ALEXEI DRUZHININ/EFE
ALEXEI DRUZHININ/EFE

A crise brasileira na agenda russa

Em viagem diplomática a Moscou, o presidente Michel Temer teve de tratar de temas domésticos

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2017 | 23h38

MOSCOU - Na viagem que deveria marcar o ponto alto de sua agenda diplomática e o estreitamento da relação com o presidente russo, Vladimir Putin, o presidente Michel Temer foi obrigado a apagar um novo incêndio. Nesta terça-feira, 20, os acontecimentos em Brasília obrigaram o presidente a procurar a imprensa, em Moscou, para minimizar a derrota no Congresso e garantir que a reforma trabalhista vai sair do papel, mesmo com a rejeição do texto na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado.

O presidente chegou a Moscou por volta das 12h30, horário local, e foi recebido na pista de aterrissagem por representantes do segundo escalão do Ministério das Relações Exteriores russo. Naquele momento, todas as questões da imprensa ainda diziam respeito ao inquérito da Polícia Federal que apontou evidências de corrupção envolvendo Temer e seu ex-assessor Rodrigo Rocha Loures. Ao passar por jornalistas ainda na pista do aeroporto de Vnukovo, o presidente optou por ignorar os pedidos de entrevista, fez sinal de positivo e gesticulou que se pronunciaria depois.

Em lugar de responder às questões, Temer usou um dos eventos na pauta, o encontro bilateral com o presidente da Câmara dos Deputados russa, Vyacheslav Volodin, para falar sobre o papel do Legislativo no governo. “A importância do poder Legislativo se reflete na composição que eu fiz do poder Executivo. Cerca de 90% dos ministros que estão me ajudando a governar vieram do Poder Legislativo, são deputados e senadores”, afirmou, citando o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, que estava à mesa ao lado de ministros, deputados e senadores membros da delegação brasileira.

“O ministro Sarney Filho me lembra aqui que o nosso regime é presidencialista, mas eu faço um presidencialismo semiparlamentarista, porque nós conseguimos produzir atos muito produtivos para o País exata e precisamente porque temos o apoio do Congresso.”

Depois de multiplicar os acenos aos parlamentares em dois discursos, Temer evitou responder a questões dos jornalistas sobre a investigação da PF. Mais tarde, porém, ao receber a notícia da derrota do texto da reforma trabalhista no Senado, pediu a sua equipe que organizasse uma nova entrevista coletiva. Às pressas, no horário em que já deveria estar no teatro para acompanhar uma apresentação do Balé Bolshoi, a imprensa brasileira foi chamada ao saguão do Hotel Hilton-Carlton e o presidente tentou passar segurança e tranquilizar os mercados, turbulentos em razão do revés no Senado.

Segundo Temer, a vitória do governo no plenário é “certíssima” e a derrota é “muito natural”, porque os projetos passam por várias comissões, onde se “ganha em uma, perde na outra”. “O que importa é o plenário”, afirmou, ressaltando várias vezes: “O plenário vai decidir e lá o governo vai ganhar. É maioria simples”. Questionado sobre se tinha convicção dessa vitória, reiterou que não haverá derrota na votação final. “Está certíssimo no plenário. Nós vamos ganhar, o governo vai ganhar no plenário”, frisou.

Só no fim da noite o presidente “se livrou” das pressões vindas do Brasil e assistiu ao balé ao lado de Putin. Foi a primeira vez que o líder russo lhe concedeu um encontro bilateral, após preteri-lo em Goa, na Índia, em outubro.

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