Daniel Teixeira/Estadão
Manifestantes reunidos na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão Daniel Teixeira/Estadão

15 olhares sobre os protestos do dia 15

Cientistas políticos, historiadores, filósofos e sociólogos analisam o impacto das manifestações de 15 de março de 2015

Fátima Pacheco Jordão

Socióloga e conselheira do Instituto Vladimir Herzog

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h14

As manifestações são uma forma de explicitar o descontentamento com o governo, não têm componente golpista. Essa movimentação pede mudanças e as respostas do governo apontam nessa direção. Está havendo uma mudança de postura efetiva do governo. Vejo tudo isso com otimismo. Eles estão com menos de 10% de aprovação, e isso é inédito. O País vai viver um momento muito rico. Como nunca tivemos um grau de liberdade, conscientização e educação tão altos, o Brasil tem chance de dar um salto. A opinião pública disse o que deseja, pacífica e contundentemente, tanto em junho de 2013, quando nas eleições, quanto ontem. Em qualquer país do mundo, isso é muito positivo. O pedido pelas Forças Armadas é marginal, e é natural que assim seja. Estamos vivendo uma gama que vai da extrema esquerda à extrema direita, e é positivo que se possa tolerar essa escala de diversidade.

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Fabio Wanderley Reis

Cientista político e professor emérito da UFMG

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h22

 Acho que o 15 de março, em si mesmo, não traz grande novidade. Pela forma como foi inicialmente convocado, vem na onda de algo novo, que já vimos nas manifestações de 2013, ou seja, o instrumento de mobilização popular ágil representado pelos celulares e pelas redes sociais, apesar de que a repercussão na imprensa, antes do evento, obviamente ajudou a ampliá-lo. Pelo tamanho das manifestações, de todo modo, naturalmente tem algum impacto no quadro da crise que o País está vivendo. Mas mesmo esse impacto me parece limitado: afinal, o tamanho foi maior onde o antipetismo e o antigovernismo já tinham aparecido maiores na eleição do ano passado; e, com o jeito de festa tranquila, que nem pôde ser apropriada mais claramente pela oposição político-partidária, faltou nas manifestações algo mais forte, mais dramático. A crise continua feia e o governo perplexo. Mas as coisas não mudam muito.

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Pablo Ortellado

Filósofo e professor da USP

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h19

As manifestações de domingo têm um impacto político enorme. Tiveram a mesma grandeza dos protestos de junho de 2013, se não maior. O fato de estarem circunscritas a uma classe social ajuda a explicar o fenômeno, mas ele não deve ser deslegitimado por conta disso. Qualquer manifestação que reúna dezenas de milhares de pessoas causa desgaste no governo, perda de popularidade e de legitimidade. E não há indicativo de que isso vai desaparecer. Se olharmos historicamente, é a primeira vez que a direita tem expressão de rua relevante desde a democratização. Os grupos que estão convocando se apresentam como sendo de direita, liberais, ultraconservadores: o Vem pra rua, o Movimento Brasil Livre, o Revoltados Online. O novo conservadorismo deve ser observado. É uma nova cultura conservadora que tende a ler a política numa chave moralista, disciplinadora, e que gera muita barreira de classe. Os programas sociais são vistos como uma ação indevida do Estado, como se pobreza fosse um castigo devido. Quando esse espírito se dissemina, as relações entre as classes ficam bem mais complicadas. 

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Luiz Werneck Vianna

Professor da PUC-RJ

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h17

Quem estava ali era a classe média brasileira, com seus diferentes estratos, demonstrando desencanto e desesperança também. Claro que houve recados explícitos em favor do impeachment, contra a corrupção. O sentido geral foi: cansei dessa política. Não foi uma manifestação radical nem que apontasse caminhos para o futuro. A presidente tem que mudar seu estilo de governar, seu programa. Tem que procurar aliados novos. E, no limite, já está na hora de, pelo menos nos bastidores, conversar com a oposição. Não dá para não atentar para a gravidade da situação sem que se esboce qualquer alternativa de reação. A presidente diz que o caminho econômico que ela perseguiu ao enfrentar a crise de 2008 está exaurido. Precisa reconhecer bem mais que isso: que o tipo de política que o partido dela e ela representaram também se exauriu. O impeachment não é desejável de forma alguma. Se o impeachment não é desejável de forma alguma, quatro anos de uma presidente emparedada é ainda mais ameaçador do que ele. 

