190 deputados e 29 senadores assinam CPI

Mais que constrangimento, o suposto envolvimento do ministro da IntegraçãoNacional, Fernando Bezerra, na prática de fraudes contra a Sudene deu hoje novo fôlego ao esforço dos partidos de oposição para instalar a chamada CPI da Corrupção. Ao final do dia, as lideranças de esquerda contabilizavam o apoio de 190 deputados e 29 senadores - 21 nomes mais do que o exigido para a instalação de uma comissão mista - contingente engrossado pela adesão de dois senadores tucanos. Os irmãos Álvaro e Osmar Dias, ambos do PSDB do Paraná, decidiram assinar o requerimento da oposição impondo mais um revés ao Palácio do Planalto.O anúncio da adesão dos irmãos tucanos surpreendeu o governo e jogou por terra uma operação abafa montada pelos operadores políticos do Planalto para esvaziar a CPI. Recebidos no Palácio da Alvorada no final da manhã de hoje, os líderes do PSDB e do PMDB no Senado, Sérgio Machado (CE) e RenanCalheiros (AL), levaram ao presidente Fernando Henrique Cardoso uma boa-nova: dois senadores governistas haviam concordado em retirar seus nomes do requerimento da oposição, o que derrubaria a instalação da comissão. O grupo, que incluiu o secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, comemorou o que poderia ter sido um golpe na oposição, não fosse a surpresa preparada por Álvaro e Osmar Dias.Os partidos de oposição preparam um grande ato amanhã para formalizar o pedido de abertura da CPI da Corrupção. A mobilização inclui até representantes dos movimentos sindicais, que estarão no desembarquedo aeroporto de Brasília na manhã de quarta-feira entregando flores aos parlamentares. A idéia é sensibilizar os indecisos e estimular os que já tenham apoiado a comissão. A contabilidade das lideranças de esquerda indica que o governo poderá enfrentar dificuldades para abortar a comissão. Segundo a senadora Heloísa Helena (PT-AL), as investigações deverão centrar-se nos casos Sudam e Sudene, cujas denúncias não param de crescer. A comissão será formada por 22 parlamentares - 11 senadores e 11deputados - cuja maioria é governista. PMDB e PSDB deverão controlar os dois principais postos: presidente e relator da comissão.Os irmãos Dias agiram à revelia do PSDB e do Planalto. Álvaro e Osmar vinham se negando a apoiar a CPI da Corrupção não apenas pela defesa do governo, mas também, por concordarem com a tese da inconstitucionalidade. Segundo eles, entretanto, os fatos do final de semana exigem uma mudança deposição. "As últimas notícias reforçam a tese de que é necessária uma investigação", justificou Álvaro Dias, referindo-se às denúncias associando o ministro a fraudes na Sudene.Para ele, a questão política se sobrepõe agora à firula legal. "Mesmo que juridicamente não haja efeitos, a questão política é mais forte", comentou, ao deixar de lado a tese de que a CPI é inconstitucional.Osmar Dias fez um discurso para justificar seu apoio a comissão. Ele admitiu que havia se disposto a assinar no caso de uma desistência e justificou sua decisão com o que qualificou como pressão da opinião pública para que as investigações sejam feitas.Ainda perplexos pela reviravolta de hoje, os operadores políticos do governo estão guardando a sete chaves sua estratégia de ação. A orientação é aguardar a formalização do pedido da oposição para ver qual o melhor caminho a tomar. O raciocínio do governo é simples: se os partidos de esquerda não tiverem o conjunto de assinaturas que afirmam, um contingente de parlamentares governistas retirará suas assinaturas, sepultando a CPI. A defecção aliada será feita junto às Mesas da Câmara e do Senado, no momento da conferência de assinaturas. Até a semana passada, o Planalto contava com a boa vontade de mais de 10 políticos, que chegaram a entregar uma carta de arrependimento ao líder do governo na Câmara, ArnaldoMadeira (PSDB-SP).O outro caminho será tomado apenas em cenário menos favorável, com a efetiva criação da comissão. Nesse caso, o Palácio do Planalto escolherá a dedo os integrantes da CPI da Corrupção a fim de controlar com mão de ferro o andamento dos trabalhos. "Vamos esperar para ver o que a oposição tem a apresentar", disse hoje o líder do governo. Seu tom, um misto de expectativa e desafio, ilustra com fidelidade a posição do Planalto: a manobra vai depender dos trunfos do adversário.

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