A ambiguidade de uma visita olímpica

ANÁLISE: Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2015 | 02h02

Em política, sinalização é fato. Assim deve-se entender a visita da cúpula peemedebista ao Rio para conhecer o principal outdoor da gestão Eduardo Paes (PMDB): um sinal de que o coadjuvante das últimas duas décadas quer outro papel na disputa pelo Planalto.

O PMDB deixou de ser protagonista nas sucessões presidenciais desde o vexatório quarto lugar de Orestes Quércia em 1994 - com 4,4%, ficou atrás de Enéas Carneiro, do extinto Prona, na eleição vencida por Fernando Henrique Cardoso. De lá para cá, deu prioridade a ocupar cargos na administração, sem o risco do voto popular. Integrou os dois governos FHC, as duas gestões de Luiz Inácio Lula da Silva, entrou nas duas coligações de Dilma Rousseff. Assumiu o "negócio" da governabilidade, fartou-se de cargos e verbas e atazanou o Planalto com exigências e traições, mas também garantiu votos às pautas de interesse do governante de plantão.

Agora, o patamar é outro. A crise que corrói o governo Dilma e o petismo dá ao PMDB protagonismo inédito desde a gestão José Sarney. A legenda controla as presidências da Câmara e do Senado com dois parlamentares hostis ao Planalto - o deputado Eduardo Cunha (RJ) e o senador Renan Calheiros (AL). As derrotas do governo no Congresso têm a assinatura de ambos, e do PMDB. E também as poucas e negociadas vitórias, produto da ação do vice-presidente Michel Temer.

Esse partido bifronte - governo e oposição ao mesmo tempo - chamado a conhecer o Rio olímpico está de olho em Paes. O prefeito deve se destacar em 2016, ao entregar um Rio reconstruído, ironicamente, com dinheiro obtido por meio da aliança que o PMDB agora hostiliza. As obras incluem uma nova orla cheia de museus perto do centro e novos sistemas de transporte, como o VLT. Há ainda o astral de festa, com forte cobertura de mídia.

Paes em tese poderia se beneficiar desse cenário em 2018 como candidato presidencial, não fossem os "ses": se não tivesse como prioridade o governo estadual; se as eleições não estivessem tão longe; e se o PMDB não fosse tão ambíguo.

 

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