Caio Sartori/Estadão
Caio Sartori/Estadão

55% dos tuítes com a hashtag #BolsonaroDay foram automatizados, aponta estudo

Levantamento analisou 66 mil contas que, sozinhas, foram responsáveis por cerca de 1,2 milhão de postagens de apoio aos atos pró-governo do dia 15 de março, o que indica uso de robôs e perfis não humanos

Alessandra Monnerat, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 15h45

Pelo menos 55% dos tuítes com a hashtag #BolsonaroDay publicados no dia das manifestações pró-governo de 15 de março vieram de perfis automatizados ou robôs, de acordo com levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). O estudo identificou 66 mil contas que, sozinhas, foram responsáveis por cerca de 1,2 milhão de postagens.

A pesquisa, coordenada pelas professoras Isabela Kalil (FESPSP) e Marie Santini (UFRJ), aponta que os robôs que usaram a hashtag #BolsonaroDay publicaram, em média, 700 tuítes no dia 15 de março. As contas automatizadas mais ativas chegaram a postar mais de 1,2 mil tuítes nessa data.

A grande quantidade de tuítes por conta em apenas um dia é um indício claro de automação. De acordo com o estudo, usuários comuns publicam de três a dez vezes no Twitter por dia, enquanto humanos mais ativos postam até 50 tuítes por dia.

A hashtag #BolsonaroDay foi a mais utilizada no Twitter no dia 15 de março. O estudo mostra a formação de uma “tropa cibernética” com uso expressivo dos chamados robôs e ciborgues. Os primeiros são contas que publicam, de forma automática, mensagens escritas com uso de inteligência artificial; os segundos, perfis que postam tuítes elaborados por humanos, mas também de maneira automatizada.

“As chamadas ‘tropas cibernéticas’ ou exércitos virtuais são comumente utilizados nas redes sociais para ativar a militância online a favor do governo e falsificar a opinião pública”, afirma a pesquisa. “Isso afeta a cobertura jornalista e cria túneis de realidade para os usuários das redes sociais”. 

Para identificar as publicações de perfis inautênticos, os pesquisadores utilizaram o software Gotcha, desenvolvido pelo Laboratório de Microssociologia e Estudo de Redes (NetLab) da UFRJ, em parceria com a Twist System, uma startup de ciência de dados. O índice de acerto é 80%.

Temas mais utilizados pelas ‘tropas virtuais’ de Bolsonaro

O estudo também analisou tuítes com as 30 principais hashtags de apoio ao presidente Jair Bolsonaro entre 1º de janeiro e 15 de março de 2020. Os pesquisadores identificaram alguns padrões de comportamento nas postagens. Um deles é o de “campanha permanente”: isso significa adotar métodos de campanha mesmo fora do período eleitoral, com uso da militância virtual para atacar adversários.

“O objetivo dessa forma de comunicação, marcada por informações enganosas e exaltação de si, é provocar o “contágio” emocional e respostas viscerais do público – como raiva, medo, desorientação, negacionismo e indignação”, afirmam os pesquisadores.

Entre as hashtags utilizadas nesse discurso estão #Bolsonaro2022 e #BolsonaroPresidenteAté2026. “O volume de uso das hashtags da campanha permanente no Twitter se mantém homogêneo ao longo das semanas e dos meses do ano desde seu surgimento”, informa o estudo. “Evidências de uma ação de comunicação planejada, orquestrada e automatizada”. 

Outro padrão de comportamento apontado na pesquisa é o de chamamento para os atos 15 de março, com utilização de hashtags como #CongressoInimigodoBrasil e #Dia15EuVou. As mensagens publicadas no Twitter incentivavam a participação das manifestações de rua, mesmo contrariando recomendações para evitar contágio pela covid-19. Para tanto, as postagens se valiam da figura do patriota, uma pessoa que estaria disposta a “morrer pelo País”.

Os autores do estudo apontam que a decisão dos humanos de participarem dos atos pró-governo pode ter sido orientada pela falsa percepção de adesão expressiva à pauta do 15M nas redes. “Ainda que os robôs não possam votar ou transmitir doenças, sua atuação nas redes sociais (ao se confundirem com usuários comuns), pode orientar o comportamento dos humanos e alterar de maneira significativa a tomada de decisão ou o comportamento”, diz a pesquisa. 

Em nota, o Twitter afirma que “inferências como essa não levam em consideração as medidas defensivas” da plataforma para “garantir que o conteúdo automatizado não influencie as conversas” na rede social. A empresa diz ainda que não encontrou manipulação coordenada generalizada nos Tweets com a hashtag citada, mas que “seguirá acompanhando de perto as conversas sobre o tema na plataforma.”

Leia o estudo completo aqui

Nova convocação para ato pró-Bolsonaro tem Doria como alvo

Apoiadores do presidente Bolsonaro se organizaram nas redes sociais nesta semana com a tag #NasRuas5DeAbril em peças com imagens de governadores, com João Doria em destaque. O pico de viralização foi imediatamente após a entrevista do presidente para a Jovem Pan, na última quinta-feira, 2.

Apesar de circularem chamadas concretas para atos neste domingo, 5, em algumas capitais, com local e horário, levantamento do Estado encontrou compartilhamentos cerca de dez vezes menores, no Facebook, em relação às convocações das carreatas do último final de semana.

As postagens de convocação não partem de movimentos conhecidos por presença nos atos de apoio a Bolsonaro como o Avança Brasil, que se limitaram a reproduzir o apelo de Bolsonaro para que cristãos façam um dia de jejum pela volta da normalidade ao País e a vitória contra o coronavírus.

Textos contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal também circulam associadas à hashtag. O presidente disse na quinta-feira, 2, que precisa de “apoio popular” para implementar medidas que talvez o Congresso e o Judiciário o impeçam de adotar para garantir o fim do isolamento social.  (COLABOROU TIAGO AGUIAR)

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