Felipe Rau/Estadão
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12 olhares sobre as manifestações de 12 de abril

O que muda na política após os novos protestos anti-Dilma, que tiveram adesão menor, mas levaram mais uma vez milhares às ruas

O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 23h15

A diminuição da quantidade de presenças nos protestos anti-Dilma não reflete uma diminuição da indignação que permeia o País e que será cada vez mais sentida e mobilizadora. A meu ver, esta diminuição das presenças tem a ver com a dificuldade que setores mais conservadores e à direita do espectro político enfrentam ao tentar manter um nível permanente de mobilização, ainda que em São Paulo a mobilização não tenha sido pequena, mas menor que em 15 de março.

Isso sinaliza que existe um espaço político para que setores mais independentes do governo em um campo progressista possam capitalizar esta indignação numa perspectiva democrática e propositiva, indo além do vazio, do governismo ou de um “Fora Dilma”. Existe espaço para a criação de pautas e sentidos frente às crises que vivemos, e isto deve partir da sociedade indignada.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 23h12

Erraram taticamente os organizadores da nova passeata contra o governo ao promoverem a ação do domingo. Tivessem ficado com as imagens anteriores e o impacto de março continuaria a incomodar o Planalto como um fantasma à solta, capaz de tirar o sono dos mandatários.

Com sabedoria, após o impacto da primeira marcha, o governo exportou a presidente para o Panamá e calou seus interlocutores para nada comentarem sobre o que houve em 25 capitais brasileiras e dezenas de cidades do interior do País. A sociedade mostrou-se insatisfeita com o surgimento de novas notícias sobre a corrupção na esfera pública – antes era a Petrobrás, agora já entra em cena a Caixa e espera-se, o BNDES.

Com dois terços do eleitorado contra (um terço votou na oposição e outro deixou de votar), o governo está enfraquecido. Perplexo, o PT colhe o que plantou em 30 anos de um discurso pela ética que, após transformar-se em governo, viu o seu capital simbólico ser consumido pelo noticiário policial do País.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 23h10

A diminuição de pessoas nos protestos no domingo não significa que a situação da presidente Dilma Rousseff tenha melhorado. Na verdade, como confirma pesquisa Datafolha, a rejeição ao governo continua praticamente a mesma: 60% dos entrevistados consideram-no ruim ou péssimo.

Fica, porém, evidente que as mobilizações de massas nas ruas têm limites. Repeti-las em menos de um mês foi um erro estratégico. Para avançar, os movimentos precisam ter foco, como foi na campanha das Diretas-Já, o que não ocorre agora. O “Fora Dilma” confunde-se com o combate à corrupção, e o impeachment da presidente divide opiniões.

O momento exige ação política. E na política, em ambiente de disputa intensa, a iniciativa tem papel decisivo. O governo respira e ganha algum espaço para articular-se; a oposição, ainda muito fortalecida pela insatisfação popular, precisa definir propostas e caminhos para o País.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 23h04

A adesão aos protestos foi menor em número de pessoas e de cidades envolvidas. Isso pode configurar uma tendência de encolhimento dos movimentos anti-Dilma? É cedo para tal afirmação.

Diferentes grupos anti-PT buscam agora estabelecer interlocução com a política institucional e levar ao Congresso a demanda pelo processo de impeachment, o que ainda não encontra amparo factual. Mas o deslocamento para a política institucional é importante para isolar extremistas que demandam intervenção militar e afastam pessoas que rejeitam saída para a crise que não seja pela via democrática.

O governo, por sua vez, resolveu ser discreto. Evita expor a presidente e ministros em pronunciamentos ou entrevistas que antes apenas ampliavam o problema ao gerar panelaços. Também vem mudando sua estratégia de comunicação para reduzir desgaste público. Como novidades podem ainda surgir da Operação Lava Jato e de outros escândalos, não se pode vislumbrar a curto ou a médio prazos tempos de paz para ninguém, nem para os comandantes do Legislativo.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 23h01

No confronto entre os mais conservadores e o governismo petista, os protestos seguirão servindo para manter o segundo acuado pela oposição e recuado nas pautas progressistas. Os atos perderam força, mas não acabarão.

