Heitor Hui/Estadão
Julio Neto denunciou no exterior a censura e a violência contra jornalistas no Brasil Heitor Hui/Estadão

DUAS DÉCADAS SEM JULIO DE MESQUITA NETO

Democrata convicto, notabilizou-se pela luta contra censura e pela liberdade de imprensa

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 05h00

Faz hoje 20 anos que morreu o jornalista Julio de Mesquita Neto, que foi diretor responsável de O Estado de S. Paulo de 1969 até 1996, período em que se notabilizou por sua incansável luta contra a censura imposta pelo regime militar e pela defesa da liberdade de imprensa. Seguindo os ideais de seu pai, Julio de Mesquita Filho, ele teve uma carreira marcada por intensa atividade no jornalismo em interação com a política brasileira.

Sua estreia na Redação do Estado ocorreu em 1948. Começou como repórter esportivo, mas logo passou a publicar artigos sobre Política, História e Economia. A partir de 1955, dedicou atenção especial ao Suplemento Literário, projetado pelo crítico e escritor Antônio Cândido, sob inspiração de Julio de Mesquita Filho.

Julio Neto era um democrata convicto. Ainda como estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), participou de atos públicos contra a ditadura do presidente Getúlio Vargas, em 1943. Foi um dos signatários do Manifesto à Nação, documento de contestação ao regime ditatorial distribuído nas ruas pelo Centro Acadêmico XI de Agosto. O Estado estava então ocupado pelo governo e seu pai, Julio de Mesquita Filho, encontrava-se exilado na Argentina.

No primeiro exílio imposto à família, em 1932, após a derrota militar da Revolução Constitucionalista, Julio Neto e seus irmãos, Ruy Mesquita e Luiz Carlos Mesquita, viveram dois anos em Portugal. Também foram exilados seu tio Francisco Mesquita, com a família, além de outros líderes da revolta contra Getúlio Vargas, entre eles Armando de Salles Oliveira, cunhado dos Mesquitas e acionista do Estado.

Preparando-se para o futuro na direção da empresa, que na época só editava O Estado de S. Paulo, Julio Neto fez um curso sobre novas técnicas de jornalismo na Universidade de Columbia, em Nova York. Era formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, ambas da USP.

Após a morte do pai, em julho de 1969, Julio Neto tornou-se diretor responsável do Estado, enquanto seu irmão Ruy Mesquita exercia o mesmo cargo no Jornal da Tarde, vespertino fundado em 1966.

Luiz Carlos Mesquita, que morreria em 1970, cuidava da Edição de Esportes, publicada às segundas-feiras. Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita, filha de Francisco Mesquita, dirigia o Suplemento Feminino, que circulava aos domingos.

Censura. Julio Neto assumiu a direção do Estado em um momento crítico da vida brasileira. Estava em vigor o Ato Institucional n.º 5 (AI-5), que em 13 de dezembro de 1968 impôs a censura à imprensa, iniciando o período mais duro do regime militar. Os Mesquitas reagiram desde a primeira hora à medida. Avisaram ao governo que não fariam autocensura e que, se as autoridades quisessem censurar o jornal, pusessem censores na Redação. Foi o que ocorreu.

Como não eram permitidos espaços em branco, foram publicados textos e imagens aleatórios para mostrar que o jornal estava sob censura. O Estado substituía o material vetado por transcrições de despachos judiciais, cartas de leitores inventadas pelos redatores e anúncios de campanhas culturais e ambientais inexistentes – por exemplo, um apelo para o cultivo de rosas azuis.

Os leitores nem sempre entendiam a manobra, tanto assim que um grupo de senhoras da sociedade paulistana foi ao gabinete do prefeito Figueiredo Ferraz pedir apoio para a sugestão do jornal de se florir a cidade. Houve gente também que aplaudiu a divulgação de versos de Gonçalves Dias, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e outros poetas, achando que se tratava apenas de publicação cultural.

Por sugestão do jornalista Antônio Carvalho Mendes, responsável pela coluna de falecimentos, Julio Neto mandou que fossem publicados repetidamente versos de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Foi aí que se entendeu que os poemas cobriam o espaço das matérias cortadas pelo lápis vermelho dos censores. No Jornal da Tarde, Ruy Mesquita optou pela publicação de receitas de bolos e doces.

Como membro e depois presidente da Associação Interamericana de Imprensa (SIP na sigla em espanhol), Julio Neto denunciou no exterior a censura e a violência contra jornalistas no Brasil. Seus discursos tiveram grande repercussão fora, mas sua transcrição era proibida nos jornais brasileiros. Em 1974, a divulgação do discurso de agradecimento de Julio Neto foi vetada, quando a Federação Internacional de Jornais (atual World Association of Newspapers) lhe outorgou a Pena de Ouro da Liberdade.

Julio Neto protestava contra o arbítrio da censura e defendia com coragem os jornalistas perseguidos pela ditadura. No caso de Carlos Garcia, diretor da Sucursal do Recife, que em 1974 foi preso e torturado numa unidade do Exército, ele telefonou ao ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, para exigir a libertação do jornalista. Salvou a vida de Garcia e protegeu-o em seguida, mandando escondê-lo num hotel do interior de São Paulo.

