Vitória da campanha que não saiu da ofensiva

Reeleição vem com discurso de desconstrução dos adversários e volta da militância às ruas

Valmar Hupsel, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 00h57

Dilma ganhou batendo. A máxima de que o ataque é a melhor defesa - eficiente em guerras e jogos de xadrez - foi usada à exaustão pela equipe de marketing da então candidata à reeleição, hoje presidente reeleita, para atingir dois principais objetivos: desconstruir seus adversários e colocá-los nas cordas, impedindo que eles explorassem as fragilidades de seu governo.

O tucano Aécio Neves (PSDB) foi o primeiro alvo - e o último. Ainda em maio, antes mesmo do início do horário eleitoral em rádio e TV, a campanha petista lançou peças publicitárias que explorava o medo dos “fantasmas do passado”. A peça tentava incutir na cabeça do eleitor que uma eventual derrota do PT nas urnas significaria a perda de avanços conquistados pela população - a mesma estratégia foi usada em 2010, quando Dilma se apresentava como a candidata da continuidade do governo petista.

Dois meses depois, o meteórico crescimento de Marina Silva - alçada a candidata do PSB após a trágica morte de Eduardo Campos no dia 13 de agosto - mudou o foco da artilharia petista e fez dela o novo alvo primordial. Os ataques começaram no fim daquele mês, quando as primeiras pesquisas em que constavam o nome de Marina como candidata a colocavam na segunda colocação, a apenas cinco pontos de Dilma.

O primeiro golpe foi por meio de críticas à proposta da candidata do PSB de dar autonomia ao Banco Central caso fosse eleita. No fim de agosto, Marina apresentou seu plano de governo, um calhamaço de 242 páginas mas, no dia seguinte, voltou atrás em dois pontos - a política energética e as garantias de direitos para o público LGBT.

O recuo foi fortemente explorado pela campanha petista, que tentou colar nela a pecha de uma candidata que não tem opinião consistente. Nos 45 dias seguintes, a campanha de Marina não resistiu ao bombardeio - na internet, no horário eleitoral, nos debates - por acusações de estar voltada para interesses dos banqueiros, de ameaçar programas sociais como o Bolsa Família, por ter votado contra a CPMF, por não se posicionar claramente com relação ao uso do pré-sal, entre outras.

A desidratação da campanha de Marina diante dos ataques colocou Aécio novamente na disputa - e na mira petista. Na curta campanha do segundo turno, os quatro confrontos diretos promovidos pelos debates das tevês Band, SBT, Record e Globo pautaram os ataques, amplificados no horário eleitoral e na internet.

Nos encontros, ao se defender de acusações de desvios da Petrobrás e críticas ao seu governo, Dilma usou duas estratégias para atacar o adversário. Focou suas armas nas administrações de Aécio no governo de Minas e de Fernando Henrique Cardoso, que também é do PSDB, na presidência. Acusou o tucano de desvios de recursos na área de saúde, de construir um aeroporto público nas terras de sua família, de ser o representante do governo que engaveta denúncias e retiraria conquistas sociais principalmente dos mais pobres, etc.

Militância. A polarização PT-PSDB e a possibilidade real de vitória de Aécio acabou por reacender a militância petista - especialmente jovens. Na opinião do cientista político Wagner Iglécias, da Universidade de São Paulo (USP), a nova geração de militantes petistas andava recolhida por dois motivos. O primeiro foi a condenação de membros da cúpula do partido no julgamento do chamado mensalão, em 2012. “Houve nesse instante a explicitação de dois projetos políticos, seguida de uma aguda polarização, que mobilizou a militância”, observou. / COLABORARAM ROLDÃO ARRUDA E ISADORA PERON

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