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Adriano Pilatti

Professor de Direito Constitucional da PUC-RJ

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h12

O 15 de março revelou preocupante capitalização de insatisfações, até legítimas, por organizações de direita, interessadas em desgastar o governo até inviabilizá-lo, ou em regressões mais graves. O mal estar com a corrupção e as mentiras eleitorais, ampliado pelos últimos escândalos e respectivo tratamento midiático, e a frustração pelas medidas econômicas, foram espertamente canalizados para atingir tão somente o governo federal e o PT. Também lá estavam setores golpistas e reacionários inconformados. Mas seria um erro tratar tudo isso como se fosse uma coisa só. A polarização entre “vermelhos” e “azuis” chegou ao seu paroxismo, mas não suprime o “terceiro setor”, os 37 milhões de eleitores que não votaram em Dilma ou Aécio. E também os que votaram, mas não foram às ruas por se sentirem traídos por um governo em que já não confiam, ou porque não quiseram servir de massa de manobra dos oposicionismos oportunistas. Aí está o “fiel da balança”, e talvez dele possam surgir, à esquerda e à direita, as forças de renovação e aprofundamento da democracia brasileira.

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Helcimara Telles

Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h09

Uma primeira "novidade" é destacar a organização não-institucional destes grupos no espaço on line, que não se encontraram liderados por "políticos tradicionais" Em segundo lugar, a presença do antipetismo nas mensagens compartilhadas, inclusive nos espaços offline. Finalmente, mais não menos importante, seria o caso de indagar se os efeitos dos ajuste fiscal e consequente piora dos indicadores econômicos, poderá expandir este perfil ideológico a outras parcelas do eleitorado, tanto através da atração de eleitores identificadas com o centro político ou com a emergente (ainda que minoritária) extrema-direita e, mesmo, se as consequências econômicas poderão seduzir segmentos tradicionalmente sob maior influencia do governo e do PT, sobretudo os recém-chegados à chamada "Nova Classe C". Os protestos demonstram profunda crítica à classe política, que novos perfis ideológicos emergem, os grupos oposicionistas têm aprendido a "organizar as ruas" e o PT delas se distanciou.

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Argelina Figueiredo

Professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP-UERJ)

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h07

No 15 de março de 2015 testemunhamos o primeiro movimento político de massa ocorrido durante e depois da redemocratização que não contou com a participação de militantes do Partido dos Trabalhadores (PT). Foi ao contrário um movimento de crítica e oposição a um governo do PT. Serviu para mostrar a muitos que "ir às ruas" é um instrumento democrático legítimo para a população demonstrar sua insatisfação com o governo e não um ato contra o país. E dessa forma foi visto pelo governo.  A democracia brasileira deu mais um passo à frente.

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Charles Pessanha

Professor de Ciência Política da UFRJ

O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 00h02

Efetivamente, não foi uma manifestação trivial, assim como as manifestações em junho de 2013 não foram. São alertas que foram causados pela paralisia decisória do governo. O presidencialismo depende fundamentalmente da liderança do presidente da República, é ele quem pauta o poder.                                                                                  

Há uma paralisação do executivo, que não exerce liderança, não pauta a sociedade, e com isso está cedendo espaço para que outros atores políticos tomem conta do processo de decisão. Isso traz problemas e, se continuar, é pior. Estamos há dois meses com o processo decisório emperrado, e o governo tem decisões prementes a tomar.

Não estou negando nem desconhecendo que a situação política, por conta da Operação Lava Jato, complica as coisas. É um problema difícil, mas o governo precisa fazer sua parte. É preciso conversar com a população e com os aliados, ter mais rapidez, mais liderança, e sair do corner.

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Milton Lahuerta

Coordenador do Laboratório de Política e Governo da Universidade Estadual Paulista

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 23h59

A manifestação, por si só, não traz algo de novo. Ela expressa uma polarização que vem acontecendo desde as eleições de 2010 e que se acentuou ainda mais nas eleições de 2014.

O que o protesto do 15 de março revela é que a temperatura da fervura está crescendo, o que não é bom. Há uma crescente nesse processo que começa a se tornar preocupante. Seria interessante que as lideranças trabalhassem para construir canais de interlocução, e não para destruir esses canais. 

Há um desencantamento geral em relação à política, mas isso é centrado principalmente no governo federal. O governo cometeu um erro ao tentar organizar uma manifestação de apoio na sexta-feira anterior ao ato. Me parece que o tiro saiu pela culatra, porque serviu como estímulo para que as pessoas saíssem às ruas no domingo.

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Rita de Cássia Biason

Coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisa sobre a Corrupção da Unesp-Franca

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 23h56

No que diz respeito ao combate à corrupção, independentemente do número de pessoas, pela primeira vez os manifestantes estão associando corrupção, dinheiro público e agentes políticos. Isso é muito interessante, pois não havia sido observado até agora.

Em manifestações passadas, eu não via essa associação, esse link de três eixos. Dessa vez o que existe é uma população indignada com o uso do dinheiro público para fins privados. 

Isso não se aplica à questão da Petrobras, onde o dinheiro ilícito vem de empresas. Nesse caso há um problema nas licitações. Existe uma apropriação por parte de empreiteiras, de um dinheiro que seria delas, para pagar suborno.

