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A cúpula de Biden foi um fiasco, mas o mundo precisa, sim, discutir os ataques à democracia

Ameaças não se restringem a ataques às cortes de Justiça, atos golpistas com o QG do Exército ao fundo, aparelhamento de instituições de Estado, propaganda contra vacinas e eleições e armamento dos civis

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2021 | 03h00

A Cúpula da Democracia foi um fiasco de público e crítica, acabou como “cúpula da hipocrisia” e expôs a falta de liderança do presidente Joe Biden, mas isso não elimina o principal: o mundo precisa discutir seriamente a questão da democracia. E, afinal, o que é democracia?

Quando o então presidente George W. Bush veio ao Brasil, em 2007, o governo Lula defendia que a Venezuela era uma democracia, pois Hugo Chávez fora eleito por voto direto e se atribuíra poderes a perder de vista via Congresso. Para os EUA, porém, Chávez dominou Congresso, Suprema Corte, PDVSA e Forças Armadas e asfixiou a mídia e a oposição. O poder emanava dele, para ele. Logo, a democracia era formal, não real.

De lá para cá, o conceito de democracia vem se ampliando. Além de eleições, independência entre Poderes e liberdades individuais, abrange direitos básicos dos cidadãos — e o próprio direito à vida —, respeito às minorias e preservação do ambiente, como disse ao Estadão o representante da União Europeia para Direitos Humanos, o irlandês Eamon Gilmore, ao passar pelo Brasil.

Assim, as ameaças à democracia não se restringem a ataques às cortes de Justiça, atos golpistas com o QG do Exército ao fundo, aparelhamento de instituições de Estado, propaganda contra vacinas e eleições e armamento dos civis – aliás, como na Venezuela. É mais do que isso. Há democracia com “Orçamento Secreto”? Desemprego aliado a inflação? Amazônia em chamas? Violência sem controle? Milhões de famílias nas ruas e com fome?

Numa esquizofrenia histórica, quanto mais se amplia o conceito de democracia, mais a democracia encolhe. Quanto mais poderes os governantes se atribuem, mais direitos surrupiam das sociedades – até o de gritar por direitos, como na China, Turquia, Polônia, Hungria, Cuba, Coreia do Norte, na destroçada Venezuela. E os tiranos têm uma bomba: a internet.

Para o general Augusto Heleno (GSI), por telefone, os ataques hackers como o feito ao ConectSUS “são o maior desafio mundial, porque os sistemas se sofisticam ao máximo, mas os hackers também, numa guerra de gato e rato”. Tem razão. E o maior risco é os ataques partirem dos próprios governos contra democracias mundo afora.

No Brasil, há eleições, urnas eletrônicas seguras, Supremo e mídia independentes... Mas o presidente não dá uma palavra sobre miséria, fome, violência e ainda ameaça o Supremo: “Ou todos nós impomos limites para nós mesmos ou pode-se ter crise no Brasil”. Se há alguém absolutamente sem limites, defensor de ditadores e doido por uma crise, todo mundo sabe quem é. Só não sabe quem não quer.

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