70% do Conselho de Ética tem ficha com problemas

Ao menos 21 membros são alvo de inquérito, réus em ação ou têm ligação com nepotismo e atos secretos

Leandro Colon, O Estadao de S.Paulo

30 de julho de 2009 | 00h00

A esperada benevolência do Conselho de Ética com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), pode ser explicada, entre outras coisas, pela biografia de seus integrantes. Pelo menos 70% dos membros do conselho são alvos de inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), réus em ações penais e/ou envolvimento com nepotismo e atos secretos nos últimos anos. Caberá a esses senadores decidir na próxima terça-feira o destino dos pedidos de abertura de processo de cassação de Sarney.  Veja também: Sarney diz que cedeu 'fantasma' para o Conselho Editorial Virgílio terá de devolver mais de R$ 200 mil Legislativo descumpre lei do teto salarial Ações contra Sarney no Conselho de Ética já são onze Virgílio:' Ameaça do PMDB é conversa de mafioso' ESPECIAL: a trajetória de José Sarney ÁUDIO: Ouça os diálogos que ligam Sarney a atos secretos e a Agaciel Confira a lista dos 663 atos secretos do SenadoESPECIAL MULTIMÍDIA: Entenda os atos secretos e confira as análises  O ESTADO DE S. PAULO: Senado acumula mais de 300 atos secretos O ESTADO DE S. PAULO: Neto de Sarney agencia crédito no Senado Presidente do Conselho de Ética emprega 'fantasma'Pressionado a renunciar, o peemedebista é acusado de ligação com boletins administrativos sigilosos, nomeação de parentes e afilhados, além de desvio de recursos da Petrobrás pela Fundação José Sarney. A fundação vive hoje a perspectiva de intervenção por parte do Ministério Público do Maranhão, por causa do desvio de cerca de R$ 500 mil de uma verba de patrocínio de R$ 1,34 milhão concedida pela estatal do petróleo.O Estado cruzou a lista de integrantes titulares e suplentes do Conselho de Ética com escândalos recentes semelhantes aos que alcançaram Sarney. Poucos escapam. Dos 30 titulares e suplentes, ao menos 21 estão nessa malha fina.A tropa de choque do PMDB, por exemplo, marcha unida nesse quesito. Os quatro titulares - Wellington Salgado (MG), Gilvan Borges (AP), Paulo Duque (RJ) e Almeida Lima (SE) - têm algum tipo de ligação com nepotismo, ato secreto ou investigação externa. Outros quatro titulares aliados de Sarney também fazem parte desse grupo: Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), Gim Argello (PTB-DF), João Durval (PDT-BA) e Romeu Tuma (PTB-SP). Juntos com João Pedro (PT-AM) e Inácio Arruda (PC do B-CE), eles somam votos suficientes - entre os 16 titulares - para barrar as cinco representações que já foram protocoladas contra Sarney.Porta-voz do presidente do Senado em plenário, Wellington Salgado é alvo de três inquéritos no Supremo por sonegação fiscal e crimes contra a Previdência. É suspeito ainda de empregar funcionários fantasmas em seu gabinete. Anteontem o Estado revelou que o presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque, emprega um assessor fantasma no próprio órgão desde novembro.No ano passado o motorista de Duque foi demitido após a descoberta de que era irmão do chefe de gabinete do senador. Suplente do suplente do ex-senador e hoje governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), Duque não esconde que fará tudo para evitar a abertura de investigação contra Sarney no conselho. Ele contará com o apoio de Gilvan Borges, que emprega parentes de um assessor em seu gabinete. Quando foi descoberto que empregava a mãe e a mulher no gabinete, ele disse: "Dou emprego a elas porque uma me pariu e a outra dorme comigo." O senador ainda é suspeito de uso irregular da verba indenizatória.SUPLENTESe um senador faltar à sessão do Conselho de Ética, o suplente assume a vaga. Mas nem assim o quadro muda. Dos 14 