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A dilmização de Temer

O Brasil viu esse filme recentemente. Mais especificamente em 2016

Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2017 | 03h00

Michel Temer é, hoje, um presidente aquartelado no Palácio do Planalto. Usa a cadeira e a caneta como armas numa batalha pessoal, e cada vez mais solitária, para se manter no cargo.

Nunca fui partidária do chavão – não dá nem para chamar de tese algo que contraria a lógica e as leis – de que o impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe. Havia razões políticas e jurídicas para se instaurar um processo contra a então presidente, e o desfecho previsto na Constituição era a assunção do vice, eleito em uma aliança sufragada nas urnas.

Portanto, Temer chegou à Presidência de forma legítima, e nessa condição formou uma equipe e propôs ao País um programa focado sobretudo na recuperação da economia, tendo como alicerce reformas estruturais.

Acontece que a mesma Lava Jato que tragou o PT chegou ao quintal do peemedebista. E, a partir desse momento, ele e seus principais aliados passaram a incorrer nos mesmos erros e a recorrer aos mesmos instrumentos – ora marotos, ora flagrantemente ilegais – para evitar serem pegos. E aí Temer foi, pouco a pouco, se igualando a sua ex-companheira de chapa.

Se é verdade que o áudio da conversa de Temer com Joesley Batista, da JBS, em março não permite atestar que ele deu “aval” ao pagamento de uma mesada para calar o deputado cassado e preso Eduardo Cunha, também é fato que o decorrer do diálogo mostra um presidente negociando com um empresário multi-investigado acesso privilegiado a funcionários do governo, tráfico de influência com um ex-assessor direto e mesmo a compra de um integrante do Ministério Público.

A partir desse grampo Temer virou alvo de um inquérito, e suas atitudes para permanecer no cargo tratam de aprofundar seu processo acelerado de dilmização – e, portanto, a torná-lo dia a dia menos legítimo no exercício da Presidência da República.

Em poucas semanas, ele trocou o ministro da Justiça sem esconder que o fazia atendendo a apelo de aliados enrolados na Lava Jato e com o propósito de mexer na Polícia Federal; remendou uma medida provisória para seguir acoitando um ministro (Moreira Franco) tão enrolado com a Justiça quanto ele próprio; ofereceu um outro ministério a Osmar Serraglio, a quem demitira sob o argumento oficial da incompetência, apenas para manter o foro privilegiado do ex-assessor flagrado correndo com uma mala recheada de dinheiro vivo e, assim, tentar evitar que ele fosse preso e virasse um delator em potencial – uma manobra frustrada ontem com a prisão de Rodrigo Rocha Loures.

Isso nada mais é que tentativa de obstrução da Justiça, algo que Dilma fez em vários momentos – como ao mandar o “Bessias com o papel” no triste episódio da nomeação de Lula para a Casa Civil.

Temer tenta desesperadamente emplacar um discurso de que a economia cresce e as reformas avançam, como forma de manter algum respaldo nos meios econômicos e partidários. Acontece que nem Henrique Meirelles faz coro a essa fábula: diante do crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre, o ministro da Fazenda tratou de dizer que os próximos trimestres devem mostrar acomodação.

Politicamente, Temer só se sustenta porque o PSDB, às voltas com suas idiossincrasias internas, ainda não decidiu se desembarca do Titanic – está mais propenso a ficar, se possível assegurando um dos poucos coletes salva-vidas para seu presidente afastado, Aécio Neves, outro cuja imagem pública derrete dia a dia como a do presidente.

Assim entrincheirado ao lado de aliados igualmente enrolados e de partidos mais interessados em sua própria sobrevivência, Temer entra em mais uma semana decisiva, em que seu pedido de cassação será julgado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pode ser denunciado por Rodrigo Janot. O Brasil viu esse filme recentemente. Mais especificamente em 2016.

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