‘Vou à CPI e vou pedir a quebra do meu sigilo’, diz jornalista

Luiz Carlos Bordoni, que trabalhou na campanha do governado de GO e foi pago por empresa que seria ligada a Cachoeira, aceita depor na comissão

Fernando Gallo, de O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h04

"Estão brigando com um Davi, só que esse Davi não tem medo de nenhum Golias, não." Assim o jornalista Luiz Carlos Bordoni mostra a disposição de ir à CPI do Cachoeira para falar sobre a acusação - feita com exclusividade ao Estado - de que foi pago por uma empresa ligada ao contraventor Carlinhos Cachoeira por serviços prestados à campanha do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), em 2010. Em nova entrevista, Bordoni afirma que negociou diretamente com o tucano pagamento de R$ 120 mil pela atuação na campanha, contradizendo a versão do governo, de que o valor foi de R$ 33,3 mil.

Como o sr. avalia as afirmações do governo goiano de que suas declarações são mentirosas e de que vai processá-lo?

É um direito que eles têm de entrar com ação contra mim, já que eles acham que estão com a razão. Mas não sei por que o poder está se doendo. Eu disse que queria esclarecer a situação de um depósito envolvendo o nome da minha filha e consequentemente o meu nome. Simplesmente contei a história de como foi feito o depósito. Inclusive houve um segundo depósito para completar os R$ 90 mil.

Como foi isso?

Estou fazendo esse levantamento e vou encaminhar até vocês. E tem outro detalhe: vou solicitar que seja quebrado o sigilo telefônico tanto meu quanto da minha filha e que também o façam com o telefone do sr. Lucio Gouthier Fiúza (assessor particular de Perillo) para constatarmos quem está falando a verdade. Já que eles querem a briga neste nível, nós vamos brigar neste nível.

Alguém avisou o sr. a respeito desse pagamento?

O Lúcio, que ligou. Nos dois depósitos, foi ele quem me ligou.

Na sexta-feira, parlamentares defenderam sua ida à CPI do Cachoeira. O sr. está disposto a comparecer à comissão?

Se for para estabelecer a verdade, eu vou a qualquer lugar para defender o meu nome e o da minha filha. Se quiserem enlameá-los, como estão tentando fazer agora, vamos ver como vai ficar esse jogo de forças aí.

O sr. tem algum temor?

Não temo os poderosos, não. Por que tentar imputar a mim a pecha de mentiroso, de irresponsável? Quer dizer que durante todas as campanhas que eu fiz eu era o bom e o maravilhoso, e agora eu sou o mentiroso e o irresponsável? Talvez então eu tenha sido mentiroso e irresponsável ao pedir voto para ele?

Com quem o sr. negociou sua participação na campanha e o valor do seu trabalho?

Diretamente com o candidato.

O governador Marconi Perillo?

Exatamente.

Como isso se deu?

Nós sentamos e ele me perguntou: "Quanto é que você quer?" Eu disse: "Eu quero tanto". Ele respondeu: "Não, posso pagar tanto". Eu tinha pedido R$ 200 mil. Acertamos que seriam R$ 120 mil no primeiro turno e mais R$ 50 mil caso a campanha fosse vitoriosa.

Quando foi esse encontro?

No escritório dele. Eu já havia estado com ele antes, no gabinete dele, quando ele era vice-presidente do Senado. Ele até havia perguntado para mim o que eu achava de ele voltar a ser candidato em Goiás. Eu disse que era bobagem, que quem tem que pensar em futuro tem que pensar para a frente. Voltar é regredir. Defendi isso no gabinete dele.

Onde fica o escritório onde o sr. negociou com ele a participação na campanha?

Em Goiânia. Sentamos e conversamos. Tinha várias pessoas para ele receber em audiência. A conversa foi um tanto rápida.

Há testemunhas?

Testemunhas de que entrei para conversar com ele tem. As pessoas que o secretariam viram eu entrar e conversar com ele.

Quando foi isso?

Campanha começa em agosto, as coisas são negociadas mais em junho, julho, foi por aí.

Foi o governador ou alguém do estafe dele que chamou o sr.?

Ele me chamou. Tanto é que ele me perguntou quanto eu queria pela campanha. Eu fiz a primeira campanha dele, em 1998. As pessoas se esquecem das coisas. Hoje eu sou o bandido, o mentiroso, o irresponsável. Não queria estar falando isso para você nem para os leitores do seu jornal. Agora, eles provocaram isso. Estão brigando com um Davi. Só que esse Davi não tem medo de Golias nenhum, não.

Como foram feitos os pagamentos ao sr. em outras campanhas?

Nas campanhas anteriores não percebi nada de irregular, não. Tudo ocorreu normalmente.

Com quem o sr. conversou sobre a primeira parte do pagamento, que o sr. diz ter recebido ainda na época da campanha?

Eu estava cobrando o comitê de finanças. Quem estava lá era o Jayme Rincón, a quem cobrei diretamente. Ele repassou uma perna para o Adriano (Gehres, marqueteiro de Perillo no primeiro turno em 2010), e ele falou para o Adriano repassar R$ 30 mil para mim. O Adriano disse que não ia pagar porque tinha salários para pagar, coisas da equipe dele. Eu não tinha sido contratado por ele. Nem discuti.

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