REUTERS/Yves Herman
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A COP e os burocratas-chefe

O grande problema ambiental é a deterioração da natureza causada pelas emissões de carbono, resultado típico da operação de economias altamente desenvolvidas – o Brasil tem muito pouco a ver com isso

J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 17h35

 A conferência internacional para debater o clima, essa “COP” da qual se fala com tanta intimidade, é uma demonstração impecável da contrafação em que se transformou a questão ambiental nas altas esferas onde supostamente ela é tratada. Já é a 26.ª reunião que fazem, aparentemente sem resultado algum: o problema, em vez de diminuir com a hiperatividade fanática de governos, megaempresas e ONGs de países ricos, só aumentou neste primeiro quarto de século de conversa. É claro que os burocratas-chefe, os empresários e a militância ecológica mundial, empenhados em “salvar o planeta”, não aceitam diminuir o seu próprio bem-estar em um milímetro, em nenhum item que possa aliviar o problema. Em compensação, nunca deixam de encontrar e denunciar culpados pela “destruição” da natureza: os países subdesenvolvidos, que estão acabando com o mundo porque querem melhorar as suas economias e escapar da pobreza. E de todos eles, está na cara quem é o grande bandido: o Brasil.

O grande problema ambiental da humanidade é a deterioração da natureza causada pelas emissões de carbono, resultado típico e direto da operação de economias altamente desenvolvidas – o Brasil, por todas as evidências disponíveis, tem muito pouco a ver com isso. A dificuldade do Brasil, na área, é muito clara: chama-se desmatamento, que de fato está em crescimento – embora seja, comprovadamente, muito menor do era quinze ou vinte anos atrás. Isso só acontece, naturalmente, porque o Brasil é o país que tem mais florestas em todo o mundo. Mais, e principalmente: essas florestas existem numa situação de anarquia, sem a presença do Estado e entregues à mais completa ilegalidade.

Quase 100% do desmatamento no Brasil é resultado direto do crime – invasões de terras, roubo de madeira, mineração clandestina, fraude nas terras indígenas, grilagem e outras desgraças devidas à falta de investimento na segurança e a inépcia oficial. Se o governo não consegue garantir a segurança nem de uma favela no Rio de Janeiro, por que iria fazer diferente na Amazônia? A verdade é que o Estado brasileiro, por incompetência dos três Poderes e em consequência de um sistema legal suicida, sequer consegue dar títulos de propriedade nesses fins do mundo. Só mesmo por um milagre não haveria desmatamento na Amazônia.

Isso não tem nada a ver com o progresso da agricultura e da pecuária legítimas, como querem, de um modo geral, os poderes presentes à COP. Eles acham que acabando com o agronegócio brasileiro vão salvar a floresta e o “planeta”; mas podem arrancar do chão o último pé de soja e nenhuma árvore, nenhuma, deixará de cair na Amazônia. Mas quem, entre as grandes potências e no “movimento ambiental”, está interessado em fatos? Muito mais interessante, para todos eles, é investir no pânico – e esconder com sua retórica de fim do mundo a falta de coragem para enfrentar os problemas reais do clima e da preservação da natureza.

“Estamos a um minuto da meia noite”, discursou o primeiro-ministro da Grã-Bretanha. É mesmo? E o que ele sugere que se faça a respeito? Que tal, já que está operando à toda no mercado do apocalipse, aplicar uma multa no presidente dos Estados Unidos? A ida da comitiva de Joseph Biden à COP, com os seus carros blindados à prova de bomba atômica, seus Boeings privados e sua multidão de sábios ambientais, deve ter queimado, em uma semana, mais carbono que qualquer país subdesenvolvido em um ano. Isso tudo para o homem dormir em público na conferência? É pouco.

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