Evaristo Sá/AFP
Evaristo Sá/AFP

'A agudez da crise diminui, mas Temer tem menos poder’, diz sociólogo

Para professor da USP, cenário para o governo melhora após votação que barrou denúncia; Brasilio Sallum vê base 'desagregada'

Vítor Marques, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 05h00

A “agudez da crise” diminuirá, mas o presidente Michel Temer não terá a mesma força política comparada ao período anterior à denúncia. Esta é a avaliação do professor de sociologia da USP, Brasilio Sallum, autor de O impeachment de Fernando Collor – Sociologia de uma crise. Abaixo os principais trechos da entrevista ao Estado.

O governo Temer sairá fortalecido após a Câmara barrar a denúncia?

Sai fortalecido, mas isso não significa que ele vai voltar com a capacidade de direção que tinha antes da denúncia do (procurador-geral da República) Janot. Temer vai se fortalecer com a vitória, mas não comparado ao período anterior à denúncia. Estamos em crise há muito tempo. 

A crise continuará?

Vai diminuir a agudez da crise, mas vai continuar um ambiente de menos poder do presidente ao que ele tinha antes. Melhorará um pouco, mas não com a força que ele tinha. Será difícil recuperá-la. A denúncia contra o Aécio (Neves, senador tucano), a proximidade das eleições de 2018 e a baixa popularidade (de Temer) desagregaram um pouco a base.

O presidente tem condição de terminar seu mandato?

Sem dúvida, claro que se o Janot resolver mandar outra denúncia, a situação será mais complicada. Mas vai ficar mais difícil para que ele (Janot) apresente uma segunda (denúncia). As outras denúncias parecem ter menos evidências que esta. Ele (Janot) compromete em demasia o Ministério Público, um dos poderes da República, que tem de ter um pouco de responsabilidade política. 

O presidente Temer recebeu uma série de deputados antes da votação e houve aprovação de emendas. Qual o custo disso para a barrar a denúncia?

O Temer está soltando emendas parlamentares e estas emendas são obrigatórias. O que não estava definido era o tempo. Quando elas seriam liberadas. O que ele fez foi liberar antes. O que poderia liberar em setembro, por exemplo, liberou agora. 

Qual o resultado, então, do enfraquecimento da Presidência?

O enfraquecimento da Presidência ocorreu na direção geral que ele estava dando: o ajuste fiscal. Há interesses particulares que são contrariados por esta diretriz, aí vem Refis, vem a bancada ruralista e aumenta o custo de você fazer qualquer programa de ajuste. A quantidade de interesse particulares que há é infinita.

Quem sustenta o governo Temer?

Partidos como PSDB, apesar da divisão interna, o DEM, o chamado Centrão, o meio empresarial e aqueles grupos particulares que estão lá e dependem das benesses do governo. 

Ainda há uma série de pedidos de impeachment engavetados. Eles representam um risco para Temer?

Não representam risco algum, para abrir um processo de impeachment é algo difícil, complicado. Não vejo chance nesse momento.

Antes das quedas dos presidentes Fernando Collor e Dilma Rousseff havia manifestações nas ruas do País. Por que não se veem esses protestos nesse mesmo grau? 

É preciso lembrar que o presidente Temer tem baixa popularidade e as pesquisas mostram isso. Mas as situações são diferentes. Nos casos anteriores, via-se, nas ruas, uma alternativa. E agora? Quem assumiria a Presidência? O Rodrigo (Maia)? São situações diferentes.

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