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A falta de prevenção e a tragédia do Pantanal

A tragédia do Pantanal aponta para o desleixo – ou a negligência – dos governantes

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 03h00

O planeta arde e as matas queimam. Os incêndios florestais se tornaram mais destrutivos com a mudança climática – ambientes mais quentes e mais secos são propícios à propagação do fogo. Colocar a tragédia que assola o Pantanal apenas na conta do aquecimento global, no entanto, seria desonesto. Como explicou o cientista Carlos Nobre no programa Conversa com Bial de segunda-feira, a culpa é nossa: “Trata-se, em grande parte, da prática tradicionalíssima de provocar incêndios para limpar pastos e áreas agrícolas”. Há também, claro, as queimadas criminosas ligadas ao esquema de grilagem de terras.

Fiquemos, no entanto, no âmbito das “práticas tradicionalíssimas”. Existe solução. Com a mudança climática, os protocolos de manejo da terra foram redesenhados. “Práticas comuns no passado não podem mais ser empregadas hoje. Por causa da mudança climática, prevenir incêndios florestais é, atualmente, muito mais importante do que combatê-los”, diz Tiago Oliveira, presidente da Agif, o organismo do governo português responsável por combater incêndios florestais. Ele é o personagem do minipodcast da semana. 

O mantra dos novos protocolos, da Austrália à África do Sul, do Canadá às florestas europeias, é precisamente este: prevenção. Portugal, que sofreu com incêndios altamente destrutivos em 2017, responsáveis por dezenas de vítimas, é um caso de estudo. Há três anos, o país investia 143 milhões de euros no combate a incêndios florestais, 20% em prevenção. Hoje são 246 milhões – e metade disso vai para ações anteriores ao período da seca. Entre elas, trabalhos de conscientização de fazendeiros sobre as práticas mais modernas. Com a ênfase na prevenção, os focos de incêndio foram reduzidos à metade.

Segundo especialistas, foi justamente isso que faltou no caso do Pantanal. “O correto seria iniciar a prevenção em abril, com medidas de educação ambiental e queimadas controladas, para evitar o excesso de biomassa”, diz Luciano Evaristo, que entre 2009 e 2018 dirigiu a área de proteção ambiental do Ibama. Ao longo do período, que atravessou os mandatos de Lula, Dilma e Temer, ele coordenou pessoalmente várias ações do Prevfogo, programa do Ibama que conta com reconhecimento internacional. Evaristo avalia: “Neste ano, o governo começou a contratar brigadistas apenas em junho, quando era tarde demais. Não houve um trabalho de prevenção adequado”. 

A tragédia do Pantanal é imensa. Ao longo dos nove primeiros meses de 2020, os focos de incêndios se multiplicaram por três em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Em Portugal, o governo estabelece parceria com fazendeiros na contratação de tropas anti-incêndio. No Brasil há organizações ambientais que combatem queimadas de forma heroica, assim como produtores rurais que formam suas próprias brigadas – a coluna voltará a esse assunto. De acordo com Evaristo, tal heroísmo é inócuo se não houver, como em Portugal, algum tipo de coordenação estatal. “Combater incêndios florestais é uma ciência, que tem como base a prevenção. Sem conhecimento e estratégia o esforço se perde.”

O planeta arde, as florestas queimam e, nos dois casos, poderíamos fazer mais e melhor. A tragédia do Pantanal aponta para o desleixo – ou a negligência – dos governantes que os brasileiros escolheram.

Para saber mais

Minipodcast com Tiago Oliveira

Dados sobre prevenção contra incêndios em Portugal

Reportagens do Estadão sobre incêndios no Pantanal:

Queimadas no Pantanal batem recorde em 9 meses e são as maiores em 23 anos

Estadão acompanha devastação no Pantanal; veja vídeo

Carlos Nobre no Conversa com Bial

Dados do Inpe sobre queimadas

*JORNALISTA, ESCRITOR E PROFESSOR DA FAAP E DO INSPER

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