ARQUIVO AE
O Vulcan pousou no Galeão após falha no reabastecimento em voo; ele carregava um míssil antirradar Shrike, que foi retido. ARQUIVO AE

40 anos da Guerra das Malvinas: governo britânico ameaçou Brasil em razão da crise do Vulcan

País reteve bombardeiro inglês que entrou no espaço aéreo brasileiro durante a guerra; britânicos queriam liberação da aeronave que voltava de missão de bombardeio às tropas argentinas nas Malvinas

Marcelo Godoy e Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 05h00

O governo do Reino Unido pressionou duramente o Brasil a liberar o seu bombardeiro Vulcan que invadiu o espaço aéreo brasileiro e foi interceptado pela Força Aérea Brasileira em 3 junho de 1982, apontam documentos sobre a Guerra das Malvinas guardados no Arquivo Nacional. Houve conversas em Brasília e em Londres, nas quais os britânicos pediram que o caso fosse tratado do ponto de vista político, visando à manutenção das boas relações entre os dois países, não do direito internacional.

O caso envolvia questões complexas. Não havia, do ponto de vista jurídico, uma guerra declarada, e o governo brasileiro, embora defendesse uma solução negociada para o conflito, não era neutro. Permitia a venda de armas brasileiras à Argentina e enfrentava acusações - que negava - de fingir que não via a passagem de armamento líbio por território nacional, com destino ao governo de Buenos Aires.

“b) de um ponto de vista político e diplomático, o governo brasileiro tem dado apoio à Argentina e, inclusive, lhe tem permitido adquirir armamento de produção nacional, o que está de acordo com a resolução adotada pela XX Reunião do Órgão de Consulta do TIAR”, diz, em despacho “Secreto-Exclusivo” de 8 de junho de 1982, dirigido ao presidente João Figueiredo, o ministro das Relações Exteriores, Ramiro Saraiva Guerreiro. “c) a Argentina pediu fossem aplicadas ao bombardeiro Vulcan as regras de neutralidade estrita, que, note-se, no caso de aeronaves não são inteiramente claras por falta de convenção vigente. Se atendêssemos ao pedido argentino, a Grã-Bretanha poderia exigir-nos a aplicação do estatuto de neutralidade também em relação à Argentina, o que seria incompatível com as diversas formas de apoio que temos dado ao nosso vizinho.”

Na correspondência guardada no Arquivo Nacional, Saraiva Guerreiro lembra que a Argentina pediu “verbalmente” que o Brasil “pelo menos atrasasse” a entrega do avião, embora “a nota que nos foi passada evidentemente não mencionasse essa hipótese”. A aeronave da Royal Air Force foi interceptada por dois caças F5-E, que partiram da Base Aérea de Santa Cruz. O Vulcan fora detectado no radar a 340 quilômetros do Rio, em espaço aéreo do Brasil, sem autorização. Vinha de uma missão nas Malvinas, de volta para a base na Ilha da Ascensão, no Atlântico Sul. Trazia um míssil não disparado. Sua tripulação de seis tripulantes pediu pouso de emergência. Foi escoltado até a Base Aérea do Galeão.

Inicialmente, o Brasil anunciou que desarmaria a aeronave e a liberaria, mas, diante do pedido informal dos argentinos, resolveu retê-la. Os britânicos reagiram, com contatos diplomáticos na capital britânica e no Distrito Federal e um documento encaminhado ao governo brasileiro.

“O governo de Sua Majestade Britânica ficou surpreso e desapontado ao tomar conhecimento da decisão do governo brasileiro no sentido de retardar a partida da aeronave Vulcan retida na Base Aérea do Galeão, a despeito da decisão, anunciada na quinta-feira, 3 de junho, pelo Ministro da Aeronáutica, de permitir o regresso do avião à sua Base, desde que totalmente desarmado”, afirma documento entregue pelos britânicos aos brasileiros.

