Vizinhos, quase amigos

Brasil tenta ser mediador e usar sua influência local, sem parecer imperialista, para se apresentar mais forte em outros cenários

Lisandra Paraguassu e Iuri Dantas, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2014 | 22h00

Maior economia da América Latina, o Brasil caminha na fina linha entre a liderança regional e acusações de imperialismo. Ao mesmo tempo em que, inevitavelmente, exerce o poder não apenas político, mas também econômico sobre os vizinhos – como o maior financiador de obras na região, através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) –, o governo brasileiro tenta conquistar uma imagem de mediador em um continente que caminha entre o esquerdismo bolivariano e o caminho mais liberal da Aliança do Pacífico, mas convive com crises locais que, frequentemente, respingam por aqui.

A relação com os vizinhos, sempre prioritária para os presidentes brasileiros, ganhou mais relevância nos governos petistas. Na última década, somaram-se ao Mercosul a União de Nações Sul-americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), os dois com patrocínio do Itamaraty. Apesar do protagonismo inicial, o Brasil não quis assumir a secretaria-geral de nenhum. “Não aceitamos justamente para poder manter essa situação de neutralidade. Muitos países esperam o Brasil para decidir sua posição, somos o fiel da balança. Se aceitamos a secretaria perdemos essa condição", disse ao Estado um alto diplomata brasileiro.

Mas não são poucas as críticas recebidas pelo Brasil pela sua atuação nas crises da região. De modo geral, para preservar um papel de mediador, o governo se abstém de críticas veementes e tende a ser benevolente com problemas criados por vizinhos. O empenho do governo da Venezuela pelo controle da oposição e dos críticos jamais mereceu palavras duras de Brasília. As frequentes barreiras comerciais impostas pela Argentina são tratadas, ao menos oficialmente, com mais calma do que desejariam os empresários.

Até hoje, só o Equador tirou a paciência da diplomacia brasileira, ao expulsar a Odebrecht em 2008, sob acusação de descumprimento de contrato na construção de uma hidrelétrica. O presidente Rafael Corrêa também se recusou a pagar a empresa pela obra, financiada pelo BNDES. Desde então, Correa não visita nem recebe um presidente brasileiro. Mas foi só.

O “paciência” brasileira com os vizinhos se rege por um cálculo no governo petista, principalmente. Mais do que integrar geográfica e economicamente seus membros, os grupos criados na última década servem para reforçar a coordenação política da região, em uma ação que dá força à liderança brasileira. Apesar dos resmungos locais, o Brasil é um dos únicos países da região que integra o G20 e, ao mesmo tempo, tem contato direto com as maiores economias emergentes através do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e canal direto com países africanos.

‘Urso’. “O Brasil é um urso, mesmo quando está brincando com a patinha pode arrancar sua cabeça, tamanha sua desproporção na região. O Brasil não está exercendo protagonismo, toda a região precisa dele para sedimentar opiniões”, avaliou Leonardo Valente, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Existe uma estratégia sedimentada de usar a vocação da liderança e toda a região sabe que o Brasil é um líder regional com projeção global, que usa essa liderança para dar voz à multilateralidade regional.”

Nos últimos meses, encontros promovidos pelo Brasil mostraram a intenção de dar voz aos demais sul-americanos. Os países da região se reuniram com os Brics. No âmbito da Celac, uma reunião com o presidente chinês, Xi Jinping, resultou em uma promessa de US$ 35 bilhões em financiamentos para a região. Também caberá ao Brasil defender na próxima reunião do G20 uma mudança nas regras de negociação das dívidas soberanas para impedir ações de fundos como se viu na Argentina.

Embora os governos do PT desde 2003 tenham dado mais destaque ao relacionamento com os vizinhos, especialistas não veem ruptura em relação à diplomacia praticada antes. Um exemplo seria a criação do Grupo de Amigos da Venezuela, em 2002, após o golpe que tentou derrubar Hugo Chávez.

Segundo Luiz Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp (SP), o Brasil ganhou mais protagonismo após a morte de Chávez. Até então, muitos políticos da região alinhavam-se politicamente com ele mas, nos bastidores, reiteravam que eram responsáveis na economia como Lula.

“O Brasil sempre apostou que problemas da região deveriam ser resolvidos dentro da região, o que se materializou na criação da Unasul e da Celac”, avaliou. "O Brasil busca autonomia, mas sem antagonismo em relação aos EUA, superando as divergências de forma negociada.”

Embora cobrado por ser benevolente com Caracas, nas manifestações de fevereiro, o Brasil fez chegar a Nicolás Maduro, por exemplo, o aviso de que não poderia aceitar ameaças de golpe. 

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