O renovado esforço midiático para inflá-los nos diz que a rua se tornou estratégica para a direita. Ao mesmo tempo, Dilma tornou-se quase irrelevante: o poder se deslocou para o Congresso e também dentro do governo. O outsider Joaquim Levy e o Consulado Eduardo Cunha- Renan Calheiros, coadjuvados por Michel Temer, formam o quarteto que de fato governa, e com uma agenda regressista. Resta ver se a direita seguirá a monopolizar a rua ou se outros conseguirão reocupá-la para barrar o tsunami reacionário que mistura terceirização, maioridade penal, estatuto “da família”, autonomia do BC, arrocho salarial, securitário e creditício etc. 

Podemos esperar que os “de baixo” se deixem abater mansamente? Protestos moleculares continuam a se multiplicar nas periferias com outras pautas: violência policial, acesso a bens e serviços básicos etc, apesar do bloqueio midiático.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 22h59

As manifestações diminuíram por dois fatores: o “timing” ruim – as de domingo não foram tão próximas das de março que continuassem na onda emocional, nem tão distantes para que se considerasse necessário uma volta – e o afastamento do pensamento médio do brasileiro. Essa segunda é mais grave e me faz projetar que esse tipo de protesto se esgotou ontem. Foi um sonho de uma noite de verão.

Os manifestantes destilaram ódio e perfil beligerante. As pesquisas são fartas em revelar que o brasileiro odeia o extremismo. O perfil médio nos protestos indica faixa etária de 50 anos, renda alta e eleitor de Aécio Neves no ano passado. Em vez de falarem para fora, se isolam mais. Não têm tradição de dialogar com outros segmentos sociais. 

O problema não reside na questão governo versus não governo, porque já está claro que a ampla maioria dos brasileiros está contra Dilma Rousseff. O que existe é a população não se ver representada por interesses partidarizados, por sindicatos, igrejas. É o movimento de enxameamento de que se fala nos Estados Unidos e na Espanha.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 22h56

 É óbvio que os eventos de domingo não tiveram a mesma magnitude do 15 de março. O que pode dar ao governo e à classe política a sensação de que, se aguentarem o “tranco”, em breve tudo voltará à normalidade. Nada mais enganoso!

As “ruas” vêm demonstrando desde 2013 uma cisão entre as instituições e a sociedade em busca de direitos. Em 2015, a isso se somou a decepção com relação ao governo Dilma Rousseff, causada tanto por sua incompetência política quanto pela ação de setores da mídia e da elite que se recusam a aceitar o resultado eleitoral. A insatisfação social é crescente e revela a ausência de uma pauta mínima que sintetize as demandas numa plataforma política coerente. Há em curso um conjunto de crises (política, econômica, moral) e os políticos mostram-se aquém das circunstâncias.

Por isso, a hora é a da (grande) política! Trata-se de baixar a temperatura e de criar um clima de entendimento entre governo e oposição. Enquanto se trata de negar o existente, é possível ocorrer uma união momentânea dos variados setores da população. Já na definição do “próximo passo” o mais comum é que se instale o dissídio. Se não houver a exata noção desse risco, a tendência será de acirramento e as “ruas” virão à tona de modo cada vez mais intolerante e golpista.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 22h53

Os manifestantes que foram aos protestos de Belo Horizonte têm perfil bastante conservador. Em geral, aderem à democracia representativa, como demonstrado pela discordância em relação ao fechamento do Congresso, mas resistem a temas que dizem respeito à expansão dos direitos das minorias.

Interessante notar que agendas mais problemáticas se expandiram neste público. Segundo pesquisa do Grupo Opinião Pública (UFMG), a maioria tem forte sentimento antipetista e discorda das políticas de inclusão social. Contudo, nota-se que a maior parte foi às ruas pela indignação com a corrupção, tem profundo desencantamento com os partidos em geral e desejam a cassação/renúncia ou impeachment de Dilma Rousseff.

A pergunta que se coloca é se tal público corresponde apenas aos participantes do 12 de abril ou se, ao contrário, se estende a parcelas significativas da sociedade. Por outro lado, observa-se que aparentemente não é o PSDB quem herdará automaticamente este segmento: muitos citam intenção de voto para presidente, se as eleições fossem hoje, em candidatos como Joaquim Barbosa, provavelmente por desejarem um “novo nome”, não contaminado pela mal avaliada “política”.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 22h49

A tendência de declínio do número de participantes nas manifestações era previsível. Afinal de contas, são protestos que não têm líderes visíveis nem estruturas partidárias ou organizações da sociedade civil capazes de mantê-los ativos por tempo prolongado. O “Fora Dilma”, por sua vez, é um desejo que não encontra respaldo na realidade, pois o impeachment não tem acolhida política e jurídica.

