A cidade onde o poder usa saias

Maioria dos postos de comando é ocupada por mulher

, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

Em São Luiz do Paraitinga, a 170 quilômetros de São Paulo, o poder usa saias. Na cidade, mais conhecida por seu carnaval de marchinhas e pelo apego à cultura popular, nada menos que seis dos mais importantes cargos públicos são ocupados pelo sexo feminino. Integram o grupo a prefeita Ana Lúcia Bilard Sicherle (PSDB), a presidente da Câmara Edilene Alves Pereira (PT), a juíza Renata Castro, a promotora de Justiça Sandra Rodrigues de Oliveira, a comandante da Polícia Militar capitã Maria de Fátima Rezende, e a delegada da Polícia Civil Vânia Izalina Zaccaro de Oliveira. Seis dos oito secretários municipais e a maioria absoluta das ocupantes de cargos de direção na prefeitura também fazem parte do pelotão que já se tornou conhecido como o "cinturão rosa do Vale do Paraíba."Quando se vai para a iniciativa privada, o quadro é semelhante: a associação comercial local é presidida por uma mulher, sexo também das donas das principais pousadas da cidade. A população, um pouco surpresa pelo fato de a cidade histórica ostentar o título de "Cidade das Mulheres", nome do filme famoso do cineasta Frederico Fellini, ao que parece, está esperando para ver o que pode acontecer sob o comando feminino. Praticamente todas as autoridades mulheres veem a situação como uma feliz coincidência que acreditam ver repetidas, em breve, em várias cidades brasileiras. A prefeita acredita que a situação reflete um novo tempo. "A mulher está provando que também pode administrar uma cidade. Nós somos, em geral, mais guerreiras", diz. Ana Lúcia, de 36 anos, a primeira prefeita da história de São Luiz do Paraitinga, que venceu cinco homens numa disputa acirrada nas eleições. A promotora, uma mulher bonita de 36 anos, acredita que, em pouco tempo, panoramas semelhantes ao de São Luiz se repetirão em outras cidades pelo País. "Somos filhas da revolução feminina, quando nossas mães tiveram que cuidar de todas suas atribuições domésticas e, ainda, se tornar boas profissionais. O que ocorre hoje na cidade é uma coincidência, mas é fruto, também, de um movimento histórico em defesa dos direitos da mulher", defende. A cidade tem 10, 5 mil habitantes, dos quais oito mil eleitores, e a população feminina, como na maior parte das cidades, é ligeiramente superior à masculina. Dona de uma pousada da cidade, Sueli Aparecida Silva, de 49 anos, acredita em mudanças. "As mulheres são mais sensíveis e têm muita cautela na tomada de decisões", diz. A população prefere esperar. "Nunca tivemos uma mulher prefeita por aqui e parece que ela tem mostrado vontade de trabalhar. Só daqui a algum tempo vamos saber se deu certo, mas por que não tentar?", indaga o aposentado José Carlos de Morais, de 62 anos. Com um chapéu preto na cabeça, o agricultor Luiz Manuel dos Santos, de 69, concorda. "Não há problema no fato de elas serem mulheres."Resta saber o que diria o coronel da Guarda Nacional Manuel Domingues de Castro, austero chefe do Partido Conservador agraciado em 1871 pelo imperador d. Pedro II com o título de Barão de Paraitinga e famoso pelo seu machismo.

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