Quando o jornalista Flávio Tavares, que foi nomeado correspondente em Buenos Aires, apesar de ter sido banido do Brasil, foi preso e também torturado em Montevidéu, Julio Neto enviou ao Uruguai seu filho Júlio César Mesquita, acompanhado de um grupo de advogados, para negociar sua libertação. Apesar de divergências ideológicas, Julio Neto designou Flávio Tavares para ser editorialista político do Estado.

Raramente, Julio Neto deixava sua sala na sede do jornal, de onde controlava o que se passava na Redação. Foi ali que recebeu sem rancor o ex-governador gaúcho Leonel Brizola, adversário político dos Mesquitas, quando ele voltou do exílio.

Em abril de 1982, subiu ao palanque do Partido dos Trabalhadores para conhecer seu fundador, o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Diante do espanto dos jornalistas, que se surpreenderam com sua presença, disse que considerava Lula e o PT as únicas coisas novas na política brasileira.

Internado no Hospital Albert Einstein, em junho de 1996, Julio Neto disse ao filho, Júlio César Mesquita, 48 horas antes de perder a consciência, que era preciso o PT chegar ao poder para o Brasil ver o que os petistas fariam no governo. “Era uma premonição do que agora, 20 anos depois, nós vimos acontecer”, comenta Júlio César.

Apesar de sua aparência tranquila, Julio Neto era um homem de muita coragem física e pessoal. “Eu gosto mesmo é de uma boa briga”, disse o diretor responsável do Estado, numa das vezes em que foi intimado a prestar depoimento em inquérito policial sobre matérias censuradas no jornal.

Nascido em São Paulo em 11 de dezembro de 1922, Julio de Mesquita Neto era filho de Julio de Mesquita Filho e de Marina Vieira de Carvalho Mesquita. Casou-se com Zulu Cerqueira César de Mesquita, com quem teve dois filhos, Júlio César Mesquita e Marina Cerqueira César Mesquita.

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Fernando Henrique Cardoso
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Um homem de dignidade

Vinte anos se passaram. O tempo para quem chegou à minha idade não é sequencial, torna-se quase atemporal, abusando de contradições. Transforma-se em memória e se refaz nela.</p>

Fernando Henrique Cardoso, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 05h00

Recordo vivamente haver telefonado ao Ruy (Mesquita) para saber se cabia visitar o Julio Neto, que estava no hospital em situação delicada. Ele fora discreto a vida toda: por isso, poucas pessoas sabiam da doença. Ruy ficou de ver e mais tarde me disse: “Melhor não o visitar, respeitemos sua intimidade”.

A próxima notícia já foi a da morte. Ordenei que reorganizassem minha agenda e fui de Brasília a São Paulo para o enterro. No aeroporto, o inesperado: foi a única vez em que vi o avião presidencial arremeter ao tentar aterrissar. Outro avião, parece, atrasara a decolagem e dificultara nossa aproximação.

É também assim com a vida: os encontros e desencontros podem dever-se a acasos. Eu, na faculdade, sabia dos Mesquitas. Como não saber, se a USP era a menina dos olhos de Julio Mesquita Filho e do jornal?

Entretanto, às voltas com Marx e a dialética, eu guardava distância do liberalismo do jornal. Qual não foi minha surpresa quando, décadas depois , encontrei Julio de Mesquita Filho em Paris, assistindo a um seminário da Unesco, em maio de 1968, para homenagear o aniversário de O Capital, de Marx. Dr. Julio, ao saudar-me (eu estava no exterior para escapar do golpe de 1964), perguntou: “O senhor aqui?”. Retruquei: “E o senhor?”. Bons tempos, quando divergências de visão não impediam o diálogo nem afastavam convergências futuras.

Estas vieram com a outra geração. Fernando Pedreira, que fora mais ardoroso militante do que eu, tornara-se editor-chefe do Estadão e amigo próximo de Julio Neto. Por seu intermédio, com a ajuda de Roberto Gusmão, ambos amigos da vida inteira, passei a participar, vez por outra, dos drinques que serviam como pretexto para as conversas no bar do hotel grudado ao jornal no centro de São Paulo.

O liberalismo de Julio Neto, revivendo o de seus maiores, já não me assustava. Incorporara-o à minha visão social-democrática para os temas políticos e de direitos humanos. Não sei até que ponto minha visão social(ista), quanto aos limites que a sociedade deve impor ao laissez-faire, foi compartilhada por Julio Neto. Com Ruy, de quem com o tempo me tornei mais próximo, por certo coincidimos mais nos caminhos social-democratas.

Quanto ao Julio, figura reta, quase ascética, mais difícil de perscrutar, não saberia dizer. Mas, se além de o termos na memória o tivéssemos na convivência, uma coisa é certa: sua voz não calaria ao ver governo e Estado amarrados a interesses privatistas e partidários.

Quanta falta faz um homem de dignidade!

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