A cidade pacata mergulha na intriga política

Entre dúvidas e boatos,Pindamonhangaba não é mais a mesma depois que a investigação sobre Paulão tomou as ruas

Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo,

13 de janeiro de 2011 | 23h01

PINDAMONHANGABA - Pindamonhangaba é o caos. Nesses dias em que Paulão, o cunhado , ganhou o noticiário policial, alvo que é da promotoria criminal - e também da promotoria civil -, a cidade perdeu sua rotina de tranquilidade, cercada de dúvidas e intrigas políticas.

 

Na cidade de 146 mil habitantes e 103 mil eleitores, no Vale do Paraíba, o que se discute é o impacto da crise e a reviravolta que ela pode provocar nos rumos da administração municipal. Havia uma investigação da promotoria, ato discreto, sem alardes.

 

Dois dias depois do Natal, militares e promotores vasculharam a casa de Paulo Ribeiro, o irmão de Lu Alckmin, primeira dama do Estado. Estavam munidos de ordem da Justiça. O caso caiu no domínio público. Segredos do trabalho cauteloso da promotoria agora a cidade conhece. Promotores ficaram irritados com o vazamento e com a conotação política emprestada à demanda, para eles um feito a mais.

 

Mandaram abrir inquérito policial para identificar quem deu publicidade à investigação sobre o cunhado. A cidade quer saber o próximo passo. Apostam em prisões, mas é apenas diz que diz. Aqui e ali falam até na cassação do prefeito, João Ribeiro (PPS), apadrinhado do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

 

Reação

 

Acuado, Ribeiro tomou medidas austeras - em outubro, exonerou alguns secretários, entre eles Silvio Serrano (Finanças), suposto elo de Paulão na prefeitura. O prefeito declarou transparência de gestão. Nada mais disse. Confinado no gabinete, tem evitado pronunciamentos sobre a devassa que aponta para o primeiro escalão de seu governo.

 

Na Câmara, vereadores aturdidos. Preferem o silêncio, quando não o anonimato. Alguns não atendem o telefone, têm medo de grampo! Até os termos da CEI, instrumento tão popular de investigação do Legislativo, são mantidos a sete chaves. Como um segredo de Estado. "Os autos estão sob sigilo", assevera o presidente da Câmara, Ricardo Piorino (PPS).

 

Pindamonhangaba, R$ 330 milhões é o orçamento anual, aguarda o desfecho da investigação do Ministério Público. O cunhado pode ser enquadrado? Mas qual o crime a ele imputado? Tráfico de influência? Corrupção? E as provas? Será levado às barras dos tribunais?

 

"O estrago é violento, a cidade não comenta outra coisa", avalia Francisco de Assis Vieira Filho, o Chesco, presidente do PSDB em Pindamonhangaba e coordenador regional da legenda, também assessor executivo da CDHU em todo o Vale do Paraíba, litoral Norte e rincões da Serra da Mantiqueira, tudo junto alcança 39 municípios.

 

"O prefeito João Ribeiro está violentamente indignado", afirma o tucano. "Anda muito preocupado. É sujeito carismático, família de tradição. Cometeu um erro primário ao confiar demasiadamente. Chega um momento em que não se pode manter na administração gente com esse perfil. Depois que a porteira arrebenta Inês é morta."

 

Chesco avalia que o prefeito "deu uma resposta à sociedade" ao demitir pessoal de confiança. Ele preserva Alckmin do imbróglio. "Conheço o Geraldo o suficiente para afirmar que ele não tem qualquer ingerência em decisões municipais."

 

João Bosco Nogueira, prefeito duas vezes, vereador uma, ex-vice prefeito de João Ribeiro, aguarda. Foi ele quem denunciou corrupção e o prestígio de Paulão no governo municipal.

 

Ameaças já ouviu por sua ousadia. "Não se meta nisso, esse pessoal é profissional." Mas Nogueira não recua. "O prefeito deixou esse Paulão tomar conta de tudo. Tomaram de assalto, pegaram os cargos mais importantes e tudo gente de fora. Nenhum neófito."

 

O cunhado lobista não tem sido visto em público - recolheu-se à casa ampla da rua Barghis Mathias, no Parque Ypê. Consta que passou por pequena cirurgia que o afastou da criação de carneiros e vacas holandesas.

 

Também não apareceu mais naquela propriedade, que descrevem deslumbrante, a Cabana César Ribeiro, em Campos do Jordão.

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