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Cláudio Couto
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A eleição interminável

Fiel que sou à crença de que uma eleição começa quando a outra termina, já olhava para a frente e me preparava para tratar de 2018 nesta última coluna de minha contribuição para o Estado durante as eleições de 2014. A meu ver, merecia atenção neste momento a já iniciada disputa interna ao PSDB pela próxima candidatura presidencial do partido.

Cláudio Couto, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2014 | 02h02

Aécio Neves saiu do pleito como o mais bem sucedido candidato presidencial tucano depois de FHC, perdendo para Dilma Rousseff por margem apertada. Isto, em princípio, poderia torná-lo o postulante natural em 2018 - beneficiado não só pelo bom desempenho em si, mas também pelo recall. Contudo, tinha o calcanhar de Aquiles das três derrotas em Minas Gerais - as duas suas, nos dois turnos, e a de seu candidato a governador, definitiva já no primeiro escrutínio. Ademais, sua melhor votação foi na terra de seus adversários internos - os tucanos paulistas. Estes já se apresentavam como donos do caminhão de votos despejados na candidatura de Aécio, podendo reivindicar a paternidade do bom resultado do candidato e, consequentemente, a postulação presidencial do partido em 2018. Esta é almejada principalmente por Alckmin; claro, desde que o caminhão de votos não vire um carro-pipa.

Tive, contudo, de rever os planos do artigo, surpreendido pela decisão do PSDB de requerer (nos termos de nota do partido) uma "auditoria especial" para fiscalizar os "sistemas de todo o processo eleitoral, iniciando-se com a captação do sufrágio, até a final conclusão da totalização dos votos". Ainda segundo essa nota, a motivação para o questionamento seriam denúncias feitas por "todos os cantos deste país", já durante a apuração "sobre fatos ocorridos durante a votação, principalmente com relação à própria totalização dos votos". Ou seja, o partido se deixou pautar pela boataria das redes sociais.

O fato é grave, sobretudo se considerarmos o naipe das teorias conspiratórias que circulam pelas redes. Vale mencionar um exemplo importante, da noite de sábado anterior ao 2.º turno. Virou febre entre internautas apoiadores da candidatura tucana a difusão da "notícia" de que o doleiro Alberto Youssef havia sido envenenado, com direito até mesmo a reprodução de uma mensagem de texto de suposto médico plantonista no hospital em que o delator foi internado. Como ficou evidente pouco depois, isso não passava de boato irresponsável - tão irresponsável que, receosos, alguns dos que o difundiram decidiram apagar suas postagens.

Levar tais bochichos conspiratórios a sério, a ponto de suscitar um questionamento da lisura do pleito, faz o PSDB enveredar por caminho preocupante. Primeiramente, por alimentar apreensões sobre o funcionamento de nossas instituições eleitorais, contribuindo para fomentar o que uma colega cientista política definiu como um clima de incerteza institucional. Em segundo lugar, por referendar as teorias conspiratórias de internet. Ironicamente, nesta mesma semana, o senador Aloysio Nunes, vice de Aécio, vituperava da tribuna do Senado contra o que denominou "um esgoto" das redes sociais, operado por "canalhas". Como agora, então, dar crédito aos delírios que se difundem por ali?

Houvesse fatos concretos que possibilitassem questionar de maneira séria o processo de votação, o cômputo dos votos, a transmissão dos dados, etc., seria até mesmo um dever do partido vencido requisitar uma auditoria. Sem que haja isso, ao fazer tal questionamento com base em teorias da conspiração, o PSDB lança dúvidas sérias apenas sobre si mesmo, vestindo a carapuça do mau perdedor. É uma maneira ineficaz de começar a preparação para 2018, tendo o condão apenas de tornar interminável uma eleição em que, de qualquer forma, o partido já foi derrotado.

Agradecimento. Encerro aqui minha contribuição para o Estado nestas eleições. Agradeço ao jornal e aos leitores pela oportunidade do debate.

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