À francesa

Há emissão de sinais sobre os negócios da Petrobrás, notadamente os dois de mais fácil compreensão - a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, e a construção de Abreu e Lima, em Pernambuco -, que indicam a preparação de uma saída à francesa para a confusão criada pelo ímpeto da presidente Dilma Rousseff de afastar de si um problema por meio de emenda desastrosa para o conjunto do soneto.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2014 | 02h05

Os personagens envolvidos na história até um tempo atrás apresentavam versões contraditórias, pareciam trocar mensagens cifradas e até algumas alfinetadas. Instaladas as duas CPIs no Congresso, porque o governo não teve força para impedir, as falas de cada um foram sendo adaptadas de forma a convergirem para um ponto: quaisquer que tenham sido os problemas - sim, pois que existem não há como negar -, eles foram todos produtos de mera negligência.

No início de maio, a presidente Dilma, que em março havia sido tão veemente ao atribuir a informações "técnica e juridicamente falhas" a compra da refinaria que em 2005 valia US$ 42,5 milhões e em 2012 custou US$ 1,18 bilhão à Petrobrás, amenizou o tom. Passou a dizer que "pode ter havido equívoco" no negócio, mas jamais "má-fé".

Domingo, o ex-diretor de Abastecimento e Refino da estatal Paulo Roberto Costa deu à Folha de S. Paulo sua primeira entrevista depois de dois meses preso sob a suspeita de participar de um esquema de coleta de propinas entre empresas interessadas em contratos com a Petrobrás para dividir o butim com políticos.

Em resumo, negou quaisquer irregularidades de ordem criminal, rejeitou a hipótese de superfaturamento na refinaria de Abreu e Lima e disse que a previsão inicial de US$ 2,5 bilhões contra o custo final da construção de US$ 18,5 bilhões deveu-se à falta de planejamento. "Conta de padeiro", desleixo. Desmazelo, sabe como é? Um aumento de 620%. Mas, tudo na maior inocência.

Ainda que tenha sido uma questão de incúria, sem resquício de "má-fé". Nem por isso deixa de ser malfeito. Ou em português claro: malversação de dinheiro público.

Efeito especial. Embora componham bem a cena da retirada, as ameaças ao ministro Joaquim Barbosa não convencem como motivação real para a decisão dele de antecipar a aposentadoria, depois de afirmar que ficaria ao menos até novembro quando terminaria seu período na presidência do Supremo Tribunal Federal.

Em primeiro lugar porque, em matéria de segurança, ele está muito mais protegido como integrante da Corte do que fora dele. Em segundo, expõe absoluta descrença (desconfiança?) na capacidade do Estado de preservar sua integridade física.

De qualquer modo, o ministro não confirmou essas versões nem tampouco as desmentiu.

Lé com cré. As situações esdrúxulas vão se reproduzir nas alianças País afora. No caso do Rio de Janeiro a bagunça é assim organizada: o ex-presidente Lula faz campanha para o candidato do PT ao governo, Lindbergh Farias; a presidente Dilma Rousseff fecha com o governador Pezão, do PMDB, que por sua vez declara apoio da seção regional a Aécio Neves na eleição presidencial.

Na mosca. De tão precisa, a frase do publicitário Renato Meirelles (Instituto de pesquisas Data Popular) em entrevista à coluna Direto da Fonte merece um bis: "A política brasileira é analógica, e os jovens eleitores são digitais".

Acrescento: no sentido figurado não apenas os jovens, mas a maior parte do eleitorado é "digital" em relação aos meios e modos da política ainda referidos na era pré-redemocratização.

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