DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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'A direita é desunida entre si. É uma teoria da conspiração que nunca acaba', diz novo líder do PSL

Felipe Francischini admite reaproximação entre Bolsonaro e o partido com o qual rompeu, mas fez críticas à condução da crise da covid-19 por parte do presidente

Entrevista com

Felipe Francischini, novo líder do PSL na Câmara

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 11h39

BRASÍLIA - O deputado Felipe Francischini (PR), novo líder do PSL na Câmara, admitiu uma reaproximação entre Jair Bolsonaro e o partido com o qual ele rompeu, mas fez críticas à condução da crise da covid-19 por parte do presidente. Para ele, o chefe do Executivo “fez uma aposta errada” sobre o tamanho da pandemia. Disse, ainda, que a dificuldade para a criação do Aliança pelo Brasil fez muitos no governo “pesarem a cabeça no travesseiro”.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast Político, o deputado fez ainda uma autocrítica da direita.  “O discurso para fora é único. A direita, desde o começo, pecou muito nisso. A direita é desunida, desagrega entre si. É uma teoria da conspiração que nunca acaba. Acho que isso só a maturidade pode trazer”,  afirmou. Confira os principais trechos:

Há uma reaproximação do presidente Jair Bolsonaro com o PSL?

Questão de filiação não compete a mim, isso é com a direção do partido. O presidente Bolsonaro me ligou no dia seguinte que assumi a liderança apenas para parabenizar e retomar o diálogo. Ele propôs fazermos uma reunião no Palácio do Planalto. Estou só aguardando algumas questões para podermos fazer uma reunião como essa. O PSL nunca deixou de dialogar com todos os ministros. O que houve realmente foi um afastamento entre a figura do presidente e alguns parlamentares. O tempo passou, houve uma experiência de amadurecimento para todos os lados e, agora, vamos ter mais tranquilidade para propor o que achamos que é importante de política pública. É uma relação que deu uma conturbada e agora está arrefecendo um pouco.

Em relação aos “bolsonaristas” que foram punidos e perderam suas prerrogativas partidárias na Câmara, como é o caso do deputado Eduardo Bolsonaro e Daniel Silveira, há chance de perdão?

Essa é uma questão que compete à executiva do partido. Da minha parte como líder, tenho um diálogo aberto com todos os partidos da Câmara. Com bolsonaristas não é diferente. Nossos deputados viram que a briga dentro do Parlamento é uma coisa muita ruim porque você precisa dos outros para construir soluções legislativas. Como temos muitos em primeiro mandato essa foi uma experiência um pouco dura, mas serviu para muita gente amadurecer.

Vai acabar a divisão bolsonarista x bivarista (grupo ligado a Luciano Bivar, presidente do partido)?

É uma divisão que não existe. O que é ser bolsonarista? Todos nós nos elegemos numa plataforma de direita em 2018 e continuamos com o mesmo propósito. E o que é ser bivarista? É estar no partido? O partido é uma coisa e o governo outra, são coisas distintas. Desde o começo, quando se criaram esses nomes, não dei muita importância.

Um fato que marcava a divisão era que bolsonaristas declaravam migração para o partido a ser criado Aliança pelo Brasil. Mas até agora isso ainda parece algo distante e há quem diga que não vai se concretizar. Isso fez eles se reaproximarem do PSL?

O Aliança gerou expectativas de que poderia estar pronto para disputar as eleições deste ano. Não ficou. É normal que as pessoas comecem a pensar um pouco mais e pesar a cabeça no travesseiro. Quando conversamos pessoalmente muitos viram que a condução do processo que fizemos no fim do ano passado foi ruim. Sempre briguei para que discutíssemos assuntos polêmicos internamente, assim como qualquer partido político maduro faz. O discurso para fora é único. A direita, desde o começo, pecou muito nisso. A direita é desunida, desagrega entre si. É uma teoria da conspiração que nunca acaba. Acho que isso só a maturidade pode trazer. 

Como deve ficar a situação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), alvo de processos no Conselho de Ética. O partido fará a defesa do filho do presidente?

A quem compete julgar e analisar é o conselho de ética. Temos quatro deputados lá com mandatos de dois anos. A liderança nem que queira não pode tirar os deputados.

Como o PSL, segunda maior da Câmara, deve atuar sob sua gestão. Será base do governo?

Governo e Brasil podem contar com o PSL para tudo que acharmos importante dentro do cenário que temos, destruição econômica, incerteza política, de muitos projetos sociais que não avançaram. Nossa bancada é independente e não abre mão de ter sua posição própria.

Como o senhor vê a aliança de Bolsonaro com o Centrão?