O que vai decorrer disso, ninguém sabe. Há um pacote de medidas, e o que espero é que ele não inclua corrupção como crime hediondo. Eu não preciso de mais uma lei, eu preciso é de aprimoramento dos mecanismos de controle do dinheiro público.

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Aldo Fornazieri

Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 23h54

O 15 de março é revelador da falência do sistema político e partidário brasileiro. Dirigido contra a presidente Dilma, contra o PT e contra a corrupção, além de outras bandeiras, ele foi convocado promovido à revelia dos partidos políticos e das instituições da sociedade civil. Políticos da oposição que compareceram nos protestos foram vaiados e impedidos de falar. Isto indica o quanto o governo e a oposição não são capazes de oferecer alternativas à sociedade. Há um esgotamento do sistema político brasileiro sem que surjam alternativas e lideranças novas. Há dois riscos em tudo isto: 1)uma radicalização do processo sem a possibilidade de saídas negociadas; 2) uma lenta legitimação de grupos que propõem saídas antidemocráticas. Ademais, sem organização e sem direção, essa enorme energia que se viu nas ruas poderá se esvair sem conquistas concretas. 

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Fernando Abrucio

Professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (SP), coordena o Mestrado e Doutorado em Administração Pública e Governo

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 23h52

As manifestações representam não somente a crítica ao Governo Dilma e ao PT, mas também um desencanto da sociedade, em particular da classe média (sobretudo a paulista) com o sistema político brasileiro. Trata-se de um movimento que teve seus primeiros passos em junho de 2013 e que ganhou uma dimensão de negação dos políticos que atinge o governo e até a oposição. 

Ficam duas perguntas: esta insatisfação vai se espalhar para outros setores sociais e regionais com a mesma força que teve em SP? E de que maneira a mobilização social vai criar uma agenda e meios para mudar a política? Afinal, só se modifica o sistema político influenciando seu centro de decisão.

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José Álvaro Moisés

Professor da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa Qualidade da Democracia, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP)

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 23h42

15 de março foi um recado importante em vários sentidos. Primeiro, de que temos uma democracia pujante, com muita diversidade política e o desejo das pessoas de influenciar os rumos do governo. Depois, os manifestantes anunciaram que estão insatisfeitos com o governo, querem que ele mude ou saia. A ideia de que as manifestações eram golpismo ou terceiro turno caíram por terra, mas as pessoas se mostraram cansadas da corrupção, desconfiadas do governo e de instituições como os partidos e o Congresso.

Outras coisas também ficaram claras: o PT e o governo Dilma dizem, sempre que podem, que querem construir um projeto hegemônico no país, a favor da justiça e da igualdade social, mas são incapazes de perceber que hegemonia é algo que supõe incluir os que pensam diferente e que o esforço de convencer os outros é sempre necessário a quem quer governar para todos. A ideia de que foi um evento só de ricos e 'coxinhas' não tem apoio na realidade e espanta que o governo se iluda sobre isso.

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Lincoln Secco

Professor de História contemporânea na USP

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 23h39

As manifestações do 15 de março não surpreendem nem pelo número de participantes (afinal estão longe da importância da Campanha das "Diretas Já" que mobilizou 5% da população da época) e nem pelo conteúdo, já que a crítica da corrupção fez parte tanto das passeatas golpistas no pré-64 quanto de campanhas do PT nos anos 1990. Sua novidade está na forma.

Desde junho de 2013, manifestantes se autoconvocam sem a mediação de partidos. Só que em junho, os protestos começaram com uma esquerda não partidária e,depois, se massificaram com uma pauta difusa. Agora, a convocação foi fragmentada, mas o objetivo se unificou nas ruas num antipetismo militante. O problema é que não há saída democrática antes de 2018 para ele. O sentido de junho estava no futuro. Se os partidos de oposição não representarem o 15 de março, ele só poderá olhar para o passado, ainda que com as técnicas mais avançadas do presente.

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Cláudio Couto

Professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP)

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2015 | 23h37

O 15 de março é um marco da história política brasileira. Após três décadas - desde os estertores da ditadura - em que a esquerda puxou a fila das grandes mobilizações no Brasil, agora foi a direita a fazê-lo. Isto não ocorria desde 1964, quando das "Marchas da Família com Deus e pela Liberdade". Isto não significa que todos manifestantes sejam de direita. Eis aí a força do episódio: a direita capitaneou uma mobilização que lhe ultrapassa.

Daí a encalacrada de Dilma e do PT. O ensimesmamento, a arrogância e falta de autocrítica diante de seguidos escândalos de corrupção - turbinados pela desastrosa política econômica do primeiro mandato e pela incompetência na gestão da coalizão - deram substância a ressentimentos de classe produzidos pela redução das desigualdades dos anos Lula. Resultado: deu-se a setores médios conservadores oportunidade para liderar até mesmo os que emergiram.

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