A eleição da incerteza

Um ator importante da eleição de 2018 ainda não tem papel definido: o governo federal

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2017 | 03h00

Para além de todas as especulações sobre candidatos de fora do sistema político – como Luciano Huck e Joaquim Barbosa –, um ator importante que deverá influir no enredo da eleição de 2018 ainda não tem papel definido: o governo federal. Hoje, Temer e companhia são a Geni de quase todos os presidenciáveis. Daqui a 10 meses, talvez o governo não sirva apenas para apanhar ou para cuspir. Se a melhora da economia se traduzir em bem-estar da população, é capaz de um candidato ou outro vir a cortejá-lo.

Essa eventual mudança de cenário daria um palanque eletrônico para Temer se defender ao longo da campanha eleitoral, mas seria um complicador para Alckmin e os candidatos que pretendem ocupar o centro do espectro político conseguirem sair do dígito solitário que têm nas pesquisas de intenção de voto até agora. 

A entrada de um candidato governista no páreo tende a dividir ainda mais o eleitorado de centro e aumentar a incerteza. Nome mais óbvio para cumprir esse papel no caso de o desemprego cair e a renda aumentar, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disputaria os mesmos votos que o candidato tucano, em princípio. 

É sempre possível Alckmin descer do muro para o lado do governo, mas o timing será decisivo. Se demorar demais, corre o risco de encontrar o espaço ocupado. Se se precipitar e descer antes de os indicadores econômicos se traduzirem em diminuição da rejeição a Temer, o tucano pode se inviabilizar como candidato.

Esse dilema é a cunha que racha o PSDB. Quem disputa votos em 2018 e depende do discurso do combate à corrupção para se reeleger quer distância do governo federal. É o caso de boa parte dos deputados do partido. Cabeças pretas e grisalhas estão carecas de saber que será impossível compatibilizar as pilhas de dinheiro de Geddel Vieira Lima (cujo substituto na cadeira ministerial foi um tucano) com propaganda sobre ética.

Já os candidatos a cargos majoritários dependem menos desse tipo de discurso do que da economia. Um aumento sustentado ao longo de cinco ou seis meses da confiança do consumidor teria o potencial de diminuir o pessimismo e aumentar a esperança. Nessa hipótese, ter a imagem associada a Temer pode não ser fatal – e contar com sua caneta para fazer nomeações, liberar verbas e assinar contratos não é nada mal. De novo, o tempo é tudo.

Quanto demorará para os indícios de retomada da economia evoluírem consistentemente ao ponto de provocarem uma mudança de humor da opinião pública? Quantos novas vagas de emprego com carteira assinada serão necessárias para produzir tal mágica? Qual o tamanho do aumento da massa salarial seria preciso?

Não há respostas definitivas para essas perguntas. O retrospecto mostra apenas que o bolso elege, mas sua memória é curta. Vale o que aconteceu no ano da eleição – mais especificamente, nos meses finais da campanha. O exemplo que governistas, de quaisquer colorações, sempre lembram é o Plano Real, em 1994. Após a troca da moeda, FHC ultrapassou Lula em semanas. 

Mas não há o bode na sala que existia então. O fim da inflação literalmente do dia para a noite provocou uma mudança tão surpreendente quanto repentina no humor nacional, e o que era uma eleição de mudança virou uma eleição de continuidade.

Nada indica que haverá um câmbio de temperatura abrupto assim em 2018. O mais provável é que o aquecimento seja lento, gradual e inseguro. Nada tão dramático ao ponto de transformar o candidato governista de azarão em favorito, mas o bastante para aumentar a lista de presidenciáveis e a incerteza sobre a eleição. 

Previsões sobre resultado, só após 2 de outubro de 2018. Se a Justiça deixar.

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