Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

A 'face' do Centrão no governo Bolsonaro

Grupo da vez reúne políticos com históricos de traições e demonstrações de ‘toma lá da cá’

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - Pragmático e sem ideologia, o Centrão é um fenômeno do vício governista que sobrevive às mudanças na história política do País. O grupo de partidos demonizado em manifestações de rua de 2013 a 2018 e, num período mais recente, por redes sociais bolsonaristas, é agora um convidado ilustre das negociações no Palácio do Planalto.

Visto como fiador da estabilidade em qualquer governo, o bloco informal da Câmara flutua ao sabor das ondas e conveniências da política. O “núcleo duro” do Centrão é formado por Progressistas, Republicanos, PL, PSD, Solidariedade, PTB e DEM, embora Rodrigo Maia (RJ), que comanda a Câmara e é filiado ao partido, esteja em rota de colisão com o presidente Jair Bolsonaro.

O MDB, por sua vez, é um “aliado irmão” do bloco. Bolsonaro mantém, ainda, conversas avulsas com integrantes de legendas menores, que orbitam como satélites do Centrão. Estima-se que o grupo reúna, atualmente, pelo menos 200 dos 513 deputados. Cálculos dos próprios partidos indicam que a taxa de governismo do Centrão, hoje, está em torno de 90%.

O Centrão da vez é o de políticos com histórico de traições e demonstrações de “toma lá dá cá”. Nele estão tanto o presidente do PSD, Gilberto Kassab – que num mesmo dia teve conversas políticas com Bolsonaro e com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de quem é secretário licenciado da Casa Civil –, como o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI). Kassab nega fazer parte do grupo. No dia da votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Ciro tomou café com a presidente e, horas depois, apoiou o afastamento dela.

Integrantes do bloco dificilmente se identificam com agendas ideológicas. O apetite por cargos do governo e o interesse em ver atendidas reivindicações em defesa de grupos econômicos ou prefeituras de grotões são marcas de suas identidades.

Quando era deputado federal, Bolsonaro fez carreira no Centrão. Ao longo de sete mandatos na Câmara, ele adotava um discurso quase exclusivo da classe militar, longe de ideologias, e passou por alguns dos partidos do grupo que hoje pode servir de esteio para sua sobrevivência no Planalto. Foi do PTB, PFL (atual DEM) e PP (hoje Progressistas). Neste último, permaneceu 11 anos, sem contar o início da trajetória parlamentar nos extintos PDC, PPR e PPB, que deram origem à sigla.

Despachante

O bloco atua por excelência na defesa do lobby de bancos e grandes grupos econômicos, mas é na condição de “despachante” de prefeituras do interior que ele enfrenta mais críticas. Casos de negociatas envolvendo seus integrantes ocorrem tanto no serviço para grandes empreiteiras como para prefeitos sem influência. Além disso, o Centrão é cria da concentração de recursos pela União. Num País onde todos os setores querem abocanhar ao máximo o dinheiro público, o bloco tem entre suas missões ajudar municípios carentes a fisgar parcerias com o governo federal.

Maiorias de posições de centro, pragmáticas e governistas, sempre deram as cartas no Parlamento. Eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral, em 1985, Tancredo Neves admitiu certa vez que o PSD, um de seus partidos, adotava a política dos conchavos entre os anos 1940 e 1960. “Entre a Bíblia e O Capital (livro de Karl Marx), o PSD fica com o Diário Oficial”, disse ele.

O nome Centrão, no entanto, só vingou no tempo da Constituinte, em 1987 e 1988, quando um grupo de parlamentares voltados para o mercado financeiro, o agronegócio e os municípios decidiu buscar poder num caminho do meio entre progressistas e conservadores.

