249 trabalhadores encontrados em condição de escravidão em MT

A fiscalização do Ministério do Trabalho realizou nesta quinta-feira, 10, a maior operação de resgate de trabalhadores em situação análoga à de escravos. Foram libertados 249 trabalhadores mantidos em cárcere privado, na Fazenda Agropecuária Pôr do Sol, na fronteira com a Bolívia, no município Campos de Julho, a cerca de 600 quilômetros de Cuiabá (MT).A fazenda está em nome da gerente do Banco do Brasil em Cuiabá, Leny Oliva Artmann, mas, segundo informações obtidas pela fiscalização no local, a propriedade é administrada pelo marido da gerente, Nery Guilherme Artmann.Toda a produção da agropecuária é vendida para a Usimat Destilaria de Álcool, próxima à fazenda.Segundo o auditor fiscal que comandou o grupo móvel de fiscalização, Humberto Célio Pereira, se for comprovado que a usina tinha conhecimento da exploração de mão-de-obra escrava pelos fornecedores, ela também será autuada.SituaçãoPereira disse que em seus cinco anos de atuação, nunca havia visto situação tão degradante como a encontrada na Agropecuária Por do Sol. Os trabalhadores estavam sem receber salário desde o início do ano. Os alojamentos estavam em péssima situação de higiene, a comida era estragada e muitos trabalhadores estavam doentes.Essa foi a maior operação do grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho desde o primeiro semestre de 2005, tanto em número de trabalhadores libertos como em valor de indenização, que atingirá cerca de R$ 530 mil.A equipe de fiscalização, composta também por policiais federais e procuradores do trabalho, chegou à fazenda após denúncia de três trabalhadores que conseguiram fugir, andaram 100 quilômetros a pé, pegaram uma carona e chegaram a Cuiabá dias depois.Os trabalhadores foram aliciados no Nordeste, nos Estados do Maranhão, Piauí, Paraíba, Alagoas e Pernambuco. Eles eram obrigados a pagar R$ 35 - valor anotado em caderno - se quisessem ir até a cidade de Campos de Julho, que fica a 80 quilômetros da fazenda, único lugar onde podiam fazer contatos telefônicos com parentes. "As dívidas se tornaram impagáveis, inclusive com os gastos na cantina da fazenda", disse Humberto Pereira.Segundo o auditor, até mesmo o equipamento de proteção individual era vendido. "Os trabalhadores se amontoavam para descansar após onze horas de trabalho sob sol escaldante, na plantação, corte e colheita de cana", relatou.A fiscalização encontrou muitos trabalhadores - todos homens - doentes, com infecção intestinal, provocada pelas péssimas condições do alojamento, com esgoto a céu aberto, comida distribuída azeda e em recipientes impróprios.Os fiscais iniciaram nesta quinta-feira a regularização trabalhista dos libertos. Todos serão encaminhados para as cidades de origem. A Polícia Federal instaurou inquérito policial e, o Ministério Público do Trabalho, ação civil pública por danos morais aos trabalhadores

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