A erosão do núcleo duro

Nos últimos dias, muito se falou da recuperação da presidente Dilma Rousseff na pesquisa Datafolha. Após meses de queda contínua, a candidata à reeleição recobrou quatro pontos porcentuais (acima, portanto, da margem de erro), acompanhada de modo menos destacado por seus principais oponentes - Aécio Neves e Eduardo Campos. Até o liliputiano José Maria (PSTU) oscilou positivamente.

*CLÁUDIO COUTO, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2014 | 02h03

As intenções de voto que causaram esse crescimento generalizado provieram principalmente dos eleitores antes sem candidato. Esses eram 30% no início de junho, declinando para 24% agora. Contudo, como o crescimento de todos os postulantes somou 11%, há uma diferença de 5% difícil de se explicar graças aos arredondamentos.

Apesar da discrepância, que mereceria mais esclarecimentos, a pesquisa parece detectar uma alteração no cenário eleitoral, apontada pela maioria dos analistas como decorrente da mudança nas percepções sobre a Copa do Mundo. Virou sucesso o que antes era amplamente anunciado como fiasco certo. E como há poucas coisas capazes de criar tanto contentamento quanto um desfecho feliz para o que prometia ser um desastre, temos aí uma boa explicação para a mudança do humor popular.

O problema é que o mau humor social não parece advir unicamente de expectativas e avaliações sobre a Copa. Ele vem de um paulatino aumento de insatisfação que não apenas recrudesceu após junho de 2013, mas possibilitou junho de 2013. Para isto, talvez sejam mais reveladores alguns dados da pesquisa CNI-Ibope de meados de junho último. Mais que as apreciações genéricas sobre a presidente e seu governo, chamam a atenção ali percepções sobre certas áreas de políticas públicas. Em todas há um claro declínio da satisfação popular.

No caso da educação, até junho de 2013 a desaprovação era preponderante, mas em patamar próximo à aprovação - enquanto a primeira ficava sempre pouco acima dos 50%, a segunda ficava sempre um pouco abaixo. Com o tempo, a "boca" do gráfico foi se abrindo e hoje verificamos uma desaprovação que beira os 70%, contra 30% de aprovação. Já no caso da saúde, da segurança pública e dos impostos, o cenário é algo distinto, pois embora os patamares de desaprovação tenham crescido e sejam maiores que os da educação, eles já eram significativamente maiores. Assim, para estas áreas a avaliação piorou, mas não mudou de natureza.

Houve também piora da apreciação de aspectos centrais da gestão macroeconômica, como combate à inflação e política de juros. Depois de um momento bastante alentador para o governo, em 2012, a "boca" do gráfico se abriu, com a desaprovação ultrapassando os 70% em ambos os casos. Talvez resida exatamente aí, na inflação (nem tão alta, mas persistente), a explicação principal para a difusão social do mau humor.

Os dados mais impressionantes, contudo, vêm das percepções populares sobre duas áreas que foram os grandes trunfos dos governos petistas desde meados da década passada: os combates à fome e à pobreza, bem como ao desemprego. No caso da primeira política, o declínio das apreciações ao seu respeito se iniciou justamente em junho de 2013, sendo que desde março de 2014 temos uma avaliação negativa que supera a aprovação - hoje, por uma margem de 12%. Já no caso da segunda, apesar dos níveis recorde de emprego, a reprovação supera a aprovação desde setembro - hoje, por uma margem de 20%.

Quando as percepções populares sobre um governo começam a erodir justamente no que pode ser considerado seu núcleo distintivo, há motivos para que ele se preocupe e seus adversários se animem. Há mais coisas envolvidas numa eleição - como as articulações regionais, por exemplo -, mas é na aprovação a políticas sensíveis que lhe distinguem que um governo se faz. E se desfaz.

O CIENTISTA POLÍTICO CLÁUDIO COUTO ESCREVERÁ AOS SÁBADOS NESTE ESPAÇO DURANTE O PERÍODO ELEITORAL

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