‘É dando que se recebe’. Recentemente, recebeu a denominação de “velha política”. Na Constituinte de 1988, uma ala do PMDB (atual MDB) que queria pressa no atendimento de suas reivindicações – e não se identificava nem com os progressistas liderados por Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas, nem com os conservadores – buscou vida própria. O presidente José Sarney aproveitou a aproximação do grupo e garantiu cinco anos de mandato numa relação com o Congresso marcada pela famosa frase do ex-ministro Roberto Cardoso Alves (SP), um dos primeiros líderes do Centrão: “É dando que se recebe”. Retirada da oração de São Francisco de Assis, a frase virou a senha do fisiologismo.

Os integrantes originais do bloco pertenciam, em sua maioria, a partidos como PFL (atual DEM), PDS (hoje Progressistas), PMDB, PTB e PDC. Por afinidades e nacos do governo, parte do grupo deu suporte a Sarney e nunca mais se desgrudou do Planalto.

A última megabancada de um partido do Centrão foi eleita em 1998 pelo PFL, com 105 deputados. Era o auge do carlismo, grupo do ex-senador e ex-governador baiano Antônio Carlos Magalhães, presidente do Senado. Na Câmara, o Centrão ainda viveria alguns relances de poder, como a eleição em 2005 do baixo clero, simbolizado pela presidência do ex-deputado Severino Cavalcanti (PP-PE). O grupo derrotou o Planalto por divisões no PT do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas uma sequência de escândalos de corrupção, com destaque para o mensalão, em 2004 e 2005, e a Operação Lava Jato, entre 2014 e 2018, atingiu não apenas o PT como partidos do Centrão – entre eles, o mais impactado foi o PP.

Cunha

O Centrão ganhou mais musculatura em 2015, quando o então deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ) foi eleito presidente da Câmara no primeiro turno, derrotando o petista Arlindo Chinaglia (SP), nome bancado pelo Planalto. Cunha conseguiu reunir insatisfeitos da base aliada do governo de Dilma Rousseff e especialmente de seu partido, o MDB, que tinha o vice Michel Temer. Ele agregou, ainda, o PSC do pastor Everaldo, o PP de Arthur Lira (AL) e parte considerável das bancadas do agronegócio, evangélica e das armas.

No comando da Câmara, Cunha apresentou pautas “bombas” contra o governo e abriu o processo de impeachment de Dilma. A queda do deputado, preso no âmbito da Operação Lava Jato, não desarticulou o bloco por completo, mas iniciou uma disputa por quem seria o seu sucessor.

Na eleição seguinte para a presidência da Câmara, em 2017, Rodrigo Maia venceu como “independente” com o DEM, PSDB, PPS e PSB, além de aliados na esquerda e a simpatia do Planalto. Derrotou Rodrigo Rosso (PSD-DF), candidato de Cunha.

Em 2018, o Centrão rejeitou Bolsonaro no primeiro turno e apoiou o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, candidato do PSDB ao Planalto. Derrotado, o bloco se dividiu no segundo turno. Uma ala do PP e do PL ficou com o petista Fernando Haddad, assim como o Solidariedade, enquanto o DEM e o Republicanos declararam apoio a Bolsonaro.

Com o PT e o PSL no comando das maiores bancadas da Câmara eleitas naquela disputa, os demais partidos se reorganizaram. O novo Centrão, rebatizado de “Blocão”, aderiu à reeleição de Maia, em 2019. Ao prever que Arthur Lira (PP-AL), um dos líderes do Centrão, poderia traí-lo, Maia costurou aliança com o PSL de Bolsonaro por meio do ministro da Economia, Paulo Guedes. Houve um acordo com Lira na composição da Mesa, hoje dominada principalmente pelo DEM, Republicanos e PL.

No capítulo mais recente da história do bloco, Maia brigou com Guedes. O Planalto procurou, então, Lira, Marcos Pereira (Republicanos) e Valdemar Costa Neto, chefe do PL, para conversar. Bolsonaro sempre transitou entre esses três partidos. Em 2018, quase fechou com Valdemar uma aliança com o então senador Magno Malta (ES) para sua chapa à Presidência. Mas até hoje ele diz ser contra a “velha política”.

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