Felipe Rau / Estadão
Felipe Rau / Estadão

A engenharia dinâmica da vida cotidiana

'Se seguirmos a visão de Foucault, parecerá que o poder está em todo o lugar. Talvez esteja'

Peter Catapano, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 05h00

Na juventude, me senti atraído por teorias conspiratórias. Aos 25 anos, não tinha emprego nem família, nem tampouco qualquer meta ou orientação. Eu não sabia como o mundo funcionava (para ser honesto, ainda não sei). Teorias da conspiração eram um meio fácil de explicar meu fracasso. 

Em particular, eu admirava a cena de Rede de Intrigas, filme de 1976, na qual o executivo da companhia que controla uma rede de TV explica a Nova Ordem Mundial: “Não existem nações. Não existem povos. Existe apenas um holístico sistema dos sistemas, um vasto e interconectado domínio dos dólares”. 

Isso parecia explicar minha própria falta de poder: eu tinha pouco dinheiro, e outros tinham muito. Mas, como todas teorias do gênero, era um artifício, uma simplificação. Há uma visão de mundo na qual essa descrição é verdadeira – vamos chamá-la de a visão da desigualdade sem remédio. Certamente, a desigualdade cresceu em níveis devastadores nos últimos 50 anos. Mas essa visão do poder não é completa, pois o reduz a um único conceito: o dinheiro. 

Revendo aquela cena hoje, penso que sua verdade aterrorizante está em algo que nunca é dito, mas fica implícito: que o mais destrutivo e sinistro poder é aquele que você não sabe que existe. Para mim, este é o objetivo primeiro de um evento como o Estadão Summit Brasil – O que é poder?: compreender as forças em jogo ao nosso redor, compartilhar o nosso entendimento do poder.

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'Vejo o poder como uma rede de relações infinitamente complexa e continuamente em movimento'
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Uma das mais frequentes simplificações do conceito de poder é a tendência de defini-lo como o exercício de força bruta, potência física, violência ou guerra. É o tipo de poder que corporações ou governos têm sobre o público geral. Mas quando penso filosoficamente no poder, eu o vejo de outra perspectiva: como uma rede de relações entre seres humanos que é infinitamente complexa e está continuamente em movimento, e que inclui aspectos como dignidade, liberdade, felicidade, compaixão e necessidades biológicas. 

Filósofos estudaram essa modalidade de poder ao longo da história: Platão, Hobbes, Nietzsche, Rawls, para nomear uns poucos. Simone Weil, Hannah Arendt e Bertrand Russell destacam-se como intérpretes agudos do poder. Mas para mim é um pensador mais contemporâneo, o francês Michel Foucault, que morreu em 1984, quem com mais abrangência revelou a miríade de modos com que o poder permeia a vida cotidiana, o comércio, o amor e o sexo, o crime e a punição, as normas sociais e até o próprio conhecimento. Parecerá, se seguirmos a visão de mundo de Foucault, que o poder está em todo o lugar. Talvez esteja.

O poder não é uma coisa só. É a engenharia dinâmica das relações, na qual todos desempenham algum papel. Quanto melhor entendermos isso, melhor entenderemos quem somos – e o que devemos fazer. 

 

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