reservas, 10 empregaram parentes, assinaram atos secretos, são alvos de inquérito ou réus em processos. O PMDB, partido de Sarney, mais uma vez, se destaca. Os quatro suplentes estão no banco de dados do STF: Valdir Raupp (RO), Lobão Filho (MA), Mão Santa (PI) e Romero Jucá (RR). Os três primeiros tiveram de demitir parentes em outubro do ano passado, em meio ao cumprimento da súmula antinepotismo. Ex-líder do PMDB, Raupp é alvo, por exemplo, de dois inquéritos e duas ações penais sob a acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa.Os quatro petistas reservas aparecem em atos secretos: Delcídio Amaral (MS), Ideli Salvatti (SC), Eduardo Suplicy (SP) e Augusto Botelho (RR). Este último já empregou o irmão no Senado. Delcídio empregou um filho do ex-diretor João Carlos Zoghbi, nomeado por ato secreto, além de ter abrigado em seu Estado uma sobrinha de Sarney, Vera Macieira, que também conseguiu o emprego por meio de boletim sigiloso. Já Suplicy assinou um ato secreto que deu assistência médica vitalícia a Agaciel Maia. A medida foi anulada recentemente pela Mesa Diretora. Nem mesmo a oposição - que pede a abertura dos processos contra Sarney - fica de fora. Três titulares no Conselho de Ética têm seus nomes em boletins sigilosos ou casos de nepotismo: Demóstenes Torres (DEM-GO), Heráclito Fortes (DEM-PI) e Eliseu Resende (DEM-MG). CRISE NO LEGISLATIVOSenadores do Conselho de Ética que respondem a inquérito no Supremo, estão envolvidos em nepotismo ou com os atos secretosTITULARESPaulo Duque (PMDB-RJ) - presidenteAtos secretos (nomeação de assessores)Nepotismo (motorista do senador, irmão do chefe de gabinete foi demitido)Empregou um assessor fantasma no Conselho de ÉticaWellington Salgado (PMDB-MG)Três inquéritos (sonegação fiscal e crime contra a previdência)Teria funcionários fantasmasJoão Durval (PDT-BA)Nepotismo cruzado com a Câmara Distrital de BrasíliaAntonio Carlos Valadares (PSB-SE)Um inquérito (crime eleitoral)Atos secretos (como membro da Mesa Diretora)Nepotismo (um genro do senador trabalhou no gabinete)Heráclito Fortes (DEM-PI)Atos secretos (como membro da Mesa)Nepotismo (cunhada, demitida ano passado)Gilvan Borges (PMDB-AP)Dois inquéritos (injúria e difamação)Nepotismo (emprega concunhada, prima de ex-mulher e ex-chefe de gabinete mantém oito parentes no quadro)Gim Argello (PTB-DF)Um inquérito (lavagem de dinheiro, peculato e corrupção)Almeida Lima (PMDB-SE)Atos secretos (nomeação de assessores)Nepotismo (dois sobrinhos trabalharam no gabinete)Demóstenes Torres (DEM-GO)Atos secretos (nomeação de assessores)Eliseu Resende (DEM-MG)Nepotismo (sobrinho foi empregado)Romeu Tuma (PTB-SP)Atos secretos (como membro da Mesa)SUPLENTESRosalba Ciarlini (DEM-RN)Um inquérito (Crimes de responsabilidade)Nepotismo (sobrinho empregado até ano passado)ACM Júnior (DEM-BA)Atos secretos (nomeação de assessores)Romero Jucá (PMDB-RR)Um inquérito (crime eleitoral)Mão Santa (PMDB-PI)Três inquéritos (peculato, crime eleitoral e injúria)Atos secretos (assessores nomeados)Nepotismo (filha e mulher já foram lotados no gabinete)Ideli Salvatti (PT-SC)Atos secretos (assessores nomeados)Augusto Botelho (PT-RR)Atos secretos (assessores nomeados)Nepotismo (um irmão trabalhou no gabinete)Valdir Raupp (PMDB-RR)Dois inquéritos e duas ações penais (corrupção, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa)Nepotismo (dois cunhados e dois sobrinhos no gabinete)Atos secretos (assessores nomeados)Lobão Filho (PMDB-MA)Um inquérito e uma ação penal no STF (formação de quadrilha, falsidade ideológica e uso de documento falso)Nepotismo (um tio e um primo foram lotados no gabinete)Delcídio Amaral (PT-MS)Atos secretos (assessores nomeados)Eduardo Suplicy (PT-SP)Atos secretos (como membro da Mesa)

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