Foto: Alan Santos /PR
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A cada sete dias, pelo menos um funcionário deixa o governo Bolsonaro

De acordo com levantamento feito pelo Estado, administração já perdeu três ministros e 15 presidentes de órgãos federais em menos de 250 dias

João Ker e Vinícius Passarelli, especial para O Estado

21 de agosto de 2019 | 14h41

Após a exoneração de Roberto Leonel, presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Jair Bolsonaro segue com a alta rotatividade de cargos públicos em seus quase 250 dias na Presidência. Para além da dança das cadeiras na nova Unidade de Inteligência Financeira (UIF), o nome mais recente adicionado à lista de pelo menos 34 demissões - uma a cada sete dias - , de acordo com levantamento do Estado, é o do subsecretário-geral José Paulo Ramos Fachada, o “número 02” da Receita Federal.

Logo nos três primeiros meses de seu governo, Bolsonaro já demitiu três de seus ministros. O primeiro foi o advogado Gustavo Bebbiano, da Secretaria Geral, que foi exonerado com 48 dias de mandato, após se desentender com Carlos Bolsonaro e ter seu nome associado à denúncia de candidaturas de laranjas do PSL durante as eleições 2018. Ele foi substituído pelo general Floriano Peixoto, do Exército Brasileiro. 

Menos de dois meses depois, foi a vez do colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, sugerido pelo filósofo Olavo de Carvalho para chefiar o ministério da Educação, que deixou o cargo em meio a declarações polêmicas e boicotes. No último dia 13, a Secretaria-Geral voltou a ser palco de mudanças: o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, um dos principais nomes nas Forças Armadas e que já havia assumido a chefia da pasta no lugar de Peixoto, foi exonerado após atrito com a ala olavista do governo

A demissão de Santos Cruz marcou a terceira dispensa de um militar pelo governo em apenas uma semana. Dois dias antes dele, o general Franklimberg Freitas foi exonerado da presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai), após menos de cinco meses no cargo e ter sido alvo da pressão de ruralistas. Na sequência, seguiu-se a dispensa do general Juarez de Paula Cunha do comando dos Correios, no último dia 14.

De acordo com o presidente, Cunha foi demitido por “agir como sindicalista” após ter criticado, no Congresso Nacional, o plano de Paulo Guedes para privatizar a estatal e tirado foto com parlamentares do PSOL e do PT. O envolvimento com outros partidos também foi o motivo por trás do pedido de demissão do ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy.

Ex-ministro da Fazenda durante o primeiro ano do governo de Dilma Rousseff, ele teria irritado Bolsonaro ao indicar Marcos Barbosa Pinto, ex-assessor do PT, para a diretoria do Mercado de Capitais. Após um comentário do presidente afirmando já estar “por aqui” com Levy, ele pediu demissão do cargo em 16 de julho.

Mas não são apenas os ex-filiados ao PT que despertam a desconfiança do presidente. No último dia 13, ele pediu a exoneração do Secretária de Imprensa do Planalto, Paulo Fona, após ter descoberto que ele já havia trabalhado com o PSDB, o MDB e o PSB. O agora ex-secretário estava há apenas uma semana na função.

“Começou a circular no WhatsApp que ele trabalhou com Roriz (Joaquim, ex-governador do DF) e essas coisas. E isso chegou lá no presidente, que pediu para exonerar”, afirmou o novo ministro da Secretaria de Governo ao Estado, Luiz Eduardo Ramos.

Informações oficiais e guerras pessoais

Além da “despetização” de órgãos oficiais, outro motivo para demissões no governo Bolsonaro tem sido o seu plano de “limpar a imagem do Brasil”. Para isso, o presidente tem atacado órgãos responsáveis por coletar e divulgar dados oficiais sobre o País, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em novembro de 2018, antes de assumir a Presidência, Bolsonaro tentou desacreditar a metodologia do IBGE nas pesquisas sobre desemprego. “O que está aí é uma farsa. (...) Temos que ter uma taxa não de desempregados, e sim de empregados”, afirmou à época. Em abril, ele anunciou um corte de 25% no orçamento do órgão e, menos de um mês depois, exonerou os diretores de Pesquisas e de Informáticas, Cláudio Dutra Crespo e José Santana Beviláqua.

Outro alvo antigo de Bolsonaro é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Multado em R$ 10 mil pelo órgão por pesca ilegal em Angra dos Reis, em 2012, ele teve a irregularidade anulada em 4 de janeiro, logo após sua posse. Ainda assim, isso não impediu o presidente de atacar publicamente, através do Twitter, a gestão do órgão

Em 7 de janeiro, Suely Araújo, então presidente do Ibama, pediu demissão do órgão, alegando que sua substituição já havia sido “amplamente divulgada na imprensa”. Mas ela não foi a única: em março, José Olímpio Augusto Morelli, o servidor responsável pela multa de Bolsonaro, foi exonerado do cargo. 

A discordância em relação à divulgação de dados também motivou a demissão de Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Certas coisas eu não peço, mando”, afirmou Bolsonaro, após ter confirmado que pediu a demissão de Galvão por ele ter liberado informações sobre o aumento do desmatamento da Amazônia em 2019

Cultura, educação e direitos humanos na mira

Alvo de críticas do presidente desde o ano passado, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) também integrava um dos principais planos de reestruturação do atual governo desde sua campanha eleitoral. 

Em novembro, Bolsonaro afirmou que fiscalizaria a prova antes de sua aplicação, ao que Maria Inês Fini, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep, órgão responsável pelo exame), respondeu: “O Governo não manda no Enem”. 

Maria Inês foi exonerada de seu cargo ainda no 14º dia do governo Bolsonaro. A direção do Inep, desde então, já passou por Marcus Vinícius Rodrigues, ex-professor da FGV que ficou cerca de dois meses no cargo, e Elmer Vicenzi, que permaneceu menos de um mês no órgão.

Os ataques do presidente à cultura também renderam a demissão de Paulo Roberto Senise, ex-presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Já suas controvérsias contra a bandeira dos direitos humanos gerou a exoneração simultânea de 11 membros do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura.

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