O documento, no original em inglês e na tradução para o português, está anexado ao despacho de Saraiva Guerreiro para Figueiredo. Em seu último parágrafo, faz uma ameaça: “O governo de Sua Majestade Britânica lamenta ter que deixar claro ao governo brasileiro que a reversão da decisão anunciada em 3 de junho, se mantida, acarretaria sérias consequências para as amistosas relações de que a Grã-Bretanha e o Brasil tem desfrutado ininterruptamente há tanto tempo e às quais atribui grande valor.”

Guerreiro então fez suas sugestões para Figueiredo. “Nessas condições, sugiro a Vossa Excelência:

a) reter o armamento transportado pelo avião Vulcan, cuja presença no Brasil foi permitida por razões exclusivamente humanitárias, até o final do conflito (dessa forma se daria alguma satisfação à Argentina);

b) restituir o bombardeiro Vulcan, mediante compromisso escrito inglês de que não mais o utilizará em operações bélicas durante o presente conflito nas Malvinas (por um lado se atenderia à solicitação inglesa, aproveitando fórmula proposta ao Embaixador em Londres, por outro, o decurso do tempo entre a chegada do avião ao Brasil e sua liberação, assim como as condições em que a mesma seria realizada, dariam alguma margem de satisfação à Argentina);

c) seria o governo britânico informado de que a decisão em apreço e de caráter puramente prático não constituindo precedente jurídico, esperando o governo brasileiro que o episódio não se repita;

d) seria, igualmente, o governo inglês informado de que, no interesse da manutenção das relações amistosas entre os dois países, o governo brasileiro decidira não levar em consideração os termos do último parágrafo do ‘papel’ que o Embaixador inglês deixou comigo no sábado, por considerar que o mesmo contém um tipo de insinuação desnecessária e desproporcional;

e) o governo argentino seria previamente informado da decisão brasileira quanto ao Vulcan;

f) com relação ao trânsito de armamentos, seria repetido ao governo inglês que o governo brasileiro procurará desencorajá-lo, sem, porém, fazer nada de dramático, tendo em vista que Brasil não se juntou ao embargo de armas imposto à Argentina e que o Reino Unido continua ‘a suprir-se de armas junto a países ocidentais’. O Governo argentino seria informado do interesse brasileiro em evitar-se o trânsito de armas pelo Brasil.”

O avião decolou com sua tripulação para a Inglaterra no dia 10 de junho.

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Brasil espionou argentinos e revirou míssil dos ingleses durante a Guerra das Malvinas

Documentos do Acervo Nacional e livro exibem rede em Buenos Aires e ajuda russa, cubana e líbia no conflito que completa 40 anos

Marcelo Godoy e Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 05h00

O governo militar brasileiro montou em 1982 na Argentina, durante a Guerra das Malvinas, uma “Rede de Busca de Informações” sobre o confronto entre o país vizinho e o Reino Unido, indicam documentos do Estado-Maior das Forças Armadas guardados no Arquivo Nacional (AN).

O País também aproveitou o pouso do bombardeiro britânico Vulcan, no Rio, para se apossar de um míssil antirradar Westinghouse AGM-45 Shrike, desmontá-lo e examiná-lo antes de devolvê-lo aos britânicos.

A história dessas ações brasileiras na guerra pode ser reconstituída com base nos papéis enviados recentemente ao Arquivo Nacional. Outra parte foi localizada por João Roberto Martins Filho, professor de Universidade Federal de São Carlos, que está lançando o livro O Brasil e a Guerra das Malvinas: Entre Dois Fogos (Alameda, 318 págs). Martins Filho pesquisou ainda nos arquivos britânicos e do Itamaraty. O Estadão teve acesso aos documentos e ao livro, que será lançado em junho.

Nos documentos do Estado-Maior das Forças Armadas fica claro que o objetivo do esquema montado na Argentina – quase um mecanismo de espionagem, envolvendo adidos e oficiais do Brasil que faziam cursos em escolas castrenses argentinas – era burlar a censura da ditadura local que, ironicamente, é criticada pelos brasileiros em relatório. Na época da disputa bélica pelo arquipélago no Atlântico Sul, que faz 40 anos, brasileiros e argentinos – estes sob estado de sítio – viviam em ditaduras. Na Argentina, toda informação era controlada pelo governo.

