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Violência na cabeça

O medo está em alta no Brasil. O medo da violência cresce, e não só por causa de eventos isolados. A ampla cobertura da morte do cinegrafista Santiago Andrade ajudou a manter o tema em evidência, mas a preocupação com a própria segurança cresceu na cabeça dos brasileiros muito antes de o jornalista ter sido atingido mortalmente por um rojão durante uma manifestação.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2014 | 02h06

A pesquisa Latinobarômetro, feita logo que os protestos explodiram em 2013, já mostrava o agravamento da percepção de violência. Indagados a respeito da situação da segurança pública, a maioria absoluta dos brasileiros respondeu "ruim" ou "muito ruim". Essa taxa cresceu de 40% em 2010, para 48% em 2011 e chegou a 54% em 2013. É uma tendência que afeta profundamente o panorama eleitoral, em especial para os governadores.

Em 2010, uma das cenas mais marcantes na época da eleição foi a imagem de um bando de traficantes em fuga, após a ocupação policial de um complexo de favelas cariocas, com auxílio do Exército. Faturaram os governos estadual e federal. Quatro anos depois, não só o modelo das UPPs está em xeque. Todo o sistema de repressão está sendo testado e contestado. Caiu a aprovação.

Em 2013, só 14% disseram que a segurança pública era "boa" ou "muito boa". Se o Ibope replicasse hoje as mesmas questões, é provável que encontrasse ainda mais pessoas alarmadas.

Não só pelas violências associadas às manifestações de rua, mas por causa dos ônibus queimados diariamente nas grandes cidades, das decapitações nos presídios, dos mortos e desaparecidos pela polícia, do narcotráfico ostensivo e das repetidas notícias de arrastões, assassinatos e ataques indiscriminados. Se até bombeiro é assaltado enquanto apaga incêndio, por que não você?

A pergunta "por que não eu?" é cada vez mais frequente na cabeça dos brasileiros, como também mostra o Latinobarômetro. Até 2010, 43% diziam que se preocupavam "sempre" em ser vítima de algum delito violento. A proporção dos permanentemente preocupados subiu para 47% em 2011 e chegou a incríveis 61% em 2013.

Não que o resto esteja tranquilo. Outros 24% dizem que "quase sempre" estão preocupados. Ou seja, 85 em cada 100 brasileiros têm constantemente na cabeça o medo de sofrer uma violência. Os 8% que nunca se preocupam com isso moram, na maioria, em cidades com menos de 20 mil habitantes. O medo tem endereço: é um terço maior nas grandes cidades, principalmente nas periferias.

A sensação generalizada de insegurança é a incubadora de mil e um aproveitadores. De justiceiros a milicianos, passando por matadores de aluguel e seus proxenetas, até políticos e comunicadores que os defendem. Quem explora o medo e cultiva a vingança perpetua o círculo vicioso enquanto se alimenta dele.

E de onde veio esse pavor todo? Será uma ilusão coletiva? Afinal, as secretarias da segurança pública sempre têm uma estatística para mostrar que a criminalidade está em queda, e as prisões, cada vez mais cheias. Será a mídia, sempre acusada de sensacionalista, a culpada? Se for, tem grande ajuda dos fatos.

Em 2010, um em cada quatro brasileiros dizia ter experimentando a violência de perto. O próprio entrevistado ou um parente dele havia sido assaltado, agredido ou vítima de um delito nos 12 meses anteriores. Já era uma taxa de vitimização alta, e nos últimos quatro anos ela cresceu 56%. Os brasileiros com uma história de crime para contar passaram de 25% para 39% da população. A violência chegou mais perto, ficou mais pessoal e, por consequência, muito mais amedrontadora.

A exploração do medo é um clássico das campanha eleitorais em toda parte. Nos EUA, os republicanos transformaram isso numa arte para se segurarem na Casa Branca. No Brasil, esta será uma campanha que explorará vários medos - de mudança, de violência e de retrocesso. Coragem, eleitor!

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