A 20 meses da eleição presidencial, Serra e Dilma cultivam parcerias

Tucano aprofundou relação com Planalto e garantiu, nos dois primeiros anos de gestão, 58% a mais de recursos

Julia Duailibi e Silvia Amorim, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Adversários políticos e possíveis rivais em 2010, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), avançaram para além da atual retórica amistosa e passaram a firmar parceiras na esfera administrativa, na contramão da conflituosa relação entre tucanos e petistas. Sob Serra, o governo paulista aprofundou a relação com o Palácio do Planalto. O resultado é visível não só na quantidade de projetos firmados entre governos federal e estadual, recentemente, mas também no total de recursos repassados. Entre 2007 e 2008, primeiros anos de gestão de Serra, São Paulo recebeu 58% a mais de transferências voluntárias da União que entre 2005 e 2006, dois últimos anos de Geraldo Alckmin (PSDB). Em termos reais, descontada a inflação, foram R$ 814 milhões no biênio Alckmin contra R$ 1,23 bilhão nos dois anos de Serra, segundo dados do Tesouro Nacional. O governador e a ministra, que se conhecem "há mais de 30 anos", como diz Dilma, conversam por telefone com frequência e mantêm relação respeitosa. "Realmente é uma relação amistosa e cordial. É alguém com quem eu gosto muito de conversar", afirmou Serra. Há cerca de 20 dias, ele deu uma carona a Dilma no helicóptero do governo. Ambos estavam em um evento em São Bernardo do Campo e tinham reunião no Palácio dos Bandeirantes para discutir projetos.Das parcerias entre o Estado e a União, uma das mais emblemáticas é a execução do trecho sul do Rodoanel, conjunto de vias que vai circundar a capital paulista e ajudar a reduzir o tráfego urbano de caminhões. A obra, que custará R$ 4 bilhões, receberá R$ 1,2 bilhão da União. E o dinheiro está pingando todo trimestre, em parcelas de R$ 75 milhões. "Não podemos reclamar", comenta o secretário dos Transportes, Mauro Arce. A pontualidade nos repasses é uma novidade. Na campanha de 2006, Alckmin, então candidato do PSDB à Presidência, acusou Lula de não ter transferido "um centavo" para a obra viária mais importante do Estado. A habitação é outra área em que a aproximação entre Dilma e Serra tem ajudado. Convênios assinados até agora já somam R$ 49,6 milhões de investimentos da União. A contrapartida estadual é de R$ 30,9 milhões. A parceria mais simbólica, entretanto, aconteceu no início deste mês, quando o governo paulista entregou no Palácio do Planalto as diretrizes do programa que é a menina dos olhos dele na habitação: o Cidade Legal, que prevê a regularização de cerca de 800 mil imóveis no Estado e redução em até 90% dos custos em cartório para famílias carentes. A medida atraiu a atenção de Dilma e a levou a discutir pessoalmente o assunto com Serra. Na quarta-feira passada, a ministra anunciou a inclusão do mesmo benefício no mais novo programa habitacional de Lula. O programa de inversão das fases de licitação do governo do Estado, que visa a dar mais agilidade ao processo de compras governamentais, também despertou interesse. O Planalto pediu mais detalhes ao governo paulista, que sugeriu o envio de uma medida provisória ao Congresso para tratar do assunto.Outra parceria que contou com o aval de Dilma foi a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. A negociação rendeu R$ 5,4 bilhões ao Tesouro estadual e irritou os petistas, que acham que Serra se beneficia dos cofres cheios em tempos de crise. "Isso é uma visão ultrapassada. Esse tipo de política, eu diria mesquinha, não tem espaço em um Brasil moderno", comentou Dilma à época."Há uma boa vontade recíproca entre os dois", afirmou o secretário da Casa Civil de Serra, Aloysio Nunes Ferreira.MESMA MATRIZDilma e Serra têm em comum o fato de serem economistas e de fazer parte da geração que atuou no movimento estudantil contra a ditadura. "PT e PSDB têm a mesma matriz. Mas tiveram de se diferenciar para sobreviver eleitoralmente", analisa o cientista político Luiz Werneck Vianna. "Dilma e Serra não têm a marca da política predominante no Lula e presente em Fernando Henrique. O que os caracteriza é serem pessoas de administração e a ausência de carisma evidente.""O Lula tem relação pessoal boa com o Serra, comigo. Isso não impede de darmos nossas bicadinhas de vez em quando. O PSDB, no entanto, deveria ser mais frontal na crítica, sem dúvida. Mas não cabe aos governadores externarem isso. Cabe, sim, ao partido", declarou ao Estado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso."Dilma tem uma relação boa e administrativamente correta e civilizada com Serra", afirmou Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, que manteve parceria administrativa com tucanos durante sua gestão na capital mineira.Serra tem dito que, em razão da crise, o seu papel é trabalhar com o governo federal para garantir emprego e renda. "Estamos trabalhando em sintonia", disse recentemente. Em discurso durante a inauguração de casas populares, há cerca de 20 dias, o governador destacou a parceria com o governo federal e afirmou que não há "concorrência". "Na vida pública, a gente pega ideia dos outros. Não tem patente", disse.

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