“Para contornar esse óbice é que se estabeleceu, além dos contatos normais com os setores de Inteligência (Informações) dos E.M. (Estado Maior) de cada uma das Forças argentinas – normalmente evasivas e reticentes –, um entrosamento mais estreito com outros adidos militares confiáveis, que se mostravam mais ativos e dinâmicos no acompanhamento do conflito”, diz o documento 1982/1983 – Operação Rosário (cont.) – Retomada das Ilhas Malvinas. Rosário era como os argentinos designavam a invasão das Ilhas Malvinas (Falkland, para os britânicos), Sandwich do Sul e Geórgia do Sul, em 2 de abril de 1982.

O documento descreve a rede: “Contou-se com a valiosa colaboração dos nossos oficiais-alunos matriculados nas escolas de Estado-Maior do Exército e da Aeronáutica da Argentina, do oficial do SNI junto à Side (Secretaria de Inteligência), bem como de jornalistas brasileiros e estrangeiros, representantes de jornais e revistas do Brasil e outros países, os quais acorriam à nossa embaixada, para avaliação de suas análises e estimativas do conflito”.

Euforia

Foram oficiais-alunos brasileiros que fizeram chegar ao Brasil, então comandado pelo general João Figueiredo, informações sobre a euforia que tomou a Escola Superior de Guerra após a ação argentina. Na escola, diz o documento, “professores não conseguem esconder seu entusiasmo e chegam a dizer que o governo revolucionário havia sido legitimado pela derrota ao terrorismo e pela recuperação das Malvinas”.

Um mês após a invasão, começou a operação inglesa de retomada das ilhas. O Brasil ajudou os argentinos, com inteligência e armas, mas procurou manter um bom relacionamento com o Reino Unido. O relatório conta que, na noite de 26 de março de 1982, a Junta Militar se reuniu. Seus membros eram o general Leopoldo Galtieri, chefe do Exército e presidente da República; o brigadeiro Basilio Lami Dozo, pela Aeronáutica; e o almirante Jorge Isaac Anaya, pela Marinha. O ministro das Relações Exteriores, Costa Méndez, participou do encontro secreto.

Nele, foi tomada a decisão de desencadear a operação para retomar as Malvinas. O arquipélago estava sob domínio do Reino Unido desde o início do século 19. Mas os argentinos o reivindicavam. “O plano era um ‘segredo do Estado’, só conhecido pelo Estado-Maior Conjunto e pelos Comandantes em chefe”, relata um adido da Força Aérea Brasileira (FAB), que descreve problemas de planejamento, questões políticas e até um pouco do ambiente de sonho vivido pelos argentinos com a invasão.

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Contou-se com a valiosa colaboração dos nossos oficiais-alunos (...) do oficial do SNI, bem como de jornalistas brasileiros e estrangeiros (Estado-Maior das Forças Armadas)
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“Nem os oficiais-generais dos Estados-Maiores das Forças Singulares tinham ciência. A falta de conhecimento, por parte dos demais escalões das Forças, foi um fator muito negativo, pois uma série de providências deixaram de ser tomadas.”

Multidão

O cenário interno se agravava, com manifestações sindicais. Em 1.º de abril, poucos apostariam na permanência de Galtieri no poder. No dia seguinte, os argentinos foram surpreendidos. “Galtieri conseguiu reunir impressionante multidão na Plaza de Mayo e falou ao povo. (...) Congregou a Nação, e a fez crer que derrotar a terceira potência mundial era possível.”

Informações obtidas no Estado-Maior da Aeronáutica local apontavam, segundo a documentação, que, “no dia da invasão, 2 de abril de 1982, a operação (Rosário) estava prevista para maio ou junho, quando as condições climáticas seriam mais desfavoráveis aos ingleses”.

