro, seduzida por palavras de ordem e pela promessa de um nirvana de ordem e progresso.

Diante de um quadro assim polarizado, em que os únicos convictos parecem mais integrantes de seitas que eleitores, há espaço para lideranças menos inflamadas e carismáticas? Parece ser essa a busca de um amplo setor da sociedade, menos ruidoso que os exércitos de Lula e Bolsonaro, invisível nas ribaltas das redes sociais e das passeatas, mas que vai decidir a eleição.

Geraldo Alckmin dedicou as últimas semanas a tentar ocupar esse lugar. O problema do tucano parece ser, paradoxalmente, a falta de capacidade de comandar seu próprio exército, como demonstram os nomes que despontam hoje nas pesquisas.

Que tipo de líder é o governador de São Paulo? Difícil de classificar mesmo dentro das balizas do tucanato. Alckmin ascendeu ao primeiro time no partido depois da morte de Mário Covas. Desde então, se constituiu como um sucesso eleitoral em São Paulo, mas na única vez que foi testado fora das fronteiras do Estado não empolgou nem conseguiu dizer a que vinha.

Não existe no PSDB uma linha de pensamento facilmente identificável com seu agora presidenciável. Também não há uma “ala alckmista” para além das hostes paulistas —e mesmo neste caso esse sempre foi um grupo acanhado, composto não por estrelas da sigla, mas por fiéis companheiros da vida toda do “Geraldo”.

É com essa têmpera, esse histórico e esse time que Alckmin se apresenta agora para a hercúlea tarefa de conduzir um partido que parece ter perdido de vez o rumo. 

O documento que o “think tank” (sic) do partido apresentou como base para uma plataforma de governo é pífio: genérico, passadista, calcado em slogans de quase 30 anos atrás, elaborado sem consulta nem aos economistas da sigla e covarde, por não se comprometer em caudalosas páginas com a reforma da Previdência, por exemplo.

No Congresso, o comportamento do PSDB é de uma classe da quinta série, não de uma bancada. Cada um tenta se sobressair para seu próprio eleitorado, sem coordenação nem compromisso com propostas, como a dita reforma, que estão na origem da criação do próprio partido.

A continuar agindo de maneira errática, o PSDB deixará de ser visto como polo aglutinador pelos demais partidos e pelo mercado. Isso depois de já ter sido descartado por uma fatia do eleitorado estupefata com os desvios éticos e a eterna indecisão da sigla.

Antes de se iniciar sua caminhada nacional, Alckmin tem de se mostrar apto a liderar os seus para que não a inviabilizem. É a forma como vai conduzir o próprio partido que vai mostrar se o governador é um fenômeno circunscrito a São Paulo ou se de fato tem condições de liderar um projeto nacional, ser uma alternativa a figuras personalistas como Lula e Bolsonaro e suplantar a eterna busca do brasileiro por um salvador da pátria que nunca virá.

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