A farda invisível e a missão cumprida de Pazuello na CPI

Pazuello cumpriu ‘a missão’ de inocentar Bolsonaro ao depor na CPI; para seus apoiadores, a CPI só quer incriminar o presidente

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 15h34

Caro leitor,

um homem sem farda se apresentou à CPI da Covid para depor. Ao chegar às 09h20 no plenário da comissão, Eduardo Pazuello se apresentava não como general, mas como um “simples cidadão”. Vestia terno e gravata. E foi logo descrevendo sua experiência como militar, desde os 10 anos. Aos poucos foi revelando as digitais do partido fardado, formado pelos generais da Esplanada, em sua aventura no Ministério da Saúde. Contou que partiu deles a ideia de chamá-lo para a Pasta.

Era fevereiro quando sondaram sua disposição de ir para a Saúde. Luiz Henrique Mandetta ainda era ministro. Passaram-se dois meses até que o presidente Jair Bolsonaro o “convocasse” para o que Pazuello chamou de “missão”. E mostrou-se patriota, citando o hino nacional: “Verás que um filho teu não foge à luta”.  No relato do general, Bolsonaro disse:  “Venha, traga quem for preciso, o Exército vai selecionar”. Pazuello contou ainda que o comandante do Exército, Edson Leal Pujol, concordou com sua ida à Esplanada e o autorizou a levar 15 militares da ativa para a pasta - dois ficaram até o fim da gestão do general.

Quando teve de explicar por que não respondeu às propostas da Pfizer para compra de vacinas, o general revelou um pouco mais da de sua farda invisível: O assunto da Pfizer é simples... Me dá a tabela que o sargento Daniel mandou pra mim. Pazuello disse ter ido com seu CPF à CPI. Mas o cidadão de terno e gravata ainda era assessorado por um sargento. Em outro momento, afirmou que o empresário Carlos Wizard ia chefiar uma secretário da Pasta que “tinha relação com a parte civil”. Mas, afinal, qual a parte militar da Saúde? Por que Bolsonaro perguntava rotineiramente ao ministro da Saúde se ele já havia “falado com o MD (Ministério da Defesa)”? 

O ex-ministro queria dar ordem aos senadores sobre como deveriam questioná-lo, como se eles fossem seus subordinados. Pazuello pode ter posto e patente, mas quantos votos tem para mandar nos senadores? Quando ministro, foi desautorizado por Bolsonaro, que o mandou cancelar a compra de vacinas da coronavac. Uma ordem dada publicamente. Todos viram e ouviram. Era outubro de 2020. Foi então que Pazuello pronunciou a frase que marcou sua gestão: ‘É simples assim: um manda e o outro obedece’. Pazuello submeteu-se, então,  mas foi criticado pelos colegas.

“Ele devia ter pedido demissão”, disse o general Roberto Peternelli, deputado do PSL-SP. Não foi o único militar a pensar assim. Diziam que faltara ao colega a coragem moral da “lealdade para cima”, de quem diz ao chefe: ‘Eu respeito, mas está errado’. Deixara nos ombros do presidente responsabilidade que também era sua. Na CPI, a coragem de enfrentar os fatos lhe faltou mais uma vez. No lugar, o País viu a nova missão de Pazuello: proteger Bolsonaro. A ordem de ontem não era mais ordem; só encanação para a internet. A verdade deixou de ser um valor para muitos que abraçaram o governo, como havia deixado de ser para o capitão nos anos 1980.

Pazuello vestiu terno e gravata, mas pôs os generais de Bolsonaro no centro da decisão de militarizar a Saúde - uma missão de 90 dias, que se prolongou por mais de um ano. Queriam fazê-lo governador do Amazonas. Contratou um marqueteiro para assessorá-lo e levou a turma de Operações Especiais para o Ministério - e um deles pensou que era mais importante pintar paredes no Rio do que salvar vidas. A farda invisível vestia o general ao depor sobre as 439 mil mortes de covid-19 no País. Vidas, cloroquina, descaso com a vacina. Nada disso levou à sua demissão. Hoje o País soube por que o general deixou a Saúde: “Missão cumprida.” Ninguém duvida.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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