A atração dos opostos

Bolsonaro é um candidato reativo. Depende de Lula para se firmar entre os eleitores

João Domingos, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2018 | 03h00

Faltam dez meses para a eleição presidencial e o quadro ainda é muito confuso. Mas já é possível antecipar que o desempenho do deputado Jair Bolsonaro na eleição presidencial e dos candidatos do PT a governador, senador e deputado dependerá do ex-presidente Lula, mesmo que estejam, como estão, em posições tão opostas. 

Hoje Bolsonaro se vende para o eleitor como a antítese de Lula, o que o faz aparecer sempre em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, atrás do ex-presidente. Caso Lula seja enquadrado na Lei da Ficha Limpa pelo TRF da 4.ª Região, no julgamento do dia 24, e fique impedido de concorrer, Bolsonaro também será prejudicado. Não terá mais um adversário para atacar. 

“Se o Lula cair fora, o Bolsonaro perde densidade eleitoral, porque ele não é propositivo. O que o segura até agora na posição que está é o fato de ser reativo a Lula e ao PT”, diz o cientista político Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que desde a Constituinte de 1987/88 acompanha as eleições para o Congresso e para presidente. 

Da mesma forma, Lula depende de Bolsonaro para se apresentar ao mercado como uma alternativa mais confiável, que já passou pela experiência de dois mandatos, e ao eleitor, como um candidato capaz de se opor ao conservadorismo medieval do deputado.

Quanto aos candidatos do PT a todos os outros cargos, se Lula disputar a Presidência, poderá garantir a eleição de bancadas parecidas com as atuais no Senado e na Câmara. Caso não seja candidato, a tendência é uma queda no número de eleitos. 

Isso ocorrerá porque, mesmo nos Estados em que o PT tem condições de reeleger o governador, como Bahia, Ceará e Piauí, a aliança em torno do candidato é muito ampla. Deverá beneficiar mais outros partidos do que o próprio PT. No Ceará, por exemplo, ela vai do MDB ao PDT, que lançarão para o Senado Eunício Oliveira, presidente da Casa, atrás da reeleição, e o ex-governador Cid Gomes. O senador petista José Pimentel foi rifado. Na Bahia, o principal aliado é o PP. No Piauí até o PSDB poderá entrar na coligação. 

Quanto ao candidato do PT à Presidência, se não for Lula, dificilmente ele chegará ao segundo turno, avalia Queiroz. “O teto de votação de Lula é diferente do teto de votação do PT, que é de cerca de 20%. Nesse sentido, se Lula apoiar um candidato do PT (talvez o ex-ministro Jaques Wagner), esse deverá chegar a 20% dos votos. Não mais do que isso. Agora, se apoiar um de outro partido, esse provavelmente chegará ao segundo turno. Porque Lula conseguirá transferir os votos do PT, que se juntarão aos do outro candidato. Somados, poderão alcançar 30%, o que já é suficiente para garantir a passagem para o segundo turno.”

Na mais recente pesquisa Datafolha, em dezembro, Ciro Gomes, do PDT, ficou com 12% e 13%, em dois cenários sem Lula. Pelo raciocínio de Queiroz, se Lula conseguir transferir os votos do PT a Ciro, ele tem condições de chegar ao segundo turno.

São exercícios, claro. Porque Lula tentará tocar sua candidatura até o fim. Mesmo porque – e ele sabe disso muito bem – se não se candidatar condenará o PT a sofrer uma redução muito grande tanto no Senado quanto na Câmara. E redução de bancada tem reflexo no Fundo Partidário, tempo de TV e até espaço físico no Congresso.

Por isso mesmo é que Lula insistirá em tantos quantos recursos forem possíveis a tribunais superiores para manter a candidatura a presidente caso a condenação a 9 anos e 6 meses de prisão, aplicada ao ex-presidente pelo juiz Sérgio Moro, no caso do triplex do Guarujá, seja confirmada pelo TRF-4. 

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