Assim, se não surgirem fatos novos e contundentes, a tendência é a de que os protestos se esvaziem. Mas como a situação econômica do País deve se agravar, ao menos neste ano, com aumento do desemprego, inflação e estagnação econômica, o mais provável é que o descontentamento deságue em reivindicações concretas, empalmadas por movimentos sociais e sindicais, com pautas definidas e passíveis de negociação. 

Na medida em que nem governo nem oposição apresentam saídas razoáveis para a crise, ela deve se naturalizar na sociedade. O governo deve chegar até 2018 sem que os grandes problemas do País sejam resolvidos.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 22h47

 Vejo uma dinâmica típica de mobilização de rua. É muito difícil manter uma mobilização ascendente sem fatos políticos relevantes, e nisso não importa se estão à direita ou à esquerda do espectro político: todos sofrem das mesmas contingências.

Cem mil pessoas na Avenida Paulista não é pouca coisa, é muitíssimo significativo. As manifestações só estão decrescendo por dificuldades de mobilização, porque as pesquisas mostram que a pauta encontra ressonância mais ampla. Em São Paulo é muito centrado na classe média, mas a insatisfação que se expressa está disseminada por toda a sociedade.

As outras classes só não estão nas ruas porque a mobilização entre elas é um fenômeno muito difícil num país com as desigualdades sociais do Brasil. O uso do WhatsApp é uma barreira tecnológica, porque dessa forma é difícil sair de seu meio social. As classes mais baixas ainda não estão nas ruas e essa deve ser a principal preocupação do governo. O que falta é existir um grupo convocante com legitimidade.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 22h43

Desde as manifestações de 2013, ficou evidente a hostilidade de parcelas da população ao sistema político e à insensibilidade dos políticos em relação às demandas das pessoas comuns. Com as reviravoltas e trapalhadas cometidas pelo governo neste início de mandato, abriram-se brechas – enormes – onde foram desaguar mais agressivamente as críticas oposicionistas de direita e de centro.

Mesmo nas esquerdas o descontentamento é grande, pelos mesmos motivos, mas com sinais trocados. As últimas manobras da presidente, delegando seus poderes de articulação política ao PMDB de Michel Temer e de direção da educação a Renato Janine Ribeiro, um homem de centro, restringiram seus espaços de governança, mas lhe deram fôlego – e tempo – para ensaiar uma recuperação.

Mas Dilma continuará sendo pressionada pelas direitas e pelas esquerdas. As dificuldades econômicas vindouras e outros fatores de instabilidade política vão provavelmente contribuir para ciclo de manifestações e de contramanifestações que conferirão vitalidade à democracia realmente existente no Brasil.

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O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 22h38

É sempre bom que a sociedade vá às ruas e mostrar descontentamento com a política e as políticas públicas. Porém, para que isso seja mais efetivo, é necessário que os grupos sociais definam objetivos e de que maneira podem alcançá-los. Neste sentido, se a luta se orienta pelo “Fora Dilma”, as manifestações ficaram longe da meta. Primeiro porque, para se chegar a propósito tão amplo, é preciso juntar pessoas de diferentes estratos sociais. Mas as periferias faltaram ao encontro de domingo.

Em segundo lugar, é preciso chegar à classe política, a responsável por levar adiante o impeachment. Mas o mantra dos “sem partidos” atrapalha a busca do objetivo. Ademais, é bom se perguntar o que fará o Congresso quando os presidentes da Câmara e do Senado possivelmente se tornarem réus por corrupção.

O erro dos movimentos de rua é ter adotado uma visão redentora da política, na qual haveria um momento mítico de regeneração da sociedade caso ocorra o impeachment. Mas se isso não der certo, o que ficará das manifestações? O melhor caminho seria montar uma agenda substantiva de políticas e uma estratégia para alcançá-la. Seria a melhor forma para evitar a decepção se o objetivo único e redentor não for atingido.

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