Capítulo 18

A angústia de Bolsonaro às vésperas da votação da Previdência na Câmara

Ao perceber movimento antecipado de políticos para a disputa em 2022, presidente indica que irá disputar a reeleição

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 18h40

O presidente Jair Bolsonaro confidenciou a amigos, nos últimos dias, que ainda sente a solidão do poder, mesmo após seis meses no cargo. Desconfiado, acha até mesmo que “drones” podem tentar sobrevoar o Palácio da Alvorada, nos fins de semana, e evita corridas ao ar livre. Mas, apesar de dizer que não nasceu para ser presidente e que vive em “prisão domiciliar, sem tornozeleira eletrônica”, Bolsonaro já planeja o segundo mandato. Agora, ao perceber o movimento antecipado de políticos para a disputa de 2022, começou a distribuir cartão vermelho para quem acha que pode conspirar contra ele.

Às vésperas da votação da reforma da Previdência na Câmara, Bolsonaro não apenas indicou novamente que disputará a reeleição como prometeu entregar um país “muito melhor” em 2026. Fez o discurso improvisado na festa de São João do Clube Naval, no sábado. Na plateia estava o novo ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, ex-comandante militar do Sudeste que substituiu o também general Carlos Alberto dos Santos Cruz e ficará responsável pela articulação com o Congresso.

Bolsonaro, no entanto, tenta construir a narrativa de que seu governo não é de generais. E é com esse perfil que ele pretende concorrer a um novo mandato. Em junho, para demitir Santos Cruz, por exemplo, o presidente enfrentou até mesmo generais do Planalto, que ameaçaram deixar a equipe se o então ministro fosse dispensado.

Foram momentos de tensão, mas ele não aceitou o ultimato. Avaliava que Santos Cruz se insurgia contra suas ordens. Um pouco antes, já havia feito críticas ao vice Hamilton Mourão e pedido para ele submergir. 

Brigas à parte, o mais importante teste político do governo ocorrerá nesta semana com a votação, no plenário da Câmara, das mudanças no sistema de aposentadoria. O presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse ter certeza de que a reforma passará, mas deu estocadas na direção do Planalto.

“Para um presidente estar forte, ele tem de ter não só a Previdência, mas, no dia seguinte, precisa de políticas públicas que melhorem o atendimento à população e reduzam o desemprego”, afirmou Maia ao Estado.

A avaliação no Congresso é a de que, no pós-Previdência, o governo passará por maus bocados porque não terá votos suficientes para tirar do papel os seus projetos, como mostramos aqui. O pacote anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, é um dos que enfrentam resistências e deve ser desidratado. Tudo piorou desde que Moro virou alvo por causa da troca de mensagens atribuídas a ele, quando juiz, com procuradores da Lava Jato. As conversas foram reveladas pelo site The Intercept Brasil.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), parece ainda mais contrariado com Bolsonaro do que o próprio Maia que, em podcast nesta segunda-feira, 8, cobrou do Executivo a retomada do protagonismo na pauta econômica

Maia e Alcolumbre estão montando uma agenda própria para votações a partir de agosto, quando terminar o recesso parlamentar, com projetos que têm apelo popular, como a redução dos juros do cheque especial. 

“O cabo de guerra vai aumentar por causa das eleições de 2022”, argumentou o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP). “Vai chegar um ponto em que partidos do Centrão estarão juntos com a oposição para não reeleger Bolsonaro.”

Na prática, Maia se prepara tanto para assumir o figurino de candidato ao Planalto como o de vice, dependendo das circunstâncias, e tem feito elogios ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O tucano nega, mas já está em campanha para a sucessão de Bolsonaro. Na sexta-feira, 5, Maia classificou o governador como “um pré-candidato muito forte”, lembrou as boas relações com o PSDB e disse que também seria “natural” o DEM seguir junto com o apresentador de TV Luciano Huck, caso ele entre no páreo, em 2022. Foi o que bastou para entornar o caldo no Planalto.

O DEM controla três ministérios (Casa Civil, Saúde e Agricultura), mas não integra e nem pretende integrar a base aliada. “Até agora, nós não sabemos qual é a agenda do governo, além da reforma da Previdência”, provocou ACM Neto, prefeito de Salvador e presidente do DEM. “Ao que tudo indica, o governo fez uma opção clara por não ter uma base”, completou ele.

A aproximação entre Maia e Doria incomoda o presidente em um momento no qual a disputa de 2022 já começa a dar as cartas na agenda econômica. Diante desse cenário, o ministro da Economia, Paulo Guedes, já avisou que não deixará um vácuo no recesso parlamentar.

A estratégia para o “day after” da Previdência prevê um plano de ação sobre a retomada do crescimento. A ideia é lançar medidas que estimulem o crédito, como a liberação do PIS/Pasep e de parte das contas ativas do FGTS. Mas o “Pacto pelo Brasil”, que chegou a ser anunciado como “solução” para desviar o foco da crise, foi sepultado. Nem a Câmara nem o Senado quiseram assinar o protocolo de intenções.

Nos bastidores, porém, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, tem feito articulações para jogar água na fervura política. “A ideia é apaziguar a tensão contrária às instituições e reforçar o valor da democracia”, disse Toffoli ao Estado.

Mesmo antes das últimas manifestações de rua com críticas ao Congresso e ao Supremo, no dia 30, o ministro já havia iniciado uma maratona de conversas. Toffoli se reuniu, recentemente, com deputados e senadores do DEM, do PSD e do PT. A partir de agosto, ele vai se encontrar também com a bancada evangélica e com parlamentares do PSL e do PRB, entre outros partidos.

“Todo início de governo passa por problemas para sedimentar as relações. Fogo amigo sempre há”, amenizou o magistrado.

Ao que tudo indica, no entanto, o fogo também é internacional e, enquanto Toffoli tenta acalmar os ânimos, Bolsonaro aposta no confronto. 

 “O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer”, comparou o presidente, no sábado, ao sustentar que, “na cabeça dos europeus”, a Amazônia não pertence ao nosso País. “Me desculpem aqui as mulheres, ok?”, emendou ele.

E ainda nem chegamos em agosto, o mês do desgosto...

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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