''A Dilma, a Dilminha, vai continuar a política do Lula''

Ministro diz que oposição está sem discurso e críticas à gastança do governo federal não surtem efeito nenhum

Entrevista com

Adriana Fernandes e Lu Aiko Otta, O Estadao de S.Paulo

25 de julho de 2009 | 00h00

As eleições são somente no ano que vem, mas o debate já está nas ruas. Em entrevista ao Estado, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, deu o tom do discurso do governo na campanha eleitoral. "A Dilminha vai continuar a política de Lula", afirmou o ministro, referindo-se à virtual candidata governista, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Bernardo integra um grupo próximo a ela, chamado "os meigos de Dilma". Profundo conhecedor do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), é cotado para substituir a ministra, caso ela deixe o governo para concorrer.Para ele, a oposição está sem discurso e as recorrentes críticas à gastança do governo, na visão do ministro, não surtem efeito algum. "O Lulinha, aonde vai, dizem que ele está certo. Aqui dentro e lá fora." Sobre o provável candidato da oposição, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), o ministro diz que ele "joga para a galera" quando critica a política de juros e câmbio. O presidente Lula vai deixar uma herança maldita ao sucessor? Acho que a herança que vamos deixar para o próximo governo é uma economia crescendo, com inflação controlada, com investimentos, tanto internos como externos, crescendo muito. Podemos pensar que vai ter uma disparada do investimento nos próximos meses. E os reajustes dos servidores, que terão impacto em 2011 e 2012? O impacto mais forte é em 2010. E são gastos permanentes. Quando fomos lançar o PAC, esbarramos no seguinte problema: não tinha projeto. Não só o governo federal, como os Estados e municípios. Não tinha gente para fazer. O que fizemos foi recompor a capacidade de gestão do Estado. Todas essas mudanças não aumentaram a folha de pagamento como proporção do PIB (Produto Interno Bruto). Estamos dando uma condição melhor para o servidor, mas não estamos fazendo maluquice. Por que essa avaliação não convence economistas e entidades como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que criticou a política fiscal? Acho que as pessoas estão tentando medir a realidade hoje com a mesma régua que eles mediam antes da crise. O foco das políticas tem de ser outro. Estamos investindo em educação, assistência social, geração de empregos. Se não estivéssemos fazendo isso, o desemprego teria aumentado muito mais e teríamos um gasto muito maior com seguro-desemprego, talvez com cesta básica. É a última coisa que gostaríamos de fazer: acudir depois de acontecido o problema. Estamos falando em uma estrutura de gastos que cresce por si só, na bonança ou na crise, porque tem várias despesas indexadas. Isso não é ruim? Então vamos falar da rigidez orçamentária. Isso não foi inventado por nós. Mas está sendo agravado, por exemplo, com a ideia de criar um critério de reajuste do Bolsa-Família. Não é mais uma armadilha? Não estamos agravando, não. O reajuste do Bolsa-Família não vai fazer vinculação com nada, vai dar só um reajuste. Não terá uma regra permanente? Não. Acho que deveria ter, mas não está decidido. O que o presidente está dizendo é o seguinte: se os servidores têm reajuste, o salário mínimo tem reajuste, por que o Bolsa-Família não tem assegurado algum tipo de reajuste? O debate sobre a política fiscal já está contaminado pelas eleições? Se for isso, é bobagem, porque em 2010 inevitavelmente teremos mais crescimento e mais receita e, portanto, teremos um fiscal melhor do que em 2009. Quem apostar nessa conversa está maluco. Lá na frente teremos, de um lado, o êxito das políticas do governo e, de outro lado, os caras falando que é preciso corrigir o fiscal, que já terá sido corrigido. Mas está contaminado? Nós temos um problema grave para a eleição. A oposição não tem discurso. Eles não conseguem fazer um debate sobre política econômica melhor do que o nosso. Eles não têm políticas sociais alternativas melhores do que as nossas. Eles não têm política agrícola melhor. A forma como o governo dialoga com a sociedade, sejam os trabalhadores ou empresários, eles não conseguem fazer. Então o que sobrou para eles? Jogar pedra, dar uma tijolada. O Lulinha, aonde vai, dizem que ele está certo. Aqui dentro e lá fora. E o cara fica lá dizendo que está errado o fiscal. Quem vai olhar isso? Muitos dizem que o governo está deteriorando a política fiscal para ganhar a eleição... Mas onde está deteriorando? É um equívoco. Eles estão no mundo da lua. Quarenta anos depois, estão querendo pisar na Lua. No lançamento do plano Safra, estava lá o pessoal da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), o cara da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) e o presidente da organização das cooperativas elogiando Lula. O Brasil está prestes a dar um salto no crescimento e vai começar nesse semestre. Mas então por que o mercado vê risco político a ponto de elevar a taxa de juros futura? Você está falando do Serra? A Dilma, a Dilminha, vai continuar a política do Lula. Tive até a oportunidade de conversar com ela. "Dilma, estão falando aí do negócio do Banco Central. Não sei o que você vai dizer, mas deveria simplesmente dizer que vai fazer o que governo está fazendo". E ela disse: "É claro que é isso". Dizem que ela, se eleita, pode ser mais frouxa com a inflação... A Dilma é economista. Não vai ser mais frouxa coisa nenhuma. Ela vai fazer a política que nós fizemos, com uma vantagem. O Lula pegou a taxa de juros com 25%. Ela vai pegar com 8,5%, 8,25%. E com inflação controlada. Terá condições levar o Brasil a ter juros reais de 3,5%, de 3%. O risco político agora é o Serra? Não acho, não. Ele está falando porque tem que falar alguma coisa. O sr. não acredita no que ele fala? Não acredito é que ele vá fazer mudança na política macroeconômica, arriscando perder o esforço que fizemos. Mas ele defende coisas diferentes. Tem criticado a condução da política monetária, o câmbio... É crítica política, porque a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) critica o Banco Central, os industriais paulistas criticam. Ele tem discurso para a base dele. Você acha que ele vai entrar e dizer: "A partir de amanhã os juros estão baixados?" O sr. está dizendo que o Serra mente para agradar às bases? Está jogando para a galera. A maioria dos políticos faz isso. Como a Dilma, o Serra também vai ter que ir a público dizer o que vai fazer na economia? Acho que qualquer candidato terá que falar o que vai fazer. A Dilma vai dizer que fará o que Lula fez. Que vai continuar com a autonomia do Banco Central, que quer continuar baixando os juros. O governo não está obcecado pelas eleições? Todos os políticos ficam olhando. Eu faria minha uma frase que o Patrus (Ananias, ministro do Desenvolvimento Social) falou para o Estadão algum tempo atrás: "Bons programas rendem bons votos". Se as políticas do governo forem reconhecidas, pode tirar o cavalo da chuva que vamos eleger a Dilma. Se estiverem mal, o adversário vai ganhar. Eu recebi uma pesquisa lá no Paraná que mostrou que a Dilminha está caindo nas graças do povo. E olha que a pesquisa é de Curitiba, que tem uma classe média dura na crítica. Ela ainda não está na frente, mas está muito bem avaliada. Ao fim de 2010 o PAC terá andado? Vai sim. Muito. Vai sobrar muito para ser feito no outro governo? Vai. Quando separamos dinheiro para habitação e saneamento, ninguém tinha projeto. O PAC demorou por isso. Os caras levaram mais de 1 ano e meio para apresentar projetos. Agora as coisas estão andando. Vamos ter um problema enorme de agenda para inaugurar tudo.

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