Sebastião Moreira/ EFE
Sebastião Moreira/ EFE

A covid e a quarentena

Não faz sentido que milhões de pessoas que simplesmente não podem ficar em casa sejam tratadas como inimigos da saúde pública

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 16h47

A pandemia de covid é uma só, bem como a devastação causada por suas tragédias, mas gerou dois tipos diferentes de comportamento, cada um com a sua própria moral e seu próprio conjunto de deveres sociais. Os professores, por exemplo, acreditam, com o apoio de muitos pais, que têm o direito de não comparecerem às escolas para dar aulas. Os lixeiros, por seu lado, têm a obrigação de fazer trabalho “presencial” todos os dias, porque professores, pais e o resto da sociedade não abrem mão da coleta diária de lixo; como os lixeiros não têm a opção de fazer o seu trabalho no sistema de home office, considera-se que não podem participar do “distanciamento social”. 

A presença de pessoas nas calçadas em frente aos bares, ou na praia, ou no mercado, é severamente condenada como irresponsável; os adeptos mais intensos da “quarentena por tempo indeterminado” dizem que isso está nos limites da atividade criminosa. Já a presença de milhões de pessoas, todos os dias, no metrô, nos ônibus ou nos trens de subúrbio é tida como coisa não apenas normal, mas obrigatória. É a única maneira de levar ao trabalho os profissionais que garantem a luz para a sua casa e o gás para o seu fogão, prestam serviços de enfermagem nos hospitais ou cuidam das operações de delivery – e mais uma lista imensa de atividades cuja manutenção todos exigem, enquanto condenam o que consideram excesso de gente em circulação. Esse povo – quem trabalha – seria culpado, segundo os médicos especializados em falar na mídia sobre a epidemia, de estar espalhando o vírus.

Quando jogadores de um grande time de futebol foram declarados como portadores da epidemia, levantou-se um escândalo nacional – que absurdo, disseram vozes indignadas; os jogos têm de parar imediatamente. Quando morrem, como acontece todo o santo dia, trabalhadores que estão produzindo bens e serviços essenciais para a sobrevivência da comunidade (lixeiros, por exemplo), ninguém dá a mínima – e nem se pede a suspensão da coleta do lixo.

A covid-19 levou muitas pessoas, principalmente em função da lavagem cerebral em massa imposta pela superstição médica apresentada como ciência, a desenvolverem a crença de que não vão mais morrer se usarem máscara, lavarem a mão com gel e reduzirem ao mínimo o seu contato com outros seres humanos. Acham que paralisar ao máximo o funcionamento das sociedades é a mais importante virtude que se pode praticar hoje em dia. É uma opção de vida. Mas há no Brasil milhões de pessoas que simplesmente não podem ficar em casa. Não faz sentido que sejam tratadas como inimigos da saúde pública.

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