A angústia de um prefeito

O que diria Graciliano Ramos ao ver Lula e Collor sorrindo abraçados em Palmeira dos Índios? E ao ouvir o presidente dizer que não se pode governar por compadrio? O autor de Vidas Secas foi prefeito da mesma cidade alagoana durante dois anos, 1928 e 1929, e sobre esse período escreveu relatórios administrativos que, por seu artesanato verbal, dispensam qualquer modorra de burocracia. Já reunidos em livro, são parte integrante de sua grande obra.Um deles dizia: "Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restaram poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem com suas obrigações e, sobretudo, não se enganam nas contas. Devo muito a eles." E: "Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta."O discurso é parecido, embora muito mais mal escrito, mas a diferença está na ação. Collor, afinal, é agora um nome-chave de Lula na CPI da Petrobrás, como Sarney tem sido fundamental para o acordo entre PT e PMDB para o apoio a Dilma Rousseff. Ambos representam a oligarquia que impera na máquina pública em todos os níveis e que Graciliano criticou nos relatórios e em obras como São Bernardo. Ele certamente não aprovaria o compadrio com esses dois poderosos clãs regionais.Ao ser informado dos atos secretos do Senado, talvez repetisse: "Há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal." Não compreenderia os cargos distribuídos a genros, mordomos, motoristas, netos; as verbas desviadas para uma fundação cujo estatuto contradiz a autoridade; os enganos nas próprias contas. Compreenderia menos ainda a complacência a tais práticas sob alegação de que são feitas por homens incomuns, acima do bem, do mal e das leis.Graciliano não era de mensalões, de jardins, de Delúbios e PC Farias; era o contrário disso tudo. Foi prefeito tão correto que se viu obrigado a renunciar. Melhor para a literatura, que ganhou romances como Angústia. Pior para a política, cujas cenas não provocam outro efeito senão o que descreve a mesma palavra.

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