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José Roberto de Toledo
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4.880 dias em 10

Terão sido 4.880 dias de era petista, 60% sob Lula da Silva e 1.958 dias sob Dilma Rousseff. Uns importam mais que outros. Eis dez dias que abalaram o Brasil e selaram o destino do PT. 

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 03h08

29.º dia depois do PT: lançamento do Fome Zero. A ideia original era combater a fome de 44 milhões de pessoas. No dia 293 da era petista, foi englobado pelo Bolsa Família e tornou-se um dos maiores programas sociais do mundo. De quebra, virou o principal cabo eleitoral do petismo. Regiões que nunca tinham votado no PT tornaram-se redutos do partido, mudando o mapa do voto em pelo menos seis eleições.

887.º dia: pressionado por denúncias de corrupção que o levariam à cadeia, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, tatua a expressão “mensalão” na imagem do PT. Além de nunca mais se livrarem da palavra (dicionarizada em 2005 como “procedimento ilícito de pagamentos feitos a congressistas para cooptação de votos”), os petistas viram sua mais hábil geração sucumbir ao processo, julgamento e condenações que se seguiriam.

1.186.º dia: entra em vigor o salário mínimo de R$ 350. Foi o maior aumento real da era petista, 33% acima da inflação. Somados ao Bolsa Família e ao crédito consignado (criado no 350.º dia pós-PT), os aumentos reais ano após ano do salário mínimo fomentaram um mercado de consumo popular inédito e alavancaram a popularidade de Lula, permitindo a ele reeleger-se, a despeito do “mensalão”. A voz do bolso seria mais escutada do que qualquer outra pelos petistas a partir dali.

2.860.º dia: Lula elege Dilma. Surfando a onda de consumo interno e da expansão da economia mundial, Lula conseguiu furar a “marolinha” da crise financeira de 2009 e, com uma popularidade maior do que qualquer outro presidente brasileiro, fez como sucessor uma mulher que jamais disputara uma eleição. Levou o PMDB de carona, pondo Michel Temer de vice. O casamento de conveniência PT-PMDB mostraria-se um risco mal calculado.

3.657.º dia: em almoço na praia baiana de Inema armado por Jaques Wagner, Dilma evita discutir com Eduardo Campos (PSB) sobre uma nova chapa para a eleição presidencial de 2014 na qual ele seria seu vice, no lugar de Temer. Campos saiu da Bahia candidato a presidente e decidido a acabar com 20 anos de aliança PT-PSB.

3.809.º dia: manifestação contra o aumento de 20 centavos da passagem de ônibus em São Paulo precipitou uma avalanche de protestos Brasil afora, solapando a estratosférica popularidade de Dilma. Foi a queda de aprovação mais abrupta da história brasileira. Uma queda da qual ela jamais se recuperaria – e que revelava um desejo de mudança que o PT insistia em ignorar.

3.990.º dia: reunião de técnicos do Tesouro vira rebelião contra as pedaladas fiscais para maquiar as contas do governo. Além de servir, dois anos depois, como desculpa para o impeachment, revelaria o isolamento de Dilma em relação à economia: era, na prática, sua própria ministra da Fazenda e não ouvia críticas.

4.093.º dia: a Polícia Federal deflagra a Lava Jato, a maior operação contra corrupção da história brasileira. Pela primeira vez, os maiores empreiteiros do País seriam condenados e presos, junto com dezenas de burocratas, doleiros e senadores. Dilma hesita, e a oposição se aproveita da operação. As revelações desbotariam o que restava da imagem do governo e provocariam as maiores manifestações políticas da classe média já registradas.

4.414.º dia: Eduardo Cunha se elege presidente da Câmara. Manobrando o regimento interno e anos de ressentimento acumulado pelos deputados contra Dilma e o PT, aprova a pauta bomba, solapa a base governista e inviabiliza o governo.

4.855.º dia: deputados aprovam o impeachment, e o Brasil descobre de quem é feita a Câmara. Fim da era petista na prática.

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