Na época, durante a Guerra Fria, os militares argentinos dedicavam-se à repressão política – estima-se que até 30 mil pessoas tenham desaparecido. Mas a precariedade dos meios militares para um confronto externo, especialmente com tropas profissionais de uma potência como o Reino Unido, era óbvia e desaconselharia a aventura. “Foi mal interpretada a posição dos EUA”, diz o documento.

“A colaboração da Argentina na conturbada região da América Central (assessores militares treinando os contras da Nicarágua) levaria a pressupor que o governo americano forçaria a saída diplomática.” Esperava-se que a ação sem derramamento de sangue fizesse o Reino Unido negociar. “Não foi estimada a reação inglesa.”

Urânio

Martins Filho trata de outra forma por meio da qual o Brasil obteve informações da Argentina. O País teria decifrado o código das comunicações criptografadas da chancelaria do país vizinho. Entre as principais preocupações estava obter informações sobre a ajuda da URSS, de Cuba e da Líbia de Muamar Kadafi à Argentina.

A Líbia teria se comprometido a enviar mísseis soviéticos SAM-6 e SAM-7 por meio da rota Trípoli, Ilhas Canárias, Recife e Buenos Aires. Cinco voos em Boeings 707 da Aerolíneas Argentinas foram feitos e mais de uma centena de mísseis, entregues. Os brasileiros vigiavam ainda o programa nuclear argentino. O Centro de Informações da Marinha informou que a negociação da Argentina com a URSS previa o envio de cem quilos de urânio enriquecido a Buenos Aires. Temia-se o estabelecimento de bases russas no país.

Ao mesmo tempo que vigiavam os argentinos, os brasileiros aproveitavam uma oportunidade única da guerra: a captura de um míssil AGM-45 Shrike, de fabricação americana. Ele estava em um bombardeiro Vulcan que pousou no Rio em 3 de junho por não conseguir se reabastecer em voo. O avião voltava das Malvinas, onde disparara dois mísseis e bombardeara o aeroporto de Port Stanley, capital da ilha, e ia à base de Ascensão.

A tripulação tentou se livrar de material sensível. Jogou no mar um Shrike, mas o outro ficou preso, com a ogiva ativada. Ao pousar no Rio, o avião foi retido, a pedido da Argentina. Após negociações, os brasileiros concordaram em liberar o Vulcan, desde que desarmado.

O míssil foi retido. À pressão inglesa para reavê-lo juntaram-se os EUA. Martins Filho mostra a razão da preocupação dos dois países: tratava-se de arma com sistema moderno de guiagem. E os brasileiros poderiam xeretá-lo. Foi o que aconteceu. Londres enviou mensagem ao seu embaixador no Brasil, George William Harding. “Você deve estar ciente das notícias de que podem estar mexendo com o míssil.” Cópias foram enviadas a Washington, ao Ministério da Defesa inglês e à Inteligência da Royal Air Force.

Ou seja, o serviço secreto inglês estava sendo informado sobre a ação dos brasileiros, revelada pelo jornalista Roberto Godoy por meio de fontes da FAB. Godoy escreveu no Estadão que o míssil foi examinado por peritos da Aeronáutica. O equipamento foi desmontado em segredo – o Brasil buscava desenvolver seu primeiro míssil. Além de Harding, o embaixador americano, Anthony Motley, pressionou o País. Após vários adiamentos, a arma foi entregue em segredo à Inglaterra em 6 de julho, 22 dias após a rendição argentina.

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Livro mostra como Brasil se moveu entre Argentina e Reino Unido na Guerra das Malvinas

Relato ultrassecreto de encontros de Haig, Reagan e Figueiredo expõe ameaça de escalada se Thatcher atacasse no continente

Marcelo Godoy e Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 05h00

Às 17h30 de 11 de maio de 1982, o presidente João Figueiredo chegou à Blair House, a residência do secretário de Estado americano, Alexander Haig. Fazia 11 dias que os britânicos atacavam os argentinos nas Malvinas. Até então, o Brasil se equilibrara em uma neutralidade simpática à Argentina e buscava preservar as relações com o Reino Unido.

