A força do 'não'

Definido o resultado de uma eleição, é comum a avaliação de que não foi o vencedor quem ganhou, mas o oponente quem perdeu. Isso acontece quando o que determina o voto é o índice de rejeição, e não o grau de aprovação.

Dora kramer, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2014 | 02h03

Dois exemplos de eleições pautadas pela aprovação: a de Fernando Henrique Cardoso em 1994, por causa do Plano Real, e a de Luiz Inácio da Silva em 2002, em decorrência do desejo de "mudança". Aqui também pesou a forte rejeição à continuidade do governo do PSDB.

O ex-deputado Saulo Queiroz, hoje secretário-geral do PSD, é um estudioso desses movimentos do eleitor e não tem dúvida de que uma eleição se define por esses dois fatores: sólida aprovação ou incurável rejeição.

Quando a aprovação se dá em um colégio eleitoral de grande proporção sem que exista uma correspondente rejeição no universo total do eleitorado, a possibilidade de vitória é quase certa.

Pelas contas de Saulo, isso aconteceu claramente nas duas últimas eleições, de Lula e Dilma. Os dois tinham sólida aprovação no Norte e Nordeste, onde reside um terço do eleitorado, que lhes deu uma diferença de 40% (vantagem de 12 milhões de votos). Como nas outras regiões a situação era de equilíbrio, ganharam sem dificuldade.

Essas eleições foram ambas conduzidas pelo "sim". Examinando os números das pesquisas, notadamente o recorte do Datafolha relativo a São Paulo, o maior colégio eleitoral do País, tudo indica que em 2014 o "não" será o condutor preponderante do resultado.

Os números globais trazem más notícias para o governo com alta rejeição ao PT nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. São Paulo, em particular, com 22% do eleitorado, traz péssimas notícias. Dilma Rousseff perde por larga margem no segundo turno tanto para Aécio Neves quanto para Eduardo Campos.

O mineiro ainda aparece praticamente empatado com Dilma no primeiro turno, mas o ex-governador de Pernambuco tem apenas 6% das intenções de voto. No entanto, ganha de Dilma por 43% a 34% na etapa final. O que quer dizer isso?

Na opinião de Saulo Queiroz, a típica representação do fenômeno ditado pela rejeição. "O eleitor pensa assim: não sei bem quem é esse adversário da presidente, mas voto nele porque não quero reeleger a presidente Dilma."

Outro dado importante em relação a São Paulo: na escolha de primeiro turno 37% não escolhem candidato algum; índice que cai para 20% quando a opção é para o segundo turno. O tucano vai de 20% para 46% e Dilma de 23% para 34%.

A rejeição em São Paulo, se não for revertida, tende a ser um fator muito forte de definição. Inclusive porque a esse eleitorado que a repudia deve se somar o mineiro (segundo colégio), que aprova o tucano.

Mas, nem todo eleitor votará pelo mérito da oposição, e sim guiado pelo sentimento de rejeição à situação, muito acentuado no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, anulando a vantagem do Norte e Nordeste da eleição passada.

Primeiro porque na ocasião aquele eleitorado votou mais em amor à camisa "Lula" que por preferência a Dilma, então uma desconhecida, e depois porque aquela vantagem de 12 milhões de votos não tem se expressado nas pesquisas. A presidente continua na frente entre nortistas e nordestinos, mas nem de longe na mesma proporção de 2010.

O desafio que se impõe ao PT, portanto, é tentar inverter essa tendência da negação ou, numa manobra radical e arriscada, mudar o candidato e ir com Lula à eleição. O problema é que se a rejeição não for pessoal a Dilma, e sim ao partido, pode contaminar Lula, cuja derrota seria politicamente muito mais desastrosa para o projeto petista.

Dilma perdendo, no dia seguinte Lula seria o líder de uma oposição vigorosa, treinada no ofício e cheia de gás para fazer de sua matéria-prima o que de fato terá sido uma herança maldita para o governo sucessor.

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