Sempre defendi dentro do governo que houvesse um diálogo mais amplo com as bancadas do Congresso. Presidi a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no pior momento do governo, que foi no início da gestão. Não tínhamos nenhum partido da base, tirando o PSL. Desde o começo, o governo tem uma dificuldade enorme de dialogar com o Congresso e colocar sua pauta, deixar transparente quais são suas ideias. Principalmente agora que está vindo Renda Brasil (novo programa de assistência social que está sendo desenhado para substituir o Bolsa Família), reforma tributária (simplificação no pagamento de impostos), administrativa (reestruturação do RH do Estado). Sempre defendi que o governo descesse para o chão da fábrica para conversar com os deputados de cada bancada e aproveitar o que cada um tem para oferecer.

A condução de Bolsonaro no trato da pandemia fez o presidente perder credibilidade e público?

Bolsonaro fez uma análise pessoal dele e foi uma aposta errada. Fazer uma análise com base em algumas pessoas no seu entorno que acreditavam que a pandemia era uma teoria da conspiração e seria muito fraca. Por exemplo, o ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS) que dizia que não morreriam mil pessoas no Brasil inteiro. Bolsonaro é muito espontâneo, fala o que pensa muitas vezes. Sabemos que a figura do presidente exige uma liturgia do cargo que impede ele falar tudo o que pensa.

O senhor vai concorrer à presidência da Câmara, na sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ)?

Não, tenho apenas 28 anos. Como a linha sucessória da Presidência da República é 35 anos e o primeiro é o presidente da Câmara, na minha visão, sou contra.

Então, o PSL apoiará um nome do Centrão, como Arthur Lira (PP-AL), por exemplo, ou ficará com quem Maia indicar?

Não sei, há dezenas de nomes em especulação, mas acho que é muito cedo para discutir isso. Todos os que se lançaram são legítimos, mas ao mesmo tempo acabou gerando uma série de brigas dentro do parlamento que prejudicou o andamento dos projetos. Mas nós ficaremos independentes nessa questão.

A sucessão já atrapalhou o andamento da Casa?

Atrapalhou bastante. Foram várias semanas atabalhoadas, grupos se formando. Tudo o que acontece, um grupo acha que é retaliação por parte do outro pela sucessão da mesa, então, acho que esse debate foi muito precipitado.

A deputada Bia Kicis foi destituída da vice-liderança do governo do Congresso ontem e outros deputados do PSL também foram tirados da vice-liderança do governo na Câmara no mês passado. O partido está perdendo espaço?

Quem tem a caneta para lideranças do governo é do próprio presidente da República, como ele não explicitou qual foi a fundamentação dessas mudanças fica difícil saber qual foi a real intenção. Mas no caso da Bia, acredito ter sido a questão do Fundeb (principal fonte de financiamento da educação básica). Mas isso me estranhou do ponto de vista político, ela é a única pessoa aqui no Parlamento que nunca teceu uma crítica ao presidente Bolsonaro, nem nas relações pessoais.

O partido vai atuar de que forma em relação ao projeto das fake news?

Estou terminando de fazer um estudo amplo, me reuni com representantes das plataformas. O projeto não regula a questão das fake news em si, mas afeta muito o funcionamento das plataformas e o direito à privacidade. Será uma das nossas pautas prioritárias para discutir e aprimorar o projeto do ponto de vista da liberdade do cidadão e, se não for possível, muitos já se posicionaram contra.

Se o governo chegar a enviar um projeto de criação de novo imposto que se assemelhe à CPMF, o PSL vai apoiar?

A priori, vemos a dificuldade para o brasileiro do pagamento dos tributos são muitos, mas acho precipitado quem se posiciona contra algum tipo de imposto porque não sabemos qual texto virá.

A bancada deve tem alguns pré-candidatos às eleições municipais, como Joice Hasselmann (PSL-SP). O senhor acredita que o partido fará quantas prefeituras?

Nesse momento, os que se apresentam como pré-candidatos são os deputados Carlos Nicoletti (RR) para concorrer à prefeitura de Boa Vista, Joice em São Paulo, Felício Laterça (RJ) em Macaé, Luiz Lima (RJ) construindo candidatura para o Rio de Janeiro, Heitor Freire (CE) em Fortaleza, Julian Lemos (PB) em João Pessoa, Dayane Pimentel (BA) em Feira de Santana e Professor Joziel (RJ) em São João de Meriti. Não sei quantas prefeituras devemos fazer, no Paraná, onde conheço melhor, devemos fazer mais de 20 prefeituras.

Bolsonaro vai apoiar candidatos do PSL nas disputas municipais? Onde?

Não sei, vi posicionamentos dele dizendo que não vai se envolver em candidaturas municipais. Acredito que por todos os problemas que o Brasil passa e por todas as dificuldades que o presidente tem para conseguir colocar sua pauta, acho difícil ele participar ativamente dessas eleições municipais.

Pode haver fusão do PSL com DEM ou até, mais adiante, com Aliança pelo Brasil?

Não acredito. Foram alguns rumores que surgiram no ano passado. O presidente Bivar sempre disse que qualquer tipo de orientação ou condução do partido será feito com a Nacional e todos os deputados em conjunto.

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