O episódio é relatado por João Roberto Martins Filho em seu livro O Brasil e a Guerra das Malvinas: Entre Dois Fogos. Por meio de documentos ingleses e brasileiros, Martins Filho reconstrói um momento dramático da diplomacia brasileira: o alerta de Figueiredo aos EUA de que a posição brasileira poderia mudar em caso de ataque inglês à Argentina no continente.

“Naquele momento, o Brasil se comportou muito bem”, disse Martins Filho. O Estadão examinou o documento ultrassecreto do Itamaraty sobre o encontro de Figueiredo com Haig e a reunião, no dia 12, com o presidente americano Ronald Reagan. Acompanhavam Figueiredo o chanceler Saraiva Guerreiro, o general Danilo Venturini (titular da Casa Militar) e o embaixador em Washington, Antonio Azeredo da Silveira

URSS

Além de Haig, ouviram Figueiredo os embaixadores Thomas Enders e Anthony Motley. Ele avisou que apreciava o estilo direto e disse que quem lucrava com a guerra era a URSS, que se aproximava da Argentina. “Não se pode perder a Argentina para a causa do Ocidente.” Figueiredo temia que o regime de Buenos Aires fosse desestabilizado, e o poder passasse aos peronistas e, depois, aos comunistas.

O presidente afirmou que era um erro os EUA ajudarem a Inglaterra, pois a Argentina, em seu direito à sobrevivência, apelaria ao Brasil. E também à URSS. “A ideologia tem força menor que a nacionalidade.” E prosseguiu: “O que temos de entender é que as Malvinas não podem ser motivo de uma crise mundial. Inglaterra e Argentina são países amigos e aliados. E ambos perderam a razão.”

Antes de se despedir, Figueiredo disse a Haig que só tinha uma preocupação: a Inglaterra atacar no continente, o que teria repercussão desastrosa na América do Sul. “É necessário que essa hipótese seja evitada a todo custo.” Haig disse que essa era a opinião americana e trataria disso com a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher. “Se acontecer o pior, certamente a solidariedade americana eclodirá”, afirmou o brasileiro.

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O que temos de entender é que as Malvinas não podem ser motivo de uma crise mundial. Inglaterra e Argentina são países amigos e aliados (João Figueiredo, Presidente do Brasil)
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No dia seguinte, Reagan disse que a disputa pelas Malvinas era “ridícula”. “Não vale a vida de um homem.” Ele contou a conversa com Figueiredo a Thatcher, mas evitou falar da ameaça do brasileiro. “Reagan deve ter achado que isso a ofenderia e arruinaria o diálogo”, escreveu Martins Filho. Em suas memórias Thatcher cita a conversa.

Frota

Durante o conflito, o Brasil procurou se equilibrar entre os beligerantes. Quando os ingleses enviaram a força-tarefa para recuperar as ilhas, os ingleses temiam cruzar no Atlântico com um submarino brasileiro e confundi-lo com um argentino.

O embaixador inglês George William Harding procurou o chefe do Estado-Maior da Armada, o almirante José Gerardo Albano de Aratanha, em sua casa, em Brasília. Pediu que os submarinos brasileiros não se afastassem mais do que 500 milhas da costa. Martins Filho revela que o britânico registrou que Aratanha disse “sem hesitação que poderia assegurar que nenhum navio da Marinha operaria fora das 200 milhas do mar territorial brasileiro”.

Ao retirar as embarcações do caminho, o Brasil permitiu aos ingleses a certeza de poder identificar como inimigo quem estivesse na rota. Concedia essa vantagem tática aos ingleses, ao mesmo tempo que fornecia aviões Bandeirante de reconhecimento aos argentinos. Ou ainda permitiu que um avião cargueiro Ilyushin, com ajuda militar de Cuba, prosseguisse para Buenos Aires após interceptá-lo. Informou, porém, ao adido militar inglês o que ele transportava: material de comunicação. Assim o Brasil se equilibrou até o fim da guerra.

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