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Os Estados Unidos se tornam grandes de novo

Cansados de ser tratados como crianças, eleitores que votaram contra Trump evitaram que a comédia se transformasse em tragédia

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 03h00

Comédias têm três atos, ensinam os clássicos da dramaturgia. Tragédias têm cinco. A comédia Donald Trump terminou nesta semana com o esperneio final – e patético – do presidente dos Estados Unidos.

É possível delinear os três atos da comédia Trump a partir da leitura de O Povo Contra a Democracia, do cientista político alemão Yascha Mounk. O livro disseca esse tipo de político que, sem ser propriamente de esquerda ou de direita, fustiga uma e envergonha a outra: o populista. 

O primeiro ato de um populista típico é vender soluções simples – e erradas – para problemas complexos. No mundo globalizado, governar não é trivial. Não é possível, por exemplo, criar empregos por decreto, tampouco evitar que eles migrem para outros países. Nem combater pandemias com poções mágicas. Líderes modernos – como Angela Merkel, Emmanuel Macron ou António Costa, para citar exemplos de vários lados do espectro político – são aqueles que conseguem explicar os limites de um governo a seus eleitores. Tratam-nos como adultos.

Um populista, por seu turno, infantiliza os que votaram nele. Trump prometeu tornar os Estados Unidos grandes novamente. Ao longo de seu mandato, tratou os cidadãos americanos como crianças a quem se promete um chocolate para que parem de chorar. Em um de seus delírios ou bravatas, inventou um muro para evitar que imigrantes mexicanos disputassem postos de trabalho nos Estados Unidos. No final – a pandemia teve um papel nisso, admita-se – a era Trump foi aquela em que mais americanos perderam seus empregos desde a Segunda Guerra. Eis o segundo ato da comédia populista. Os embustes vendidos na campanha eleitoral são esmagados pela realidade.

No terceiro ato, o populista diz que a culpa não é dele. Se algo deu errado, é porque os inimigos não deixaram o presidente governar. Por “inimigos” entendam-se a ONU, o Congresso, os “comunistas”, a imprensa, os chineses, os mexicanos. Ou, ainda, os cientistas que sugeriam medidas sensatas contra o coronavírus. Sem trabalho e diante do horror das 230 000 mortes, a maioria dos americanos escolheu Joe Biden presidente da República. Fim do terceiro ato. Fim da comédia. Cai o pano.

Trump já é, e continuará sendo, um caso de estudo em ciência política. Poucos o entenderam melhor que Mounk, intelectual que milita contra o populismo. Suas trincheiras são o site “Persuasion”, uma rede de defesa da democracia, e um podcast com o nome sugestivo “The Good Fight”, “O Bom Combate”. Nos episódios, Mounk entrevista expoentes da reflexão política num gradiente amplo de convicções, de Anne Applebaum a Francis Fukuyama. 

O maior risco de um país governado por um populista é a reeleição. Neste cenário, o ciclo continua: o governante diz que a culpa não é dele, os eleitores acreditam e o reconduzem ao cargo. A peça evolui para um quarto ato, em que o populista dobra a aposta nas soluções simples e erradas. As cenas finais mostram a corrosão das instituições. Temos aí os cinco atos de uma tragédia. As cortinas da democracia se fecham.

Cansados de ser tratados como crianças, os eleitores que votaram contra Trump fizeram uma escolha: que a América voltasse a ser gente grande no mundo. E evitaram que a comédia se transformasse em tragédia, ao interromper a peça enquanto ainda era possível rir dela.

PARA SABER MAIS

Texto de Yascha Mounk publicado em “O Estado da Arte”, no Estadão

Trecho do livro “O Povo Contra a Democracia”

Podcast “The Good Fight”

Site “Persuasion”

*JORNALISTA, ESCRITOR E PROFESSOR DA FAAP E DO INSPER

 

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