A falsa escolha de Temer

Temer nunca enxergou a possibilidade de chegar, pelos braços do povo, à Presidência

Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo

12 Março 2017 | 05h00

Em entrevista recente ao semanário britânico The Economist, o presidente Michel Temer disse, ao defender as reformas propostas por seu governo, que prefere ser impopular a agir como um populista. No caso do peemedebista, não se trata, porém, de uma opção republicana, e sim de uma completa impossibilidade.

Nas vezes em que tenta usar linguajar popular ou agir como um político populista, indo aonde “o povo está”, Temer invariavelmente parece um alienígena.

Segurar uma caneca de chope cercado de misses da Oktoberfest e inaugurar uma obra no sertão nordestino cercado de políticos aliados parecem ser para o presidente tarefas mais penosas e maçantes do que escrever epístolas recheadas de citações em latim ou enfileirar mesóclises em longos e enfadonhos discursos.

E por que é assim? Pelo simples fato de que Temer, diferentemente de outros políticos como Lula ou José Serra, nunca enxergou como uma possibilidade concreta de evolução da carreira política chegar à Presidência da República pelos braços do povo.

O peemedebista foi um político tardio. Sua filiação ao PMDB se deu aos 40 anos. Assumiu seu primeiro cargo no primeiro escalão de um governo depois disso. A primeira candidatura, a deputado federal em 1986, veio só aos 45, e só lhe assegurou uma suplência. Mesmo tendo assumido o mandato e desempenhado papel importante na Constituinte, em 1990 obteve esquálidos 32 mil votos, que lhe renderam de novo apenas a suplência.

Atingiu o ápice eleitoral em 2002, já presidente do PMDB e depois de ter ocupado duas vezes a presidência da Câmara, quando obteve 252,2 mil votos. A partir daí, novo declínio na popularidade nas urnas: se meteu numa empreitada desastrosa de ser vice de Luiza Erundina na eleição para a Prefeitura de São Paulo em 2004. Ficaram em quarto lugar. E na última eleição para a Câmara que disputou, em 2006, foi o menos votado do PMDB e só chegou ao posto pelo coeficiente eleitoral.

Foi a ascensão a dirigente partidário que garantiu fôlego político a Temer, não sua popularidade ou algum traço de pendor populista. Só pelo fato de estar no comando do PMDB foi ele o escolhido para ser vice de Dilma Rousseff em 2010, uma vez que sua relação com Lula, o patrono da candidatura, nunca foi das melhores.

Mesmo internamente, seu comando no PMDB sempre esteve sujeito a questionamentos, na maioria das vezes vindos da ala do Senado. Foi para se blindar a eles e se manter no poder que Temer se cercou do grupo que o ajudou a pavimentar a estrada do impeachment de Dilma Rousseff e, agora, compõe o núcleo político que é uma das causas da impopularidade do presidente.

Portanto, não se trata de escolha – populismo versus impopularidade. A popularidade seria algo difícil de alcançar pelos atributos pessoais ou pela trajetória de Temer, que sempre foi mais cioso de sua imagem como constitucionalista ou articulador político do que preocupado em ser um líder carismático.

É verdade que Temer poderia fazer opções populistas no poder para ao menos mitigar essa impopularidade atávica? Em tese, sim. Mas é preciso lembrar que a conjugação de forças que tornou viável o impeachment envolveu um compromisso do então vice com a volta aos fundamentos de ortodoxia econômica que permitissem corrigir os desatinos fiscais de Dilma Rousseff. Portanto, não há esta escolha.

Resta a ele tentar fazer de tanto limão uma limonada azeda. Aprovar as reformas – tão impopulares quanto ele – seria um feito e tanto para um presidente acidental. Retomar ao menos o caminho do crescimento também. Já na política há pouco ou nada a fazer diante de uma Lava Jato e uma entourage política que nunca o deixarão ser bem avaliado. Melhor ir costurando mesóclises e esperar que 2018 chegue logo.

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