A cada três dias, um ela passa dentro do ônibus

Trajeto de Maria Anjélica leva mais de 8 h, ida e volta

Roberto Almeida, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2008 | 00h00

Dorme, acorda, dorme, acorda, e não chega nunca. Maria Anjélica Sales Mendes, de 42 anos, define assim sua odisséia diária pelo trânsito paulistano. São oito horas de heroísmo e anonimato, quatro para ir, quatro para voltar, de Cidade Tiradentes, zona leste, a Santo Amaro, zona sul, de segunda a sábado, há um ano e meio. É mais tempo no ônibus do que na cama, dormindo o que deveria. Não tem trabalho perto, ela alega. Diz que a urgência é que complica: se for esperar a agência de empregos chamar, paga as contas como? Ela vai sentada pensando nisso enquanto o 5185-10 Parque D. Pedro II arranca na Avenida Washington Luís, altura do 1.000, às 18h20. A barulheira começa no bate-lata interminável do acelera e freia do motorista, mas não é culpa dele, diz a doméstica. É do trânsito.Só 40 minutos de mau humor depois é que o Aeroporto de Congonhas, a apenas 5 quilômetros do ponto de partida, fica para trás. Maria Anjélica desiste de ser ranzinza, solta um "tem gente em situação muito pior", e da referência da pobreza passada ela oferece um sorriso. É para Itabuna, diz a doméstica, a capital baiana do cacau, onde a vida não era nada doce.Para lá não voltaria, nem quando "teve aquela vez do acidente na Radial Leste", em que ela demorou quase seis horas para chegar em casa. Muito menos por causa dos dez assaltos que despistou porque estava esperta, enfiando o dinheiro da carteira no estofado do banco.Passa das 19h10 quando o ônibus range na Brigadeiro Luís Antônio, cruza a Avenida Paulista e desce em direção à Sé, que em meia hora desponta no pára-brisas do 5185-10. Quase a metade do caminho.O banco já esquentou no dia frio, posição confortável para um cochilo, mas dali a pouco é hora de pular no Terminal Parque Dom Pedro II, driblar os camelôs para esperar uma meia hora. Ou um pouco mais, porque o 309T-41 Barro Branco II não aparece de jeito nenhum para se abastecer da fila dupla de passageiros bocejantes. É gente demais para Maria Anjélica, que decide trocar de fila mesmo sabendo que não adianta muita coisa. Só às 20h38 é que ele manobra, às 20h45 é que ele sai, às 21h é que ele entra na Avenida Celso Garcia para desembocar na Radial Leste antes de pegar a Avenida Aricanduva. Enfim, a metade do caminho. Mas agora vai.O ônibus percorre a zona leste lentamente embalando o sono da doméstica, que já sabe que é a hora do verdadeiro cochilo. Ela e todos deixam a cabeça pender, no ritmo das ondulações da pista, e só acordam na Avenida Ragueb Chohfi, entrada de Cidade Tiradentes.O ônibus faz uma parada rápida no terminal do bairro às 22h. Maria Anjélica tem ainda mais 14 pontos de parada pela frente, a última meia hora de trânsito, o fim do itinerário, o "finalmente estamos chegando", que se encerra às 22h30, quatro voltas no relógio depois da saída, lá em Santo Amaro.Ela desce e caminha pelas ruas escurecidas, de ladeira em ladeira chega ao apartamento da Cohab onde mora há 15 anos. Sustenta dois filhos. Para isso, a cada três dias, um ela passa dentro do ônibus. São cerca 100 quilômetros diários, cruzando a zona leste em direção à "cidade" em busca de trabalho.Maria Anjélica não pega metrô porque não vale a pena. "Chegar meia hora antes, mas feito sardinha em lata? Pagando R$ 1,30 a mais pela baldeação? Não, obrigada."Acha que os ônibus melhoraram, o movimento é que não ajuda. "Tem mais linhas saindo e chegando a Tiradentes, mas o trânsito piorou muito."E vai programando o dia para chegar em casa cada vez mais tarde. "Esse horário é o pior. Prefiro sair às 20h do serviço. A diferença é que a gente vem mais rápido", disse ela, despedindo-se às 23h. Estaria de pé no dia seguinte antes de o sol nascer para fazer tudo de novo.

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