A arte de 'desencarnar' falando de tudo

Ex-presidente ataca países ricos, apoia protestos no Egito, defende o Irã...

Andrei Netto, de O Estado de S.Paulo,

08 de fevereiro de 2011 | 12h20

DACAR - O ano de 2011 está melhor que o de 2010 para Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação é do próprio ex-presidente, que aproveitou seu primeiro compromisso fora do País depois de deixar o Palácio do Planalto para tecer críticas aos chefes de governo que eram seus colegas há menos de 40 dias. Ao discursar no Fórum Social Mundial, em Dacar, Lula deu opinião sobre quase todo o mundo.

 

Embora tenha dito que está "em um processo de desencarnar" da Presidência e, por isso, prefere não opinar sobre sua sucessora, Lula não teve o mesmo pudor ao criticar a "insensibilidade" dos países ricos à questão da fome mundial, anunciar a "falência" do Consenso de Washington e defender a mobilização popular contra o governo do Egito, ainda que defendendo outro regime, o dos aiatolás do Irã.

 

O ex-presidente brasileiro escolheu como alvo de seu discurso os Estados Unidos e a União Europeia, garantindo aplausos de uma plateia essencialmente formada por simpatizantes da esquerda vindos de todo o mundo - incluindo sindicalistas e funcionários públicos brasileiros que foram a Dacar. A crítica ao G-20, grupo dos 20 países mais ricos, foi direta. "Não pensem que lá tem sensibilidade para o problema da fome, para os problemas dos pobres no mundo", afirmou. "Só fomos chamados para as reuniões dos países ricos quando eles entraram em crise e precisavam de nosso apoio."

 

A questão da fome no mundo foi novamente citada quando o ex-presidente bateu nos programas de socorro aos bancos, que evitou o colapso do sistema financeiro em 2008 e 2009 em países como EUA, Reino Unido, Irlanda e Alemanha. "Os recursos necessários para a superação da fome e da miséria no mundo não são pequenos. Mas são muito menores do que o total utilizado para resgatar bancos e instituições financeiras falidas na recente crise financeira internacional", comparou o brasileiro.

 

A cada ataque aos países ricos em seus 40 minutos de discurso, Lula era aplaudido pela plateia e encontrava novos temas para mais críticas. Os americanos foram responsabilizados pelo fracasso das negociações da Rodada de Doha, há dois anos e meio. Aos europeus, sobraram ataques relacionados aos subsídios agrícolas. "Eles sabotam a incipiente agricultura dos países pobres."

 

Pesos e medidas

 

Lula também citou questões de política externa, como costumava fazer na Presidência. Defendeu a criação de um Estado palestino "que seja economicamente viável, socialmente integrado e possa viver em paz com Israel" e elogiou os movimentos populares na Tunísia e no Egito. "Os ventos que sacodem o norte da África mostram como sociedades até há pouco sem esperança e sem futuro, onde ensejavam a pobreza e a exclusão social, alimentaram grandes movimentos de transformação social e política", disse.

 

Depois do discurso, o ex-presidente foi questionado se esses ventos deveriam chegar ao Irã, onde houve repressão violenta às manifestações populares. "É diferente. No Irã teve eleição", avaliou Lula. Informado de que no Egito também havia eleições periódicas, nova defesa dos aiatolás. "No Irã a eleição muda o presidente. No Egito não mudou em 32 anos."

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