Visita à casa mostra ausência de rancor

Aproximação eleitoral começou dez anos atrás

/ F. G., O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2012 | 03h05

Capaz que o acordo entre PT e PP já num primeiro turno soe ideologicamente estranho para alguns, mas algo cristalino surgiu ontem em meio ao cenário político cinzento que turva a vista do eleitor paulistano: Paulo Maluf e Lula não guardam rancor.

Fosse assim, não teriam se reunido para selar o acordo de apoio a FErnando Haddad na casa do deputado na Rua Costa Rica, Jardim América - a mesma casa em que ele mora há 49 anos, com a mesma mulher com quem está casado há 57. Nem Maluf teria recebido com galhardia o ex-presidente, que tanto o fustigou.

Em março de 1993, quando as pesquisas apontavam ambos como os dois candidatos mais cotados à sucessão presidencial, Maluf comparou administradores petistas a "nuvens de gafanhotos". Lula rebateu: "Maluf esquece de seu passado de ave de rapina. O que ameaça o Brasil não são nuvens de gafanhotos, mas sim nuvens de ladrões. Maluf não passa de um bobo alegre, um bobo da corte, um bufão que fica querendo assustar as elites acenando com o perigo do PT. Maluf é igualzinho ao Collor, só que mais velho e mais profissional. Portanto, mais perigoso".

O então prefeito de São Paulo contra-atacou. "Ave de rapina é o Lula, que não trabalha há 15 anos e não explica como vive", disparou. "Ave de rapina é o PT, que rouba 30% de seus filiados que ocupam cargos de confiança na administração pública." Maluf ainda emendou: "Se o Lula acha que há ladrões à solta, que os procure no PT, principalmente aqueles que patrocinaram a municipalização do transporte coletivo de São Paulo".

Anos antes, em setembro de 1986, Lula atacara Maluf duramente: "Como Maluf pode prometer acabar com ladrão na rua enquanto ele continua solto?".

As rusgas começariam a diminuir em 2002, quando Maluf apoiou o ex-deputado José Genoíno (PT) no segundo turno contra Geraldo Alckmin (PSDB), na eleição ao governo do Estado. Em 2004, o ex-prefeito apoiou Marta Suplicy na disputa pela prefeitura. Em 2005, o PP passou a integrar o governo Lula no Ministério das Cidades, pasta que comanda desde então.

Ontem, Maluf, como sempre, estava à vontade: tinha um discurso pronto na ponta da língua para a decisão de abandonar os tucanos e não deixou o sorriso em nenhum momento.

Patrocinador do entendimento entre PT e PP por mais tempo na TV para Haddad, Lula parecia desconfortável. Na saída, junto com Maluf, Haddad e os demais presentes à chancela do acordo, parou, no jardim do ex-prefeito, a uma distância de uns 10 metros dos repórteres, para a foto oficial.

Pouco sorriu em sua primeira visita à casa do deputado e saiu sem conceder entrevista.

Procurado pela Interpol sob suspeita de lavagem de dinheiro, Maluf corre o risco de ser preso se sair do País. No Brasil, continua a ser um ótimo anfitrião. A julgar por ontem, nem ele nem Lula guardam qualquer rancor.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.